Coluna B de sábado

Para quem não conseguiu encontrar a coluna no site (ela entrou no ar só à tarde) ou nem sabia que ela não tinha saído, aí vai o texto na íntegra, com notinhas, playlist e tudo mais. 

Pós-punk e seus novos filhotes

A voz é grossa, ainda que macia, e bem impostada, deixando a melodia que a transporta com um aspecto sério. Um poder intransigente reverbera nas cordas vocais. As guitarras tiram sons mágicos em dedilhados criativos e riffs certeiros, sempre com tons acinzentados embalando a conversa entre as notas. O baixo e a bateria são invariavelmente sombrios, seja quando levam a música para cima, apostando na velocidade, ou quando a levam para baixo, deixando o andamento mais cadenciado. Para fechar o clima agudo de melancolia, camadas de teclados são adicionadas, fazendo essa onda negra penetrar mais fundo na alma de quem escuta as canções. 

O parágrafo acima poderia ser bem apropriado para definir o som de uma geração que nasceu no meio dos anos 70 na Inglaterra e que teve como principal expoente a seminal Joy Division: o pós-punk. Mas a verdade é que essa descrição é adequadíssima também para apresentar grupos como Glasvegas, White Lies e CatPeople, que mostram como este movimento liderado pelo perturbado Ian Curtis, que viria a se matar pouco tempo depois, continua a influenciar pessoas mais de trinta anos depois. Podemos dizer até que se trata de uma turma de seguidores de outros seguidores do pós-punk, já que essas três bandas também foram influenciadas por Editors, Interpol e She Wants Revenge, grupos que mantém viva a chama de Curtis e seus amiguinhos desde o começo do século.
 
Ao ouvir o CatPeople, a primeira impressão é que se trata de uma banda proveniente da nublada Manchester. Ledo engano. O grupo é formado por espanhóis nascidos na ensolarada Barcelona e tiveram seu segundo álbum, “What’s the Time, Mr. Wolf?”, lançado no começo de 2008. Além do pós-punk, o CatPeople também lembra bastante algumas bandas new wave e fica fácil ouvir ecos de New Order e The Cure pelas faixas de seu último disco, amplamente influenciado pelos anos 80. Um bocado menos sombrio do que suas colegas, a banda traz melodias inspiradas em faixas como “Sister” (a cara do Cure), “Last Chance” (que tem algo de National no começo e descamba depois para um Interpol que esqueceu a distorção em casa) e as pesadas “Bubblegum” e “Looks Like Dogs”. 
 
Uma banda que sabe para onde caminhar. Assim pode ser descrito o White Lies, trio londrino que também se encaixa naquela descrição do primeiro parágrafo como em uma roupa feita sob medida. Seu disco de estréia, o bacana “To Lose My Life”, foi lançado em janeiro e estreou em primeiríssimo lugar nas paradas britânicas, batendo gente do porte de Kings of Leon e Beyoncé. O sucesso do grupo foi catapultado antes deste disco chegar, ainda quando as primeiras demos caíram na internet e logo após mudarem o nome da banda de Fear of Flying para White Lies e a sonoridade para algo mais dark. O vocal melancólico de Harry McVeigh e os arranjos sorumbáticos de “To Lose My Life” são pós-punk até os ossos, mas a banda tem uma pitada de anos 2000 em seu DNA que a faz se destacar dos outros grupos. 
 
Certamente, entre as três bandas que são assunto hoje, o Glasvegas é a única que se desvencilha um pouco daquela descrição estereotipada do começo do texto – isso porque o vocal de James Allan está mais para Billie Joe Armstrong do que Ian Curtis. Mas, para equilibrar as coisas, não há dúvidas de que as canções do grupo escocês são as mais assustadoras e sinistras. Letras que falam de loucura, morte, facadas, abandono e tristeza de todos os tipos, cores e tamanhos enchem os dois discos lançados por eles em 2008, “Glasvegas” e “A Snowflake Fell (And it Felt Like a Kiss)”. Enquanto o primeiro é o verdadeiro debut do grupo, o segundo é um mini-disco de tema natalino. Faixas como “Daddy’s Gone”, “Go Square Go”, “Geraldine”, “Flowers and Football Tops”, “Fuck You, It’s Over” e “Please Come Back Home” tomaram conta de festivais e paradas de rádio da Europa nos últimos meses. 
 
