Archive for the ‘Coluna B’ Category
Coluna B, dia 21/11
Eu tenho um caso de amor platônico com uma cantora americana. Como já dá pra entender pela palavra platônico, ela não sabe de nada. Mas tenho certeza que, no fundo, sente as vibrações que emanam quando ouço suas músicas. Norah Jones é a minha musa inspiradora, e me dá extrema alegria poder falar dela em uma coluna que costuma se fixar mais em artistas alternativos. Principalmente porque essa moça se bandeia cada vez mais para o pop, e com uma qualidade musical simplesmente incrível.
Fã incondicional da cantora desde 2002, quando Jones chegou ao mundo com um clássico imediato, “Come Away With Me”, segui seus passos sem pestanejar na época do maravilhoso “Feels Like Home”, meu preferido entre todos de sua discografia. Continuei na cola da novaiorquina quando se uniu a amigos no projeto paralelo The Little Willies e ao lançar o belo, mas não tão empolgante, “Not Too Late”, já em 2007. Estava lá também, de ouvidos apurados, quando ela formou a banda de indie rock El Madmo. Posso dizer que vi Norah Jones crescer.
É por isso que seu novo álbum, “The Fall”, em pouco tempo já me é tão especial. A musa que tanto me inspira está, ela também, inspirada. Após três discos em que levava o jazz para o lado pop da força, misturando o estilo de Billie Holiday e Bill Evans ao de Elton John e Aimee Mann, a impressão é que ela se permitiu carregar nas cores mais vibrantes. Jones já havia dado mostras ao longo da carreira de que não fica acomodada com a fama. Se alguém tinha dúvida disso, a troca constante do piano pela guitarra neste quarto disco serve bem mostrar essa qualidade.
A mudança começa quando Jones termina seu relacionamento com o namorado e antigo parceiro de composição, Lee Alexander (será que agora eu tenho chance?). A cantora decide então experimentar com novos colaboradores. Para a produção, convocou Jacquire King, que já havia trabalhado com o Kings of Leon, Modest Mouse e Tom Waits. Para ajudar nas composições, vieram o cantor Ryan Adams e Will Sheff, vocalista do ótimo Okkervil River, junto ao antigo amigo Jesse Harris. Ainda assim, a cantora continua com seu lado compositora bastante afiado e assina quase todas as faixas deste variado “The Fall”.
Aqui, o termo “baladas matadoras” parece ter sido cunhado especialmente para a linda “I Wouldn’t Need You”, em rotação lenta, com pianos ocasionais e uma letra triste e cortante de tão real, ou a suave “You’ve Ruined Me”, outra de letra que amassa o coração na mão e joga longe. Adams é co-autor da bela “Light as a Feather”, enquanto Sheff está creditado junto com a cantora na climática “Stuck”, um dos destaques do álbum com suas belas guitarras. Mas é Jones quem assina sozinha a emblemática “Chasing Pirates”, que abre o álbum mostrando a nova direção que tomaria dali pra frente. Também é dela “It’s Gonna Be”, que, apesar da veia roqueira, consegue manter sua indelével marca d’água impressa, e as tocantes “December”, “Back To Manhattan” e “Man of the Hour”, econômicas nos arranjos, mas extremamente generosas no sentimento.
Difícil não citar todas as músicas que fazem de “The Fall” um dos mais deliciosos discos desta cantora que, com mudanças ou sem mudanças, vai ter sempre um cantinho no meu coração. Norah Jones, minha musa inspiradora, receba novamente minhas vibrações.
notinhas
Melhores da década
Na internet, a nova onda é fazer listas de melhores da primeira década deste novo século. A Pitchfork fez uma, que achei bastante justa, há alguns meses, outras pipocaram aqui e ali. Agora foi a vez da NME, um dos mais tradicionais veículos de música pop do Reino Unido, divulgar sua lista. Polêmica, claro. Primeiro, por trazer “Is This It”, dos Strokes, na primeira colocação. É um discaço, claro, e mudou o rumo do rock no começo do século, mas um disco ser muito importante não significa ser o melhor. Mas o grande trauma da lista da NME, pra mim, é a presença de “Up the Bracket”, do Libertines, na segunda posição. Veja bem, se um disco do LIBERTINES é o segundo melhor da década, acho que eu passei os últimos dez anos em coma. Só isso.
