Coluna B – 28/03

Em homenagem a mais uma falta de consideração do pessoal do jornal para com a minha coluna, vou postar aqui as últimas colunas que não saíram no jornal (mas saíram na internet, mesmo com algumas confusões) e a coluna dessa semana, que não saiu no jornal e, pelo que andei vendo até agora, quase meio-dia de sábado, ainda não foi colocada no ar em lugar algum dos sites de A Gazeta.

Fico contente em saber que o meu trabalho da semana toda é simplesmente ignorado pelos meus superiores.

Aí vai, então, a coluna de hoje.

*

Radiohead ao vivo

O que emociona você? O que te toca a ponto de fazer com que tudo tenha um pouqinho menos de graça quando aquilo acaba? O que te faz se perguntar, em um misto de desespero e arrebatamento, “minha nossa… o que vem agora?” Você, não sei. Mas eu pude conhecer as respostas dessas perguntas no último domingo, em São Paulo, quando no alto de um palco inacreditavelmente lindo estava a maior banda da atualidade. O Radiohead fez um show para entrar para a história do Brasil. E, com absoluta certeza, para entrar definitivamente na história da vida de cada um dos 35 mil presentes ao Just A Fest, na Chácara do Jóquei.

Se a organização do festival deixou a desejar em diversos pontos – principalmente na saída, quando um mar de gente teve que andar em bloco, a passos de tartaruga, por centenas de metros e em uma descida – os shows da noite trouxeram o que há de melhor na música mundial. O Los Hermanos, apesar do show ligeiramente morno, abriu os trabalhos matando a saudade dos fãs com canções escolhidas a dedo, inclusive algumas que eles nunca tocavam, como “Cher Antoine” e “Casa Pré-Fabricada”. Logo depois, com uma direção de arte simples e matadora, o Kraftwerk fez uma belíssima apresentação, tocando a grande maioria de seus sucessos e dando ao público as batidas e os gráficos que eles tanto gostam de ouvir e ver.

Tudo era apenas uma preparação para a grande estrela da noite. Enquanto a equipe do Radiohead montava o palco, a aflição ficava quase insuportável. Até que as luzes se apagaram, uma histeria coletiva tomou conta da Chácara e Thom Yorke e seus companheiros entraram no palco. Aí a coisa ficou pessoal. Eram mais de dez anos como profundo admirador do grupo, no aguardo de um aceno dos britânicos, de um dó maior das guitarras, de um “boa noite” em português enrolado. Parece ter sido há dez minutos que as batidas de “15 Step” deram começo à experiência artística mais fantástica da minha vida.

É quase impossível descrever o palco que o Radiohead trouxe ao Brasil. No cenário, telões de alta definição e colunas de LEDs tornavam tudo inesquecível. Diversas câmeras foram colocadas pelo palco (que algumas pessoas começaram a chamar de “nave da banda”, já que, não é possível, esse pessoal só pode ser de outro planeta), pegando todos os integrantes em ângulos inusitados – tudo com a marca da criatividade com a qual a banda pavimentou sua carreira. As cores mudavam a cada faixa, ou a cada guinada de guitarra, batida diferente ou berro estridente. Para mim, a definição da palavra “espetáculo” mudou a partir dessa apresentação. Com “There There” o público já estava de joelhos, e era apenas a segunda música. A sequência “The National Anthem”, “All I Need” e “Pyramid Song” serviu como um belo aquecimento para a primeira catarse coletiva da noite: “Karma Police” foi cantada a plenos e emocionados pulmões, a bela “Nude” recebeu um silêncio respeitoso em seu final apoteótico e “Weird Fishes/Arpeggi” acabou com qualquer vergonha machista de que homem não chora. E o show estava apenas começando.

Uma sequência de faixas voltadas pro eletrônico deu mais uma aula de como derrubar queixos com a produção genial do palco. A minimalista “Faust Arp” deu uma quebra necessária ao clima de rave, com apenas Yorke, Greenwood e seus violões no palco. A partir daí, “Jigsaw Falling Into Place” se mostrou ainda mais poderosa ao vivo, e “Idioteque” e uma “Climbing Up the Walls” ligeiramente desafinada trouxeram um pouco de barulho para a apresentação. Na linda “Exit Music (For A Film)”, o arrepiante silêncio era a principal estrela. Apenas a música, sem gritos ou participação do público, prestando uma grande homenagem a essa pérola de “Ok Computer”. Mas logo “Bodysnatchers” estava lá para trazer a festa, os saltos e os berros empolgados de volta ao gramado da Chácara. Fim da primeira parte.

