Last Flowers

Não é só a melodia, não é só a letra, não é também apenas a interpretação emocionante, é tudo. Uma mistura mágica e quase inacreditável de todos os elementos que compõem uma música e que dão a ela corpo, rosto, olhos embargados, cabelos longos e lisos presos em um rabo de cavalo alto, um cheiro doce que sempre parece familiar, um abraço que te envolve como em um casulo, de onde você sairá completamente renovado, à espera das novas viradas que o destino vai lhe impor. É difícil entender que é tudo isso e, ao mesmo tempo, é apenas uma música, uma sequência de notas, acordes, melodias, sons, vocais, pausas, continuações, silêncios, outras notas e um fim arrasador.

A marca maior da canção que pode mudar a sua vida é a honestidade. Os pequenos e necessários espaços entre uma frase e outra, entre um acorde e outro, entre você e a pessoa que te ama; o vocal que desafina com orgulho, desprendendo-se da inabalável obrigação de soar perfeito, mecânico; a economia dos instrumentos, a forma como eles só aparecem quando solicitados, e só são solicitados quando se mostram extremamente indispensáveis. É a mesma honestidade de não virar para trás quando o impacto de um sentimento surge de repente, é a honestidade de ser quem você quiser a hora que quiser, independente das dúvidas, e de se aceitar quando a mudança surte efeito.

É apenas uma música mas corta o coração, deflora seu peito já nos primeiros segundos, te enche e tira seu ar, move seus braços para os lados, pede ajuda, não atende, continua deixando o ar sair e aí as lágrimas começam a desencantar. No pequeno rio que se forma entre seus olhos e a sua boca há todas as vezes que as pontas dos dedos pressionam o piano, que a palheta se choca com as cordãos do violão, que o encontro entre o silêncio e o som transformam essa canção simples e de certa forma renegada em uma jóia que ainda não foi lapidada, em uma palavra que ainda não foi escrita, em uma vida que foi tirada sem uma segunda chance.

Está aqui toda a chance de escapar de um mundo preto-e-branco, de respirar a felicidade de momentos esquecidos sem a ajuda de aparelhos, toda oportunidade de se dizer completo, como uma canção que tem começo, meio, fim, cumpre seu destino, morre, mas ressurge para a vida no exato momento em que você a coloca para tocar novamente. Está aqui a chance de falar o que não se consegue dizer, de encontrar fá com sol menor e, finalmente, descansar ao lado de um furacão que poderia te deixar completamente surdo, com ouvidos para somente aquela sequência de notas, acordes, melodias, sons, vocais, pausas, continuações, silêncios, outras notas e um fim arrasador.

É demais, é muito brilhante, é muito poderosa.

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2 comentários sobre “Last Flowers

  1. A mais linda declaração de amor a uma música, que eu já li.Caiu como uma luva pra essa manhã fria e cinza de segunda-feira.Só não chorei pq não fica bem chorar no local de trabalho, hehe.
    Lembrei daquele texto sobre Sulk (que foi foda também.)
    Vc tá se superando, rapaz.
    Beijo.

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