Várias
Então tá falado: o grande Gossip, que cometeu um dos mais deliciosos discos de 2009, “Music For Men”, vem ao Brasil também no começo do ano que vem. Nada a declarar, só que quero muito estar lá. /// O Oasis (menos Noel) vai seguir em frente com outro nome, liderados por Liam. Quem acha que vai dar errado, levanta a mão. /// Já estão na internet os B-sides do single de “Cornerstone”, do Arctic Monkeys. /// Metallica confirma oficialmente sua vinda ao país: dia 28 (Porto Alegre) e 30 (SP) de janeiro. E cadê o Alice in Chains? /// Hoje, alguns amigos estarão no The Killers em São Paulo. Alguém me acorda quando eles forem embora? /// Sabe quem também aparece no Brasil, mas em dezembro? O ótimo The Whitest Boy Alive. Dia 11 no Rio e 12 em São Paulo, quem puder, compareça que é bom.
Todo mundo tem que ouvir
A grande parada desta sensacional Banda Gentileza é o seguinte: não há estilo musical que se imponha à qualidade do som desses curitibanos. Os caras passeiam por tudo e saem ilesos.
Se você estava com saudade do Los Hermanos, procure por “Banda Gentileza”, um excelente álbum de estreia, e pare de chorar as barbas derramadas. Você ainda vai ouvir falar muito desses caras.
Playlist
Beach House – Silver Soul
Clare and the Reasons – Wake Up (You Sleepy Head)
Mew – New TerrainLulina – Mi Gostar Musga
The Swell Season – Back Broke
Washed Out – Feel It All Around
Aroldo Sampaio – Bossa Quase Nova
Demontré – Money Talks
St. Vincent – Actor Out Of Work
Days of the New – Enemy
Coluna B, dia 14/11
Atrasada, mas honesta. =)
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Doçura. Torpor. Olhos fechados. Sobrancelhas enrugadas. Sorrisos. Gritos. É com muita malícia que melodias assoviáveis e guitarras barulhentas se unem em torno de um só objetivo: cativar o ouvinte e trazê-lo para um universo onde todas essas coisas citadas anteriormente fazem um enorme sentido juntas.
Existem bandas que são especialistas em unir o rasgado de um riff cheio de fuzz com o fraseado temperado de um teclado. Tome, por obséquio, o exemplo dos dinamarqueses Sharin Foo e Sune Rose Wagner, que formam com muita desenvoltura o duo The Raveonettes. Seu mais novo disco, “In and Out of Control”, é uma viagem cosmopolita em torno de ausência e presença – no caso, de barulho. O casal mistura de maneira sensacional toques de pop, daqueles de dar inveja aos mais radiofônicos grupos do mainstream, a rajadas de barulho que fazem o Jesus and Mary Chain agradecer aos céus. E olha que isso não é pouco.
Em “In and Out of Control”, quinto disco do Raveonettes, tudo começa com a inacreditável “Bang!”, tão grudenta que é capaz de corromper para sempre a sua noção de música pop. “Suicide”, uma maravilha de fazer balançar a cabeça de um lado pro outro, e “Last Dance”, de irresistíveis teclados e refrão para se colocar em uma moldura, fazem com que essa vertente se escancare a ponto de engolir o incauto ouvinte. A barulheira fica por conta de “Heart of Stone” e “Boys Who Hape (Should All Be Destroyed)”, com ruídos permanentes cobrindo a fofura de suas melodias, e principalmente “Break Up Girls!”, que já se inicia com a faca na garganta, disparando uma metralhadora sonora de distorções para derrubar qualquer barreira – e o faz de forma quase poética. Há também a climática “D.R.U.G.S.”, com o potente jeitão anos 80 que faz do Raveonettes, e desse excelente “In and Out of Control”, algo para ser seriamente respeitado.