A banda volta derramando emoção com “Videotape”: o piano perfeito, a voz demolidora, a batida perturbadora, o vento frio. Nada que eu disser vai chegar próximo da segunda grande catarse coletiva da noite: “Paranoid Android”, a faixa que melhor sintetiza a carreira do Radiohead, seguida da “música da propaganda do Carlinhos”, “Fake Plastic Trees”. O mundo podia acabar ali, naquela hora. Mas sorte a nossa que não acabou, porque as inebriantes “Lucky” e “Reckoner” formaram uma linda dupla antes da pausa. Mais um bis, a banda retorna com nada menos que “House of Cards” e a alucinada “You and Whose Army”, esta com direito a viagens na transmissão via telão.

Estava chegando ao fim um momento antológico na vida de cada um daqueles cidadãos. A incrível “Everything in its Right Place” era a canção escolhida para fechar a conta da passagem do Radiohead pelo Brasil. E foi mesmo incrível. A banda deixou o palco como se nunca mais fosse voltar, mas a pressão da platéia venceu. Em alguns minutos, lá estavam eles de volta. Fala Thom Yorke: “Eu sei o que vocês querem”. E então os primeiros acordes de “Creep” encheram o espaço em comunhão imediata com palmas, gritos, suspiros e lágrimas. Era a chave de ouro que todos esperavam para passar a régua no maior show que o Brasil já viu. Não só o Brasil. Aos 28 anos, posso dizer que já assisti ao show mais fantástico da minha vida. E, sem sombra de dúvida, descobri exatamente o que me emociona. Como se eu já não soubesse.

*

Last.fm: pagando pra ouvir

Um dos mais populares sites de música, que também é uma ferramenta de relacionamento, de marketing para as bandas e de diversão para o público geral, resolveu cobrar por alguns serviços. Pior: a cobrança vale para todos, com exceção de EUA, Inglaterra e Alemanha. Segundo Richard Jones, o criador do Last.fm, disse em seu blog oficial, a ideia inicial é cobrar 3 euros mensais para os usuários ouvirem as rádios em streaming do site – serviços como audio scrobbling (que envia ao banco de dados do site o que você está escutando em casa no momento) e agenda de shows, vídeos, biografias e recomendações das bandas vão continuar (por enquanto) de graça. É apenas o começo para o Last.fm se tornar o próximo Pandora, que também começou como uma rádio online, foi se desenvolvendo e acabou por ser totalmente bloqueada para não-pagantes. Uma pena.

Promoção Marcelo Camelo + Coluna B

Os vencedores da promoção realizada aqui na coluna foram Saulo Pratti e Camila Athayde, que vão ver de graça e com direito a acompanhante a apresentação do Camelo hoje, no Ginásio do Salesiano. E quem chegar mais cedo vai poder conferir este colunista nas carrapetas, acompanhado do camarada Renato Costa Neto, abrindo os trabalhos e dando um sacode no público. Aliás, neste sábado tem rodada dupla de discotecagem: primeiro no show, depois na festa “Futurama”, no Teacher’s Pub, onde, além do meu duo The Lebowskis, dão o play nas músicas os DJs Tuzzão, K-7, Hélvio e Rike Sick. Perde não!

Banda nova: Drummer

Depois do Dan Auerbach, do Black Keys, lançar material solo, é a vez de seu companheiro de duo, Patrick Carney, avisar que está com trabalho na praça. O bacana catou um baixo e chamou amigos para formar o grupo Drummer. E parece que vai sair coisa boa daí. Fique ligado no MySpace deles: /drummertheband.

“Where The Wild Things Are”

A direção de Spike Jonze já bastaria. Mas o filme ainda é baseado na obra clássica de Maurice Sendak e o trailer traz Arcade Fire na trilha sonora. Assista. Imperdível.

Todo mundo tem que ouvir

O disco dela já está quase velho (mentira, saiu oficialmente agora em março, mas já está na net há meses), mas ainda dá pra pedir que você não perca nem por reza o “Little Hells”, lindo trabalho da Marissa Nadler.

O folk de sonho, sereno e melodioso, que esta americana comete com tanto talento ganhou adição de tons sombrios e algum peso psicológico neste quarto álbum de sua carreira. Ouça “Little Hells” sem medo, mas fique sabendo: vicia.

Playlist

The Magic Kids – Hey Boy
Bob Dylan – Let Me Die In My Footsteps
Radiohead – Reckoner (The Twelves Remix)
Point Juncture, WA – Viking Mission To Mars
Marcelo Camelo – Mais Tarde
The Boy Leats Likely To – The Boy With Two Hearts
Cursive – From The Hips
Fever Ray – Keep The Streets Empty For Me
POPO – Pay The Price
The Antlers – Two

Anúncios

Um comentário sobre “Coluna B – 28/03

  1. bruno, to ficando “Onça” com o jornal ! pow, parar de publicar sua coluna é um desrespeito com a música indie! que bom vc ter resolvido publicar a coluna aqui no seu blog pq todo sábado eu corro pra ler as news quentinhas e fico very frustrada quando não encontro sua fotinha viu… aí vim pro blog e – ufa !!! – tava tudo aqui. e eu continuo sua fã !!! bjs

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s