R.E.M. – Accelerate

Fiquei sabendo que não vou poder publicar pela Coluna B, por ordem da editoria do Caderno 2, o texto que escrevi sobre o novo disco do R.E.M., Accelerate, que devolveu à banda o adjetivo “excelente” após alguns discos meia-bocas. Então, como para o Outernative já teremos a resenha feita pelo Eduardo para o mesmo álbum, postarei aqui no blog, exatamente da maneira como enviei para A Gazeta, sem tirar nem colocar nada.

Forma e conteúdo em perfeita harmonia

Não se julga o livro pela capa, já dizia aquele velho ditado. E por mais que velhos ditados pareçam sempre forçados e aborrecidos, este é daqueles que não se nega. Também é verdade que não se julga um disco pela capa. Ainda mais nos dias de hoje, em que às vezes baixamos da internet álbuns e mais álbuns sem nem ao menos nos preocuparmos com capa, libreto com letras das músicas, fotos da banda, créditos e tudo mais. Mas é recompensador quando um disco é concebido desde os mínimos detalhes, com os encaixes nos lugares certos. Um autêntico álbum, com começo, meio e fim. E se tudo se inicia na capa, melhor ainda.

Há uma banda com história e anos de estrada que bastam para que o simples fato de lançar um novo trabalho já seja motivo de agitação nos bastidores da música. Mas quando, antes mesmo de escutarmos qualquer coisa, já nos animamos apenas por descobrir a bela capa do disco dessa banda, a expectativa é capaz de estourar os tímpanos. Essa banda é o R.E.M. O disco, “Accelerate”, décimo quarto de uma vitoriosa carreira de 28 anos. A capa em preto e branco traz uma cidade algo torta e mal-cuidada, cheia de arranha-céus espetando nuvens invisíveis e o nome da banda surgindo como um raio de sol tardio.

A arte da capa dá um aspecto de sujeira, de urbanidade, de peso, e é exatamente isso que o R.E.M. quer passar neste novo álbum. A banda diz ter voltado às origens de grupo independente dos anos 80 no processo de composição e na forma de lidar com as canções. Após um incômodo tempo suspenso em um limbo de qualidade musical, mais precisamente desde “Reveal”, de 2001, o R.E.M. lança um autêntico disco de rock – visceral, rápido, cheio de distorções de guitarra e de pensamentos, ao mesmo tempo duro e nobre, enfático em sua proposta. “Accelerate”, que a bem da verdade ainda não foi lançado (sai em 1 de abril, mas já é figurinha fácil na internet), é certamente o melhor disco do R.E.M. desde “Automatic For The People”, de 1992.

E é de se agradecer que já tenha chegado aos nossos ouvidos as melódicas frases de guitarras de Peter Buck em “Living Well Is The Best Revenge”, potente faixa que abre o álbum, e a seguinte, “Man-Sized Wreath”. Produzido por Jacknife Lee, presente em trabalhos de bandas como U2, Bloc Party, Editors e Snow Patrol, “Accelerate” teve como primeiro single sua terceira faixa, a deliciosa “Supernatural Superserious”. Inigualável, pop até os ossos, mas com uma fúria contida que é a cara do vocalista Michael Stipe, traz a frase “Everybody here comes from somewhere” como um mantra do álbum e da carreira do R.E.M., banda já estabelecida e com moral o bastante para lançar uma canção de letra cáustica como essa – afinal, todo mundo sabe por onde andaram Buck, Stipe e Mike Mills esse tempo todo.

Contendo ao todo onze músicas, pode-se dizer que “Accelerate” começa à toda, indo pra cima, querendo incomodar a quem não se acostumar com a velocidade das músicas. Da primeira faixa, passando por “Hollow Man”, até a faixa-título, tudo é rapidez, palhetadas espertas de guitarra, bateria seguindo junto com o baixo em um crescendo que parece nunca ter fim. Mas eis que “Until The Day Is Done”, linda balada quase folk de tão simples, reduzida a poucas batidas percussivas, dedilhados de guitarras e violões suaves e a voz emblemática de Stipe elevando o refrão à condição de “histórico”. A quebra na urgência das canções, que até se ensaiara antes em “Houston”, chega apenas agora e faz bem ao álbum.

“Mr. Richards”, a próxima da fila, faz barulho mas é no fundo benevolente, dada à paciência, apesar do vocal acelerado de Stipe querer provar o contrário. A quebrada “Sing For The Submarine” leva os solos de Buck a um nível apaziguador, para dar a vez em seguida à punk “Horse To Water”, com pouco mais de dois minutos e bem engajada no clima “pé lá embaixo” do disco. Fechando a conta do R.E.M., a irônica “I’m Gonna DJ” prepara a banda para ser DJ na festa do fim do mundo. Curto e certeiro como um tiro à queima roupa, “Accelerate” termina como bem se termina um disco de rock: Stipe solta um ríspido “yeah!” e o silêncio volta a encher a sala. Discaço. Mas, se me permitem dizer, isso era exatamente o que eu já imaginava desde que vi aquela capa.

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