Mais uma Coluna B que não sai no jornal

Pois é, saiu apenas na internet, mais uma vez. Para quem não teve oportunidade de ler, aqui está ela.

A Ressaca do Reis

Animação era a palavra-chave no carnaval. Todo mundo empolgado, dançando até o chão como se o amanhã não mais fosse possível. Garrafas e latas de cerveja vazias, espalhadas pelo piso, entre corpos jogados, exaustos de tanto sassaricar pela pista. Mas o carnaval acabou. Restam apenas algumas parcas lembranças (se tirou foto durante a folia, dá pra lembrar um pouco mais. Se bem que algumas é melhor apagar…) e um inestimável gosto de corrimão na boca. Agora, o que comanda é a calmaria. Afinal, todo mundo precisa de algumas horas (eu ouvi dias?) de descanso. Para esses momentos, mais uma vez a Coluna B vai dar dicas de bandas que combinam com essa época em que todo dia parece domingo: a ressaca de carnaval.

Este é um momento em que estamos muito sensíveis. É melhor não assustar os ouvidos com nada muito pesado, há sempre o perigo de piorar o estado catártico em que já estamos. Prefira um indie pop suave como o do Winterpills. Esses americanos fazem música para ser ouvida deitado, barriga pra cima e mente livre de radicalismos. O peso do som da banda é quase nulo, e é de leveza e muita água que a gente precisa numa época como essa. Em “Central Chambers”, o terceiro álbum lançado no último mês de outubro, a banda encanta com baladas levadas no piano e no violão, com melodias tão deliciosas que dá vontade de deixar o disco no repeat por uma tarde inteira, apenas para que músicas como “Everything”, “Immortal” e “Secret Blue Thread” embale nossos sonhos vespertinos.

Recuperação é a palavra de ordem agora. E, para ser irritantemente sincero, poucos estilos me fazem tão bem em dias de espírito nublado quanto o bom e velho folk. Para mim, são como remédio o vibrar das cordas do violão de Ben Nichols, vocalista do Lucero que acaba de lançar “The Last Pale Light In the West”, um disco solo todo acústico e influenciado pelo romance “Blood Meridian”, do escritor americano Cormac McCarthy. As sete faixas do disco são secas como a nossa garganta pós-carnaval, trazendo apenas os acordes em violão e voz, com, no máximo, o acompanhamento de um acordeon mágico, que aparece e desaparece sem deixar rastros. Faixas como “The Kid”, “Tobin” ou “The Judge” nos fazem viajar rumo ao velho oeste. Uma ótima forma de escape.

Comece o retorno aos dias normais sem pressa. Nada de grandes impactos, já chega o sofrimento da sua cabeça nesses dias de bebedeira e músicas ruins que penetram como mágica na nossa cabeça. Talvez sair do auto-exílio e curtir alguns momentos a dois possa ser um belo começo. Use o novo disco do Asobi Seksu, “Hush”, como pretexto para um encontro com, como diz o próprio nome da banda em japonês, um “sexo divertido”. Pode ter certeza que o estilo lo-fi do grupo capiteaneado pela japonesinha fofa Yuki Chikudate no vocal vai ser uma mão na roda. Casando bem o dream pop sossegado com o shoegaze estridente, a banda baseada em Nova Iorque lança mais um disco bacaníssimo, após o óitimo “Citrus”, de 2006. Na hora do “vamo-ver”, não esqueça a ritmada “Sing Tomorrow’s Praise”, a brilhante “Layers” ou a linda balada “Blind Little Rain”. Vai que funciona.
Os dias vão passando e a hora de acordar vai chegando. Chega de dor de cabeça, abaixo o sal de frutas, sai pra lá, água de coco. A hora é de se reabilitar. E que seja, claro, com algum estilo. Para tanto, chame o El Goodo para a sua trilha sonora. Comece pela bela capa do novo disco, “Coyote”, e deixe-se levar pela psicodelia dessa misteriosa banda inglesa onde os integrantes não têm sobrenome, mas sua música é cheia deles. Entornando influências dos anos 60 e 70 como Beach Boys, Beatles, The Turtles e outras bandas da época, o El Goodo consegue atingir a comunhão entre o psicodélico, o pop e o indie barulhento em faixas como “Talking to the Birds”, de guitarras melódicas e vocal simpático, “Don’t Worry Marie” e “Oh, To Sleep”, que lembram muito as composições dos irmãos Wilson,  as espertas “Feel So Fine” e “Aren’t You Grand”, que abrem o disco, e a semi-folk “I Can’t Make It”, que soa como alguma sobra de estúdio perdida dos Fab Four em “Yellow Submarine”.