É importante observar que nenhuma das três bandas citadas nesta coluna são revolucionárias. Definitivamente, originalidade não é a marca mais visível de CatPeople, White Lies e Glasvegas – esta última talvez seja a que consiga, em poucos momentos, mostrar algo de realmente diferente. Mas a qualidade das músicas compostas por esse trio valem, e muito, a audição. 
 
Cineminhas
Duas notícias sobre cinema, uma boa e uma ruim. A boa é que está rolando na internet o primeiro trailer do aguardadíssimo “Inglorious Basterds”, novo longa do gênio Quentin Tarantino, sobre a 2ª Guerra Mundial. O filme traz Brad Pitt como um dos protagonistas, ao lado de Samuel L. Jackson, Maggie Cheung, Mike Meyers e Julie Dreyfus, e deve estrear ainda este semestre nos EUA. Vamos torcer pra chegar aqui, já que o último de Tarantino, “Prova de Morte”, não passou nem perto de Vitória. /// Já a notícia ruim é para quem, como eu, é fã do filme “Donnie Darko”. Sabia-se que uma segunda parte estava sendo produzida, uma maldita continuação para esse filmaço surreal. Cheguei a torcer para que fosse mentira… mas não é. O fato é que, de tão ruim que ficou, o Donnie Darko 2, que ganhou o nome de “S. Darko”, vai sair direto em DVD. A estrela é Daveigh Chase, que segue no papel de Samantha Darko, a irmã de Donnie. Vade Retro! 
 
Várias coisas
Santogold mudou de nome. Adequando-se ao próprio nome, Santi White, e fugindo de comparações com um outro Santo Gold (com espaço), a moça do Brooklyn agora atenderá por Santigold. Puff Daddy está fazendo escola. /// O vocalista do Radiohead, Thom Yorke, deve fazer parte do filme “Terminator Salvation”, quarto longa do “Exterminador do Futuro” – aquele mesmo em que o Christian Bale deu um chilique no set. Yorke deve contribuir com Danny Elfman, desde já responsável pela trilha da fita. /// Mais uma de Joaquin Phoenix. O ator/rapper (?) foi ao programa americano Late Show with David Letterman e quase não abriu a boca. Esquisitão, ele reclamou das piadas, se mostrou apático, antipático e por pouco não saiu na mão com o músico Paul Shaffer antes de pedir para, no futuro, apresentar suas músicas no programa. Isso está cada vez mais estranho. Está sentindo o cheiro de armação?
 
Todo mundo tem que ouvir
Enquanto o Red Hot Chilli Peppers continua paradão (e não está fazendo muita falta…), o guitarrista John Frusciante continua lançando ótimos discos, como já fez em outras nove oportunidades. 
Disco solo
“The Empyrean” é o mais novo trabalho do americano. Frusciante segue experimentando formatos inusitados com melodias assobiáveis, tendo à mão sua guitarra inspirada e material eletrônico bastante criativo. Belo disco.
 
Playlist
M. Ward – To Save Me
The Ting Tings – We Walk
Ben Kweller – Homeward Bound
Gustavo Macaco – A Sorte de Ter A Bússola Sem Norte
Marissa Nadler – The Hole is Wide
Lily Allen – Not Fair
Animal Collective – My Girls
Cellardoor – Good Dreams Lullaby
Dorena – Dagslandan
Passion Pit – Sleepyhead
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2 comentários sobre “Coluna B de sábado

  1. Humm, Bruno, sobre as bandas do pós-punk (ou ainda as chamadas de filhotes de Joy Division) acho que a melhor da atualidade é o Diego (da Alemanha). O disco ‘Two’ (2008) deles me agradou muito e nem pulei sequer uma faixa. Procure conhecer.

    Nossa, fiquei um tempo sem vir aqui, mas posso lhe dizer que essa página está muito boa. Um poço de cultura nesta rede. Eu considero a ‘internet do bem’. Isso mesmo.

    Abraços.

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