Coluna B – 21/03

Em homenagem a mais uma falta de consideração do pessoal do jornal para com a minha coluna, vou postar aqui as últimas colunas que não saíram no jornal (mas saíram na internet, mesmo com algumas confusões) e a coluna dessa semana, que não saiu no jornal e, pelo que andei vendo até agora, quase meio-dia de sábado, ainda não foi colocada no ar em lugar algum dos sites de A Gazeta.

Fico contente em saber que o meu trabalho da semana toda é simplesmente ignorado pelos meus superiores.

Aí vai, então, a coluna do dia 21 de março.

*

Um novo Yeah Yeah Yeahs

Era uma vez um rapaz novaiorquino chamado Nicholas Joseph Zinner. Magrelinho e branco como uma folha de papel pronta para o primeiro rabisco, ele conservava seus cabelos desgrenhados e, logo por baixo, uma mente veloz e inquieta, capaz de absorver as mais indescritíveis influências culturais. A arte corria nas veias de Zinner, não há como negar. Para liberar um pouco do que entupia seu corpo diariamente, o rapaz começou a compor e a tocar guitarra. Logo estava em uma banda. Como não poderia deixar de ser, já que era um músico esforçado, inteligente e de fortes referências, sua banda fez sucesso. O franzino mancebo ficaria conhecido como o Nick Zinner do Yeah Yeah Yeahs, e também como um mestre das guitarras barulhentas, com riffs que arrepiam até os mais sensatos.

Pense rápido: o que dá a mistura entre uma coreana e um polonês? Não sabe? Pois Zinner sabe. O resultado é a sua companheira de banda, a vocalista e também compositora Karen Lee Orzolek. Elétrica e inovadora, a moça parece ter um caso de amor alucinado com a arte que professa – algo que seu visual cosmopolita levemente exagerado e suas performances impressionantes parecem querer lembrar a todo momento. Moda, música e contemporaneidade poderiam servir como sobrenome para essa bela moça de voz suave que, desde 2000, engole a própria timidez no momento em que pisa no palco com o Yeah Yeah Yeahs. Mas ela preferiu utilizar ali, após o nome, apenas uma letra: O.

Foi por influência da mistura pouco provável de Karen O que Nick Zinner esqueceu as guitarras por um instante e cunhou, ao lado da moça e do competente baterista Brian Chase, esse ótimo disco chamado “It’s Blitz!”, o terceiro do Yeah Yeah Yeahs e o primeiro em que a banda fugiu da combinação de vocal ligeiramente gritado e guitarras de fritar o cérebro. Logo de cara, a partir do primeiro single, já podemos perceber as novas inclinações do grupo. “Zero” é poderosa, flerta com a disco dos anos 80 sem vergonha alguma e dá a Zinner uma certeza: mesmo quando troca a guitarra pelo sintetizador, o rapaz é fera. Faixas fortes, o grande trunfo deste disco, não significa que são estridentes, dançantes, ou algo que o valha. Em “Runaway”, uma balada sentimental que ganha corpo conforme vai se aproximando do fim com camadas e mais camadas de instrumentos e melodias sobrepostas, todo o poder do novo YYYs, este que olha para todos os lados de uma música, está lá.

A bela capa de “It’s Blitz!” traz o exato momento em que um ovo é estourado enquanto uma mão o pressiona sem dó. Pode ser uma imensa besteira da minha parte, mas ela parece simbolizar justamente essa ruptura com os antigos limites do dance punk que a banda se impôs durante nove anos. Eles saíram do ovo, ou do arroz e feijão (que, há que se dizer, já era bastante saboroso) para explorar novos pratos, novas combinações. Não à toa, trouxeram Dave Sitek, do TV On The Radio, para auxiliar Nick Launay na produção do trabalho. “Heads Will Roll” tem o sabor agridoce das batidas oitentistas temperando uma estrutura de guitarras moderna, “Shame and Fortune” parece ter roubado de “Sympathy for the Devil”, dos Stones, a percussão rasteira de seu começo, para depois vencer com sua bateria tribal e um conjunto de riffs tão atordoantes que é tarefa de monge ficar sem batucar seu ritmo, um dedo que seja.

E esse dedo, percebam, certamente é o de Sitek no som do trio novaiorquino, o mesmo que parece ter deixado sua antecessora, “Dull Life”, tão ligadona. Há muito de um novo YYYs em cada faixa. As nuances deste trabalho se espalham como uma erva daninha – com o pequeno grande detalhe que esta nada tem de maléfica. A lindíssima “Skeleton” é um exemplo bastante claro da nova Karen O, do renovado Nick Zinner e do agora expansivo Brian Chase. A bela letra é regada com um tom de espessa melancolia. O crescendo dos arranjos hipnotiza, e a cada nova batida, a cada nova melodia que se agrega ao corpo da canção, nossa viagem ganha contornos inéditos. Há três anos, quando do lançamento do bacanudo “Show Your Bones”, ninguém diria que “Dragon Queen” seria uma faixa de destaque do Yeah Yeah Yeahs. Pop descarado, daqueles que a gente não sabe como começa nem como termina, porque parece ter existido desde sempre. “Soft Shock” ainda não se decidiu se é uma balada ou não, mas tem a certeza absoluta de ser um ótimo número pop de notas misteriosas, com sintetizadores pesados armando um muro intransponível atrás de tudo.

