Amores estranhos

Nos últimos dias tive contato com duas histórias de amor que pretendo acreditar serem incomuns, mas que o próprio desenrolar de cada uma delas me impede de aceitar essa minha versão dos fatos com plenitude. A verdade é que amar nunca me pareceu comum – é sempre estranho, complicado, cheio de nuances, e cada amor tem uma maneira de acontecer completamente diferente da outra. De longe todos os amores parecem iguais, mas basta aproximar um pouco mais o olhar e verás a verdade de cada um.

A primeira dessas histórias foi contada pelo jornalista Paulo Terron em seu blog. A esquisitíssima trama de amor entre Burt Pagach e Lida Riss assusta à primeira vista, mas logo depois faz com que a gente perceba que, no fundo, já passou por algo parecido. Claro que a loucura dos envolvidos potencializa todas as ações, mas ninguém está livre de sofrer e enlouquecer por amor. O fato é que os dois se conheceram na décadea de 50. Burt era um advogado muito rico, Linda era uma jovem fácil de se impressionar. Burt era casado, Linda se deixava levar pela paixão. Os dois inciaram um tórrido romance.

O tempo e os problemas pessoais da vida de Burt se encarregaram de afastar o casal de amantes. Em pouco tempo, porém, eles reataram. Mas, após nova separação, Burt pirou completamente. Baixou hospital, perseguiu a moça e, quando soube que ela estava noiva de outro, teve uma atitude de psicopata: contratou três negros para jogarem soda cáustica nos olhos da mulher, cegando-a para sempre. Burt foi condenado a 14 anos de prisão, e passou cada dia destes pensando em Linda e escrevendo cartas de amor na tentativa de reconquistá-la. E conseguiu: quando saiu da prisão, o casal voltou a ficar junto. E juntos estão, até hoje. Dez anos atrás, Linda ainda defendeu o seu doentio amor em um julgamento. A acusação contra Burt: perseguir uma ex-amante.

A segunda história é trágica por si só, mas ganha contornos de discussões ideológicas a cada novo acontecimento. Jason Howe é um jornalista fotográfico que curte se infiltrar em guerras para retratar seus personagens e contar histórias interessantes sobre eles. Mas o rapaz, na época um iniciante na profissão, não sabia que se tornaria protagonista de um dos mais fascinantes acontecimentos em sua estadia em terras assoladas pela guerra. Segredos, todos temos. Talvez funcionemos melhor assim, guardando dentro de nós algumas informações que ninguém mais será capaz de conhecer – quase como uma espécie de vínculo especial com a nossa própria consciência. Jason sabia que ter segredos era normal e importante para nossa sanidade, mas não fazia idéia que a revelação de um deles poderia ser tão traumática.

Colômbia. As Farc, que estão hoje em todos os jornais como cerne de uma crise diplomática recém-suavizada na América Latina, assolam o país e dominamboa parte dos locais pobres do país. Contra eles estão os paramilitares, as milícias que, em excusa parceria com o governo colombiano, lutam pelo controle dos campos de coca e otras cositas más. Jason aporta no povoado de Puerto Asis para iniciar sua caminhada rumo ao entendimento de toda a guerra civil colombiana quando conhece Marylin e sua família. Lá ele é tratado como um membro do clã, e recebe da moça a garantia de que conseguirá conversar e fotografar pessoas de ambos os lados do conflito. Marylin ajuda Jason, e surge daí uma amizade que parecia pura e inevitável.

O jornalista consegue se infiltrar em campos de concentração, bases militares e povoados para garantir que seu trabalho será bem feito. Mas não tarda e sua hora de partir da Colômbia finalmente chega. Jason vai ao Iraque atrás de uma guerra ainda mais sangrenta, mas não consegue nem por um segundo esquecer o rosto de Marylin. Em seis meses, ele volta a Puerto Asis e, aí sim, começa um romance entre um e outro trabalho. O problema é que agora a moça não é mais alguém tão inocente na história: ela passou a trabalhar para a AUC (Autodefensas Unidas de Colombia). Marylin se tornou uma combatente. Experimentando uma sensação inédita, a de não se ver tão chocado com a revelação, Jason decidiu que isso não seria impecilho para seu amor com a bela colombiana de 22 anos.  A relação ainda estava no início e o contato com a família da moça inibia os dois a dar um passo à frente e mudar a temperatura do, até aqui, inocente romance.

Após mais uma ida ao Iraque, o fotógrafo retornou à América do Sul, alugou um quartinho em uma espelunca qualquer e se jogou de uma vez por todas nos braços de Marylin. Fizeram amor pela primeira vez e perceberam que nada mais seria igual. Jason não sabia exatamente o por quê, apenas sentia que as coisas mudariam a partir dali. Acuada por um sentimento avassalador, Marylin deu a Jason a chance de entender porque suas vidas mudariam a partir de então: resolveu contar ao inglês o seu maior segredo. Um pouco temerária, ela finalmente confessou que tinha se tornado uma assassina profissional. Começara na AUC por pressão dos repressores, e agora tomara gosto pela coisa: estava trabalhando como mercenária. Disse a ele que matar rende um bom dinheiro, e que não era tão difícil assim tirar a vida dde outra pessoa. Apenas no começo.

Jaso, acostumado ao dia-a-dia das guerras, ao sangue derramnado em baldes, à maldade inerente das pessoas, não soube dizer se achava aquilo absurdo ou se era um caminho natural para alguém que entra para o ramo. Levou seu relacionamento com ela normalmente por algum tempo, mas a cada vez que ouvia histórias sobre matanças, um pouco do seu sentimento arrefecia. A cada cabeça decaptada pela mulher, a cada pessoa que caía no chão por suas mãos, seu amor se tornava mais opaco. Jason insistia em ver Marylin como a mesma que conheceu quando chegou à Colômbia pela primeira vez, só que agora obrigada a lidar com uma situação imoral, mas estava sendo vencido pelo poder da realidade. Dormir com uma mulher que deixava a pistola no móvel de cabeceira antes de se deitar podia ter seus estímulos aventurescos, mas era algo demais para ele.

O tempo passou e chegou o dia de Jason ir embora de Puerto Asis. Despedida triste, Iraque é mais uma vez o destino. O casal continua se correspondendo por e-mail, mas a distância não dá trégua. Apesar de Marylin afirmar por escrito querer deixar essa vida, e suplicar para que ele não a esqueça, Jason vê seu desânimo crescer na mesma medida em que diminui o contato entre os dois. Um dia, ele cessa de vez. Preocupado, o jornalista decide procurar saber o paradeiro da mulher. Sem informações, resolve voltar à Colômbia. Ao procurar a família da moça, descobre que o inevitável aconteceu: Marylin foi assassinada a sangue frio – por seu próprio grupo. Entre desconfianças sobre o verdadeiro motivo da morte da mulher e questionamentos internos sobre seus próprios limites, Jason sabe que não pode se enganar a respeito de Marylin: por muito tempo, ele viveu entre a vida e a morte ao amar uma assassina fria e meticulosa.

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