Por falar em doçura casada com barulheira, quem chega no mercado com disco novo é o esquisito e delicioso Friska Viljor. Esses dois suecos com cara de malucos, e músicas idem, já estão em seu terceiro álbum e trazem com este “For New Beginnings”, desculpe se estou sendo repetitivo, um verdadeiro recomeço. Após o não muito bem sucedido “Tour de Hearts” (2008), que não esteve à altura da ótima estreia, “Bravo” (2006), Daniel Johansson e Joakim Sveningsson retomaram o caminho tortuoso das belas composições e deram um tom mais folk ao som do Friska Viljor – sem perder o tino barulhento que lhes é peculiar desde sempre. Ah, claro, é preciso mencionar também que o disco foi gravado após ambos terem tomado fora de suas namoradas. Quem curte recomeços?
Fofices como “Die Die Die” (sim, apesar da letra algo raivosa, é uma música fofa), “Sunny Day” e “If I Die Now” ganham contornos quase surreais com as vozes inconfundíveis dos suecos e o violão que parece sempre tomar o tom certo para si sem dificuldade alguma. Enquanto “Hey You” busca inspiração nos barulhos clássicos do leste europeu para construir uma das mais divertidas faixas do disco (muito sopro, metais e cordas para quem quer ficar feliz num sábado à tarde), “I Want You” prefere pegar a melancolia do acordeon e casá-la aos timbres estranhos e belos tão usuais do Friska Viljor. “Lakes of Steep” passeia pelas guitarras para fugir um pouco da rotina, transformando-se na mais pop das canções de “For New Beginnings”. Para finalizar a análise, “Manwhore” ganha o prêmio de “melhor canção de coração quebrado e arrependido” desta temporada, com sua levada chorosa, ainda que ruidosa, e a letra que quase parte o coração. Aliás, nada mais emblemático para fechar esta coluna que une o doce ao amargo: a verdade agridoce de um arrependimento. Existe algo mais pop e caótico do que isso?
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Notinhas
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Metallica e quem?
Os shows do Metallica no país ficam cada dia mais claros. A última notícia, via blog Popload, é que a velha grande banda de metal toca em Janeiro, e a possibilidade de uma abertura da imensa Alice in Chains está de pé. Eu iria pelo Alice In Chains, mal aê.
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Novidades musicais
Duas bandas dessas de se ouvir sempre estão anunciando novidades. Primeiro foi o Yeasayer, que colocou na web algumas faixas (muito boas, aliás) de “Odd Blood”, segundo disco da carreira dos novaiorquinos. O álbum tem lançamento marcado para janeiro. O outro é o sempre interessante Hot Chip, que anunciou “One Night Stand”, disco novo, para fevereiro. E liberou na net a ótima faixa “Take It In”, que vale a pena ser procurada e escutada. Ah, e não esqueçam o disco novo da Norah Jones, “The Fall”, uma belezinha que em breve será assunto aqui na coluna e que já está nos melhores blogs de mp3 do mercado.
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O fim de semana passado
E sobre o fim de semana de festivais, em São Paulo, parece que a coisa foi mais ou menos assim: no Planeta Terra, gatinhas e gatões passeavam nos brinquedos do Playcenter ao som de trilha sonora feita ao vivo, enquanto no Maquinaria a diversão estava mesmo em cima do palco, com som alto e gritaria estourada. Foi isso mesmo?
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Todo mundo tem que ouvir
Juntar John Paul Jones (Led Zeppelin), Josh Homme (Queens of the Stone Age) e Dave Grohl (Foo Fighters e Nirvana) parece sacanagem. E é: Them Croocked Vultures é bom demais pra ser verdade.
Se você gosta de rock muito bem tocado, veloz, barulhento e com uma pegada setentista remodelada pelos dias atuais, “Them Croocked Vultures”, o disco, é o que você precisa ouvir agora.