A dupla que fecha este belo terceiro trabalho do grupo é sintomática para os novos rumos do Yeah Yeah Yeahs. “Hysteric” se desenrola como aquelas pessoas que vivem uma vida sempre pacata, como se nunca se alterassem com ninguém. Um dream pop saboroso, sem pressa de sujar as mãos com a poeira do dia-a-dia. É como se acontecesse sem que a gente percebesse, mas deixasse de herança um sorriso maroto. Há ainda uma última tristeza para salgar a boca com lágrimas: “Little Shadow”. O poder de uma música bem colocada – isto é o que também podemos atribuir àquele garoto magricela e branco como o leite de todas as manhãs. A cama de sintetizadores, a bateria marcada e os dedilhados etéreos de guitarra parecem ser o único lugar onde aquela voz doce pode existir plenamente, fazendo total sentido e emocionando a sinceridade dos incautos – a culpa, convenhamos, é toda da filha de coreana com polonês, que consegue, ao mesmo tempo, ser um ícone fashion e ter uma performance de fazer brotar lágrimas onde não costumava existir. E é apenas irônico que “It’s Blitz!”, o disco “mais” do Yeah Yeah Yeahs (mais pop, mais corajoso, mais abrangente, mais emocionante) acabe justamente com um rasgo de guitarras levemente estridentes. É que, queiram ou não, as distorções são parte da alma desta banda.

*

O maior do mundo

O inacreditável festival South By Southwest, que acontece em Austin (EUA), acaba neste domingo (começou na quarta) e traz números realmente impressionantes. Pra se ter uma ideia, mais de 200 bares, casas de show e afins se inscreveram para abrigar shows durante o dia todo dos 5 dias de festa. São mais de 2 mil shows, e só de bandas brasileiras há mais de 20 – imagina de grupos americanos, ingleses, escoceses, canadenses, suecos… É o sonho de qualquer apaixonado pela nova música que se produz no mundo – além de bandas bebês, até vovôs como Primal Scream, Devo e Echo and the Bunnymen se apresentam nos palcos texanos. O Metallica, por exemplo, reservou uma apresentação surpresa. Hoje, apesar de o Radiohead estar no Brasil (hehe), Austin é o lugar onde as coisas acontecem na música alternativa e pop mundial.

Radiohead no Brasil

Ontem uma das maiores bandas do mundo estreou no Brasil. O Radiohead tocou para uma Praça da Apoteose lotada, no Rio de Janeiro, fazendo história. E amanhã é a vez deste colunista realizar mais um sonho e assistir ao show do grupo liderado pelo gênio Thom Yorke. Na semana que vem, tudo sobre o show do Radiohead em São Paulo aqui na coluna.

Promoção Coluna B + Marcelo Camelo

Por causa da proximidade (e a excitação) com o show do Radiohead esta semana (com a volta do Los Hermanos e um pouco de Kraftwerk de lambuja! Que beleza, hein!?), a coluna ainda não realizou o sorteio dos dois pares de ingresso para o show do Marcelo Camelo no ginásio do Salesiano, dia 28, em Vitória. Isso significa que você, que não participou, tem mais uma chance de concorrer. É só mandar um e-mail para colunab@gmail.com e colocar seu nome completo, RG e telefone de contato. Na quarta-feira a coluna sorteia e telefona para os vencedores. E eu conto aqui semana que vem quem vai pro show do Camelo “de grátis”.

Todo mundo tem que ouvir

Remando contra a maré da “era dos singles”, o Decemberists lançou seu quinto álbum, o atordoante “The Hazards of Love”, como apenas uma história contada em ordem por nada menos que dezessete faixas diferentes.

Essa não é a única novidade da banda de Colin Meloy. O álbum traz a participação de Becky Stark (Lavender Diamond) e Shara Worden (My Brightest Diamond) nos vocais e inéditas guitarras pesadas em algumas músicas. Imperdível.

Playlist

Radiohead – I Might Be Wrong
Radiohead – Wierd Fishes/Arpeggi
Radiohead – Sulk
Radiohead – Everything in its Right Place
Radiohead – The Bends
Radiohead – Reckoner
Radiohead – Exit Music (For A Film)
Radiohead – There There
Radiohead – Last Flowers
Radiohead – 2 + 2 = 5

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s