Afundando em “Weird Fishes/Arpeggi”

Não sei bem o motivo, mas as músicas do Radiohead têm mexido muito comigo ultimamente. Todas elas, sem exceção, acabam cedo ou tarde tendo significados diferentes para mim. Dia desses até escrevi sobre “Last Flowers”, uma das músicas mais bonitas dos dois In Rainbows mas que, infelizmente, ficou relegada ao disco bônus. Agora, foi “Weird Fishes/Arpeggi” quem resolveu se mostrar de uma nova maneira para mim. E é exatamente isso que acontece: uma música que ouço sempre de repente se revela de uma outra forma na minha frente.


“Weird Fishes/Arpeggi”

Eu estava deitado, naquele limiar esquisito entre estar dormindo e estar acordado, quando “Weird Fishes/Arpeggi” começou. Sou tão apaixonado por essa música que, no auge da minha semi-consciência, cogitei, sabe-se lá como, acordar para escutar a canção e depois voltar a dormir. O transe que aquele começo de música me deixa é assustador até mesmo para mim, que a ouço quase todo dia. Não acordei, nem me levantei, mas pude experimentar uma viagem muito mais proveitosa: eu vivi “Weird Fishes/Arpeggi” por cinco minutos e dezoito segundos.

Abri os olhos no susto e percebi que não estava na minha cama, nem no meu quarto, muito menos em qualquer lugar conhecido. Meus olhos arderam de leve e a água quase entrou pelo meu nariz de uma só vez. Percebi, ainda tonto, que eu estava no fundo do mar. Enquanto a bateria e as guitarras iniciavam a música, fui me familiarizando com a idéia de estar em um lugar tão absurdo sem ter a menor idéia de como teria ido parar lá. Olhava para os lados e via apenas um azul turvo, forte, parado, nada mais. Um azul que sempre me lembra os seus olhos e o que eles me diziam.

Devagar, começo a entender a situação surreal em que me encontro. Ainda não havia me dado conta de que estava em um lugar sem poder respirar, e agora, ao reparar esse pequeno detalhe, ironicamente o ar começa a me faltar. Thom Yorke já canta quando desço um pouco, flutuando, procurando a areia com os pés, dou um impulso e me jogo água acima, olhando para o alto e vendo nada mais do que o mesmo azul turvo e parado que os lados me cediam. O ar começa a me faltar com mais intensidade. Bato os braços e as pernas de maneira ritmada, sempre olhando para cima, sempre pensando em como vou fazer para vencer aqueles tantos metros que ainda restam para que eu coloque a cabeça para fora.

Quando aquele grito do backing vocal começa a acompanhar o vocal de Yorke e a música ganha mais velocidade, percebo que meu desespero aumenta consideravelmente. Os braços estão mais fracos, mas eu não deixo que minha consciência perceba. As pernas estão exaustas, mas o cérebro não precisa saber disso. O ar, preciso de ar. Quanto mais nado para o alto, mais longe parece estar. Os olhos mal ficam abertos por pura falta de força nas pálpebras. O grito suave do backing vocal, tão perto no meu ouvido, parece estar cada vez mais longe quando a fraqueza me pega de jeito. Acelero o quanto posso, tiro minhas últimas forças Deus sabe de onde. Fecho os olhos. Estou completamente sem ar, nos pulmões há uma pressão desesperadora por oxigênio. Os braços teimam em falhar, as pernas quase se entregam, a consciência parece finalmente perceber o que está acontecendo.

Consigo abrir os olhos novamente e vejo uma luz ainda fraca se aproximando. Não entendo – seria a morte? Estou completamente sufocado, há água entrando pelo nariz, pela boca, pelos ouvidos. Meus braços ganham um último fôlego, as pernas percebem o momento e se dão por completo. A luz aumenta. Nado forte, a luz se aproxima, Yorke canta, meus pulmões estão vazios, o backing vocal grita, agora estou de olhos abertos, a bateria se espalha junto com a guitarra, a velocidade aumenta nos braços e no ritmo da música, “é a minha chance”.
Silêncio.

A minha cabeça finalmente penetra o fino tecido que separa a água do céu. Enquanto o ar entra pelo nariz e pela boca aos borbotões, a música dá o seu repouso, apenas com dedilhados leves e o vocal sofrido. Respiro com imensa dificuldade, não sei aonde estou, não sei como vim parar aqui. Meu corpo todo dói, como se eu tivesse sido espancado por horas a fio. Quando finalmente recupero parte da minha sanidade, olho para os lados e percebo: estou no meio do nada. Em alto-mar, sem nada por perto, só um imenso oceano azul, algumas poucas nuvens brancas de formatos diversos e o céu, testemunha ocular da minha inútil batalha para chegar ali. Sim, toda aquela luta para conseguir respirar foi totalmente sem sentido. Vou morrer de qualquer forma: pode ser de fome, de insolação, comido por um tubarão, por vermes ou peixes esquisitos. Vou morrer rapidamente.

Não tive tempo para pensar. Assim que a bateria determina a volta daquele ritmo marcado, puxo o ar e mergulho de volta. Nado tão desesperado quanto antes, procurando o fundo do mar onde me achei de repente, sem mais nem menos, no momento em que abri os olhos. No caminho percebo que nunca deveria ter saído dali. Ir até a superfície era completamente desnecessário. Nada iria acontecer. A minha fuga, na realidade, era lá embaixo, era atingir o fundo, fugir daqueles olhos azuis que sempre me diziam alguma coisa, escapar de tudo – eu só não tinha me dado conta disso ainda. Retorno como um verdadeiro peixe, nadando com velocidade, ao sabor das batidas da bateria e da levada deslizante da guitarra. Ao meu redor tudo vai escurecendo, ficando turvo novamente, naquele azul que deveria ser o meu companheiro e eu reneguei por alguns momentos.

Volto então ao lugar de onde nunca deveria ter saído. Nem faz mais diferença se vou respirar ou não, se a água está infestando meus pulmões. Encosto novamente os pés na areia, cheguei ao fundo, “Weird Fishes/Arpeggi” segue como se nunca fosse acabar, e me dou conta de que estou de frente para o meu próprio fim. Chego a me perguntar quanto ainda demorará mas, assim como a música, minha vida acaba de repente. A guitarra, abrupta, pára. A bateria tambem, deixando no ar o rastro suave dos pratos. Meus olhos finalmente se fecham.
Silêncio.

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3 comentários sobre “Afundando em “Weird Fishes/Arpeggi”

  1. Cara, qdo eu vi do q se tratava, coloquei a música pra rolar e comecei a ler.
    Foi foda passar pelos momentos do texto junto com as passagens da música!
    Só tive q dar uma leve desacelerada no ritmo da leitura no final pra nâo terminar antes… :-)
    Parabéns! Ficou MUITO FODA!

  2. Legal…

    Digitando o nome da musica no google, o seu blog aparece como 4 resultado. Mais legal ainda é saber que nw sou o único que sinto esse tipo de prazer ouvindo música, fico angustiado ao ouvir algumas músicas e Weird Fishes/Arpeggi é uma delas. Ótimo texto!!!

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