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Playlist
Espers – The Pearl
Yeasayer – Ambling Alp
Norah Jones – You’ve Ruined Me
Inara George – Surprise
Atlas Sound – Washington School
Sondre Lerche – I Cannot Let You Go
Julian Casablancas – Glass
Pearl Jam – Just Breathe
Laura Jansen – Single Girls
Port O’Brien – Alive For Nothing
Coluna B, dia 7/11
Coluna B, dia 31/10
Coluna B, dia 24/10
Coluna B, dia 17/10
Em busca de oxigênio
A imagem que me vem à cabeça é a de uma pessoa no fundo do mar, no meio de um longo mergulho. Quando percebe que o ar está acabando, ela dá um forte impulso para cima. Os braços se debatem, o ar preso vai se soltando devagar, as pernas se movem com graciosidade, sem deixar transparecer o desespero de chegar logo à tona. Quando a cabeça encontra a fina película que cobre o imenso mar, a pessoa ganha a superfície e se coloca imediatamente a respirar o límpido ar e retomar suas capacidades. A esse ato de respirar um ar renovador, e a esse ar que amplia visões, recobra ideias e reestrutura pensamentos, chamo de carreira solo. Hoje, a Coluna B vai falar sobre três artistas que emergiram de suas competentes e atribuladas carreiras musicais com suas bandas e inspiraram um oxigênio diferente: Taken By Trees, Julian Plenti e Hope Sandoval & The Warm Inventions.
Taken By Trees – East Of Eden
Entre 1995 e 2006, Victoria Bergsman ficou conhecida como a principal componente do grupo pop The Concretes, um sucesso absoluto em sua terra natal, a Suécia, mas infelizmente pouco conhecida fora de lá. Quando começou a ficar grande demais para caber em uma banda com tantos integrantes, Bergsman resolveu seguir uma carreira diferente. Primeiro passo: arrumar um codinome. Taken By Trees foi o escolhido, e sob ele lançou “Open Field” (2007) e este delicioso “East Of Eden” (ah, claro, um adendo: entre um disco e outro, a moça esperta colocou sua voz a serviço dos conterrâneos Peter, Bjorn and John na incrível “Young Folks”, música de maior sucesso do trio – sim, aquela do assovio). Livre para escolher que caminhos percorrer, Victoria foi parar no Paquistão para gravar seu disco, assistida de perto pelo produtor Dan Lissvik. A mudança de ares é bastante perceptível não apenas na capa do disco, mas desde a abertura com o lindo dream pop “To Lose Someone”, na curtinha “Tidens Gang”, na misteriosa “Day By Day”, na suave “Watch the Waves” e principalmente em “Wapas Karna”, todas com participação de músicos locais. E, por falar em participações, Bergsman capricha ao trazer para perto de si, de duas diferentes formas, a absurda banda americana Animal Collective. Primeiro, ela convida Panda Bear para fazer backing vocal (e influenciar por completo) em “Anna”, uma das mais fantásticas do disco. Depois, toma a liberdade de fazer uma sensível versão de “My Girls”, presente no sensacional “Merriweather Post Pavillion” – aqui em “East Of Eden”, ela ganha o nome de “My Boys” e já garante a Victoria Bergsman o título de cover do ano. Mas fica claro que essa sueca tem fôlego pra muito mais. Fôlego renovado.