Se nada disso funcionar, o que, pessoalmente, duvido muito, siga a dica da minha mãe: chá de boldo e cama. Tem dias que funciona. Mas ainda prefiro a cura que vem pelo ouvido. Escutar artistas tão diferentes e criativos quanto Winterpills, Ben Nichols, Asobi Seksu e El Goodo tem o sabor mil vezes mais agradável que o do boldo. Pode acreditar.

Notinhas

Radiohead sadio
Foram divulgados os horários e ordens de shows do Just A Fest, o festival que era só do Radiohead e de repente virou também da volta do Los Hermanos (não esqueçamos o fabuloso Kraftwerk, claro). No Rio, dia 20, os hermanos tocam às 19h, o Kraftwerk às 21h e o Radiohead às 22h30. Já em Sampa, os shows acontecem uma hora mais cedo que no Rio. Também ficamos sabendo o que a banda de Thom Yorke pediu nos camarins. A coisa é bem simples, até: uma sala de meditação e outra de massagem, diversas frutas e vegetais como bananas, maçãs, uvas, pêssegos, laranjas, pêras, beterrabas, aipo, cenouras, além de 10g de gengibre. Para completar o lado geração saúde dos ingleses, a banda trará seu próprio chef de cozinha para preparar seus saudáveis pratos. Será que o rock não é mais aquele?
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Saiu do papel
Quer dizer que o retorno do Faith No More deixou de ser lenda? Pelo menos, é o que diz Mike Patton, em comunicado publicado essa semana no site do FNM. O músico anunciou a reunião da banda dizendo que quer não apenas revisitar o passado, mas também acrescentar coisas ao presente do grupo. Além de Patton, o Faith No More também vai ter Mike Bordin, Roddy Bottum, Bill Gould e Jon Hudson. Entretanto, ainda não há datas para shows ou lançamentos do grupo.
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Oasis mais perto
Cresce a expectativa para shows dos irmãos Gallagher em nossas terras. A imprensa sul americana anda em polvorosa com as notícias. Desta vez, foi no Peru que surgiu a informação de que o Oasis começaria por lá, no final de abril, sua turnê pelo continente.  Segundo o jornal local, o Brasil ganharia 3 datas. E aí, vem ou não vem?
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Todo mundo tem que ouvir
Grammatics, a nova “melhor banda do mundo” inglesa, tem um pé no rock de arena do U2, o outro no indie catártico do Foals, uma mão chafurdada no rock pesado e a outra no novo emocore. Onde isso vai dar?

Peso e poesia

Certamente vai dar em “Grammatics”, álbum de estreia do grupo, lançado no comecinho do ano. Drama, peso, riffs, poesia e um algo mais baseado no ponto do art rock que o Suede e o Muse dividem sem medo. Ouça e tire suas conclusões.
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Playlist
Peter Bjorn and John – Lay It Down
Harlem Shakes – Stricly Game
Benji Hughes – Love is a Razor
Oasis – Falling Down
Ringo Starr – Photograph
the Rosewood Thieves – She Don’t Mind the Rain
Lissy Trullie – Ready for the Floor
Vetiver – More of This
Sunken Foal – On Platinum Rays
Ra Ra Riot – Dying is Fine
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Um comentário sobre “Mais uma Coluna B que não sai no jornal

  1. Humm, eu diria que a nova melhor banda inglesa do mundo…Nããão, conserta aí, para eu (ou o próprio grupo) não soar pretensioso demais. Na minha opinião, a última coisa que veio da Inglaterra a me deixar extasiado (Londres, propriamente) foi o Fanfarlo (o disco ‘Reservoir’ desse ano). Apesar disso, o vocalista da banda é sueco (tinha que ter algum sueco por trás disso, hehe).

    Procure conhecer. É um pop-rock simples, mas com melodias grudentas e com instrumental maravilhoso (com direito a sopros contagiantes).

    Gostei dos textos, em geral.

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