Revoltas inúteis

É incrível. Minhas revoltas duram aproximadamente dez, onze, quinze minutos. Depois disso, passo para uma raiva leve, em seguida para a chateação e logo depois não lembro mais do que se tratava o assunto. E isso não é bom. É preciso ter sempre uma parcela de revolta acontecendo, movimentando nossos músculos preguiçosos, eletrocutando nossos neurônios atrofiados. É preciso ter um caminho para seguir, de preferência com alguns obstáculos aqui ou ali. Somos humanos, falhos, atordoados, necessitamos de objetivos para viver. E os meus mudam tanto quanto minhas meias. Mas, diferente delas, que lavo e volto a usar, os objetivos somem e nunca mais dão as caras.

Agora mesmo estava pensando em quantas pessoas se determinam a conquistar alguma coisa no mundo, e como não estou dentro desse grupo. Minha vida acontece ao acaso, e mesmo que eu tente mudar tudo, simplesmente não consigo. Aceito os acontecimentos de bom grado, não luto, não brigo – apenas me calo e consinto. Talvez seja por isso que um impregnante sentimento de fraqueza costume me acometer às vezes, fazendo com que a minha fome de vitórias se transforme numa sedezinha barata que mato numa golada de água. Se duvida de mim, vá perguntar ao meu analista.

A gente tem que ter algo em vista sempre, nem que seja aquela menina que trabalha no andar de baixo do seu, aquele emprego com o qual você sonha há tempos ou… ou… bom, desculpe, mas já deu meus quinze minutos de revolta. Não lembro mais do que estava falando.

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6 comentários sobre “Revoltas inúteis

  1. Existe diferença entre fraqueza e comodismo. Acredito que ser fraco é querer fazer algo e não ter força pra isso, diferente de saber que algo poderia ser feito e simplesmente não fazer por comodidade, enfim…. acho que revoltas são úteis pra caralho…:)

  2. Eu já fui assim: tinha um objetivo; algo desagradável aconteci; desistia dele e voltava ao zero. Mas hoje eu tenho um bocado de planos e projetos, mas sei que não posso concretizá-los no momento, então vou me preparando para realizá-los no futuro. Ah, ao me tornar impulsiva consegui muitas coisas, pois assim não preciso ficar pensando muito nas possibilidades de correr atrás.

  3. (…)

    Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
    Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
    Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
    Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

    (…)

    Resta essa vontade de chorar diante da beleza
    Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido
    Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
    Piedade de si mesmo e de sua força inútil.

    Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
    De pequenos absurdos, essa capacidade
    De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
    E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

    (…)

    Resta essa faculdade incoercível de sonhar
    De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
    De aceitá-la tal como é, e essa visão
    Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

    E desnecessária presciência, e essa memória anterior
    De mundos inexistentes, e esse heroísmo
    Estático, e essa pequenina luz indecifrável
    A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

    Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
    De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
    Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
    De não querer ser príncipe senão do seu reino.

    (…)

    (O Haver, Vinicius de Moraes)

  4. Penso que esses quinze minutos sejam suficientes. Já mostram que tem sangue correndo nas veias. Negativo seria você guardar todas as raivas dentro do peito. Aí viraria câncer. As coisas ruins acontecem, mas temos que deixa-las ir embora e guardar apenas a lição que elas nos trouxeram.
    E você pode não achar, mas corre atrás das coisas sim. De repente você ainda não alcançou a determinação que considera ideal, por (talvez, não sei) esse grande objetivo de conquista não ter aparecido ainda. Você não é nem um pouco fraco, muito pelo contrário. Além disso, o que não falta são coisas em vista..né? hahahaha

    <3 beijo!

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