Julian Plenti – Julian Plenti is… Skyscraper
Se você começou a ler esse texto sem ter a menor ideia de quem diabos é Julian Plenti e porque ele está nesta humilde lista de artistas arriscando trabalhos solo, me desculpe. Eu deveria ter avisado antes que se trata de ninguém menos que Paul Banks, vocalista de uma das mais bem sucedidas bandas desta década: o Interpol. Mas pior seria se você já chegasse ouvindo o material de “Julian Plenti is… Skyscraper”. Certamente, causaria certa confusão ouvir a voz tão característica de Banks, desta vez produzindo um som menos sombrio e pesado, salpicado com toques de indie pop aqui e ali. Quer dizer, nem tanto. Há faixas que não deixam Banks (ou Plenti?) mentir – lembram um bocado o que o Interpol já fez. Mas é mesmo uma certa instrospecção que se coloca suavemente sobre o disco como um todo, mostrando o artista de forma mais completa, despindo-se das expectativas pré-concebidas para criar um so verdadeiramente criativo. Desde a abertura com “Only If You Run” e “Fun That We Have” já notamos que, apesar da guitarra que range na segunda faixa, há novidades na forma de arranjar as canções de Plenti. Ao passarmos por “Games For Days”, pesada e climática, vemos a pegada dark do Interpol dar um alô, mas nada que sobreviva à esquisitice de “Madrid Song”, ao folk de “On the Esplanade” ou ao clima de romance de “Girl on the Sporting News”. Plenti (ou Banks?) mostrou com “Julian Plenti is… Skyscraper” que andou nadando em outros mares. Fez bem ao rapaz.
Hope Sandoval & The Warm Inventions – Through the Devil Softly
A cara de menina, o jeitinho meigo e a voz que sussurra sensualidade entre cada palavra podem deixar você completamente atordoado, é melhor avisar. Foi assim na década de 90, quando a banda Mazzy Star, capitaneada por Hope Sandoval, era um dos destaques da cena alternativa debulhando o dream pop com uma graça estonteante. A banda, a bem da verdade, nunca acabou, mas não lança material nenhum desde 1996. Sandoval ainda fez alguns “bicos” aqui e ali, cantando com Death in Vegas, Jesus and Maty Chain, Chemical Brothers, Air e Massive Attack, antes de se juntar ao ex-My Bloody Valentine Colm Ó Ciosóg e formar o Hope Sandoval & The Warm Inventions. Em 2001, eles lançaram “Bavarian Fruit Bread”, e agora em 2009 estão de volta com o belo “Through the Devil Softly”, um disco sofisticado, chafurdado em uma melancolia gloriosa e produzido com um cuidado ímpar pelos próprios componentes. Baseado totalmente no folk, com arranjos delicados e uma falta de pressa tremenda, o segundo disco dessa dupla surpreende pela suavidade. A bateria tocada com vassourinha, toques de piano e xilofone, passagens conquistadoras de gaita e a espetacular sensualidade da voz de Sandoval são os trunfos deste trabalho, com destaque para as belíssimas “Wild Roses”, “Trouble”, “Blanchard” e “Lady Jessica and Sam”. Hope Sandoval, essa pequena notável, provou que não é apenas uma simples gota nesse caudaloso mar da música alternativa: é uma onda a ser admirada.
Notinhas
Indie Rock Festival zicado
O Indie Rock Festival, que ano passado se dissolveu semanas antes de acontecer de verdade, tentou dar a volta por cima esse ano, mas já se deu mal. Anunciaram semana passada uma edição com Gogol Bordello, Cake, Mombojó e Holger para os dias 13 (Rio) e 16 (São Paulo) de novembro. Beleza, apesar dos pesares. Mas agora já tiveram que cancelar o Cake e o Mombojó. Parece que o Super Furry Animals vêm pro lugar dos americanos, só não arrumaram ainda substitutos pros brasileiros. Mas é impressionante. Ou os organizadores são deveras incompetentes, ou tem uma cabeça de burro enterrada embaixo do escritório deles. Tudo dá errado pro Indie Rock Festival.
Vários
E eis que os cabelos queimados de Michael Jackson, alguns fios que sobraram do acidente do cantor em 2984, vão a leilão. Topa rachar e comprar um tufo? /// Charlotte Gainsbourg liberou pra download a primeira faixa de seu novo disco, “IRM”, produzido por Beck, que tem o mesmo nome do álbum. /// O Elbow vai relançar seu primeiro disco, “Asleep in the Back”, com novas faixas, raridades e gravações ao vivo para a BBC. Bela pedida pros fãs da banda. /// O LCD Soundsystem anunciou o lançamento, meio que de surpresa, do primeiro single do futuro terceiro disco. “Bye Bye Bayou” sai em 24 de novembro, mas já tá facinho na internet. /// Agora, uma notícia triste: após 25 anos o grupo norueguês pop A-ha se separou. E, pleo jeito, deixou várias viúvas por aí.
Todo mundo tem que ouvir
Quando quatro grandes músicos se juntam para fazer um álbum, espera-se que esse trabalho seja grandioso. No caso do supergrupo Monsters of Folk, ele realmente é.
O disco homônimo traz de M. Ward do She & Him, Jim James do My Morning Jacket e Conor Oberst e Mike Mogis do Bright Eyes em grande forma, com faixas que mostram não apenas folk, mas também pop e country. Obrigatório.
Playlist
Uninhabitable Mansions – Big Kick
The Raveonettes – Suicide
A Perfect Circle – Orestes (acoustic version)
Evol – One Against All
Thom Yorke – Hearing Damage
Bon Iver & St. Vincent – Roslyn
Espers – Another Moon Song
Dirty Projectors – Stillness is the Move
Julian Casablancas – 11th Dimension
Sondre Lerche – Let My Love Open the Door
Coluna B, dia 10/10
Os 10 discos da minha vida
Imagine um acontecimento sem precedentes. A bomba atômica explodiu, o armaggedon finalmente chegou, ou você estava no avião que caiu lá na ilha de “Lost”. Não importa, a questão é que, por algum motivo, você vai ter que escutar os mesmos dez discos pro resto da sua vida. Só dez.
Esse foi o desafio lançado pela jornalista americana Whitney Matheson, do blog Pop Candy, do jornal USA Today. Fui na onda dela e comecei a pensar na minha própria lista. Fiz um post no meu blog sobre isso e resolvi trazer aqui pra Coluna B o resultado dessa dificílima escolha. Leia abaixo e fique à vontade para enviar pra gente os 10 discos que você ouviria pelo resto da vida.
Uma observação: esta lista não está em ordem de importância ou preferência.
The Beatles – 1 (2000)

Essa reunião dos vinte e sete grandes sucessos comerciais dos Beatles foi a grande responsável por eu ter me embrenhado mais profundamente no mundo dos Fab Four. E, com canções tão clássicas, é impossível cansar cheio deste disco, mesmo que tenha que ouvi-lo pro resto da vida.
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Pearl Jam – Vs (1993)
Meu lado grunge aflora por completo quando ouço as grandes canções deste que é o segundo disco da banda de Seattle. Nunca mais poder ouvir “Dissident”, “Animal”, “Rearview Mirror” e “Indifference” seria uma tortura letal.
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Leaves – Breathe (2002)
Está fácil nas cabeças da minha lista de melhor disco da década. Coldplay, Travis, Keane e outros similares que me perdoem, mas o dia em que um deles fizer qualquer coisa tão potente como a faixa “Epitaph”, a gente volta a conversar. Um clássico.
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Alice in Chains – MTV Unplugged (1996)
O melhor de todos os acústicos já feitos pela MTV gringa, e ainda carrega uma curiosidade particular: foi o último CD que eu comprei, lá pra 2004 ou 2005, numa banquinha a 12 reais. Veja bem, eu comprar um CD? Tem que valer muito.
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The Phantom Band – Checkmate Savage (2009)
Tentei não me deixar levar pelo momento nesta lista, mas este disco é um vício tão impressionante que não consigo passar um dia sem ouvir pelo menos uma música de “Checkmate Savage”. E quero ouvi-lo pra sempre.
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Guns N’ Roses – Use Your Illusion II (1991)
Algumas coisas são mesmo eternas. Por mais que o tempo tenha cuidado de mudar (ou talvez apurar) meu gosto musical, faixas como “Civil War”, “Get in the Ring”, “Locomotive” e principalmente a linda “Stranged” vão ficar marcadas pra sempre.
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The Decemberists – Picaresque (2005)
De uma das bandas mais regulares que conheço – todos os são excelentes – foi difícil retirar apenas um disco pra colocar na mala. Mas o fato é que não há maneira de passar mais que alguns poucos dias sem ouvir “We Both Go Down Together” e “The Engine Driver”.
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Los Hermanos – Ventura (2003)
Este é possivelmente o melhor disco de rock já feito no Brasil. Rock? Nem sei. Tem samba, tem pop, tem de tudo e mais um pouco, com Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante em seus momentos de auge criativo. Um álbum inesquecível.
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Iron & Wine – Our Endless Numbered Days (2004)
Pra mim, um dos grandes discos de folk da história moderna do estilo. Aqui, Sam Beam é talento em estado puro. Voz, violão e muito pouco mais do que isso formam canções clássicas como a mágica “Naked As We Came”.
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Radiohead – Ok Computer (1997)
Pensei muito sobre qual disco do Radiohead colocar aqui. Gostaria de levar toda a discografia, claro. Mas esse clássico absoluto tem “No Surprises”, “Exit Music (For a Film)” e a paranormal “Paranoid Android”, que não dá pra deixar de ouvir nunca.
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Ficam na reserva para possíveis aberturas de precedentes “Norah Jones – Feels Like Home”, “Chico Buarque – Perfil”, “Death Cab For Cutie – Transatlanticism”, “Lestics – Les Tics”, “Agnes Kain – Keep Walking Or I’ll Kill You”, “Sondre Lerche – Two Way Monologue”, “Coldplay – Parachutes” e “Regina Spektor – Begin to Hope”. Pode?
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Notinhas
A década da música
Mais uma daquelas listas intermináveis e divertidas foi completada na semana passada. Desta vez, foi o site Pitchfork que resolveu listar os 200 melhores discos da década. É claro que, sendo a seleção de um dos sites mais alternativos da internet, há polêmicas que não acabam mais. Mas o resultado final foi bem satisfatório. Discos preciosos de Interpol, Strokes, LCD Soundsystem e Sufjan Stevens ficaram muito bem colocados, assim como Animal Collective, Spoon e The Knife. Mas os grandes vencedores da década são Daft Punk, com “Discovery” (2001), Arcade Fire, com “Funeral” (2004) e o Radiohead, com “Kid A” (2000), os três primeiros colocados, nesta ordem. Aliás, pode-se dizer que a banda de Thom Yorke, que anunciou a previsão de um novo álbum a ser gravado no fim deste ano, é mesmo a grande banda dos anos 2000: além da primeira colocação, ainda abocanhou a 34ª posição com “Amnesiac” (2001) e a 21ª com “In Rainbows” (2007).
Novidades
O Vampire Weekend lançou para download gratuito a primeira música de “Contra”, seu novo disco, que chega só em janeiro. A faixa “Horchata”, ao mesmo tempo esquisitinha e gostosa, tá lá no site da banda. Vai que dá. /// Segundo a Popload, a ótima banda americana Walkmen toca no Brasil em dezembro. Será que eles vêm pro mesmo festival (Goiania e SP Noise) que o Dirty Projectors? Se for, será imperdível. /// O Arctic Monkeys vai lançar mais um single, “Cornerstone”. Mas a boa notícia mesmo é que o disquinho (virtual e em vinis de 10 e 7 polegadas) vai vir com nada menos que três faixas inéditas: “Fright Lined Dining Room”, Sketchead” e “Catapult”, todas sobras de estúdio do álbum “Hambug”. /// Agora é confirmado: o Oasis acabou mesmo. Palavras de Liam Gallagher para o jornal britânico The Times. Triste.
Todo mundo tem que ouvir
Na semana que vem, “Where the Wild Things Are”, filme de Spike Jonze baseado no clássico de Maurice Sendak, estreia nos EUA. E a parte musical ficou por conta da talentosa Karen O, do Yeah Yeah Yeahs.
Sob o nome de Karen O and the Kids, a trilha já é figurinha fácil na internet e deixa água na boca para ver o filme. Vale a pena escutar.
Playlist
Girls – Hellhole Ratrace
Chris Garneau – Les Lucioles en re Mineur
Editors – You Don’t Know Love
Dirty Projectors – Stillness Is the Move
Frank Turner – The Quiet One
Devendra Banhart – Goin Back
Monsters of Folk – Goodway
The Xx – Shelter
Alice in Chains – Your Decision
Pearl Jam – Just Breathe
Coluna B, dia 03/10
Com atraso, mas honesta. =)
Anos 90 feellings: Alice In Chains
No final dos anos 80, alguém precisava salvar o rock da mesmice. Há tempos a coisa andava meio modorrenta, nada estava saindo muito bom, a imensa maioria das bandas eram nada mais que um pastiche do que um dia foram. No meio do nada, na chuvosa cidade de Seattle, nos EUA, uma cena começou a dar sinal de que alguma coisa poderia mudar. O bafafá era em torno de uma série de bandas independentes locais que usavam as guitarras em volume estridente e uma certa atitude punk retraída para falar das frustrações do dia-a-dia, de amores que nunca aconteceram e de como o futuro parecia pouco animador. A esse movimento, deu-se o nome de Grunge.
Há pessoas que veem o grunge como um estilo musical, mas sou contra essa visão. Para mim, o grunge é mesmo um movimento que abarcava bandas que tinham lá suas coisas em comum, mas que, no final de tudo, eram diferentes entre si. Se por um lado havia a turma que se atraía mais pelo punk, com um som sujo e gritado (Mudhoney, Nirvana e L7), por outro estavam os que puxavam influências do heavy metal e do hard rock, com melodias doces feitas por guitarras pesadas e vocal gritado (Alice In Chains, Soundgarden, Mad Season, Temple of the Dog), e na outra ponta as bandas que se resguardavam no rock americano e inglês setentista, tendo Who, Neil Young e Rolling Stones como deuses-mor (Pearl Jam, Screaming Trees, Stone Temple Pilots). Em comum, as bandas carregavam na depressão das mensagens e no uso de drogas, e guardavam profundo apreço pela formação clássica de guitarras, baixo, bateria e vocal.
O Alice In Chains se destacou como uma das principais bandas do período. Talvez, na medição de popularidade, fique atrás apenas de Nirvana, a grande responsável pelo estouro do grunge, e Pearl Jam, que até hoje se mantém na ativa e com a moral de ser um dos maiores grupos de rock de todos os tempos. Com a presença de uma fantástica dupla de vocalistas, Layne Staley e Jerry Cantrell, além de um conjunto de instrumentistas afiados e com um senso de melodia e peso fora do comum, o Alice In Chains começou sua epopéia em 1987 e havia lançado apenas três álbuns antes da morte de Staley, vocalista e principal letrista da banda, em 2002, de overdose. A perda foi grande, mas mesmo antes, devido ao seu problema com drogas, a banda já se encontrava num beco sem saída, sem gravar há anos e aparentemente relegada ao ostracismo. Mas 2009 vai ficar marcado como o ano do ressurgimento do grupo, e com um disco que surpreendeu muita gente.
“Black Gives Way To Blue” apresenta William DuVall, o novo vocalista a fazer par com Cantrell. DuVall já toca com a banda desde 2007, e é bom que se diga: ele não quer se parecer com o Staley, e nem tenta imitá-lo. O estilo próprio do cantor, que também faz parte da obscura banda Comes With The Fall, fez o Alice In Chains crescer, deu fôlego ao grupo. O resultado é um disco pesado como nunca se viu, ainda apresentando um universo dark que resvala na morbidez vez ou outra, e mostra uma banda totalmente em forma. Coeso e cheio de grandes canções, “Black Gives Way To Blue” só cresce com as seguidas audições. Destacam-se muita guitarra estourando na cabeça, estruturas alongadas se arrastando pelas lindas melodias que são a cara de Jerry Cantrell, e as vozes cortantes dos vocalistas, que tão bem casam com a força enegrecida dos arranjos da banda.
É claro que não é só isso – afinal, estamos falando do Alice In Chains, banda que se sobressaiu no grunge também graças às maravilhosas baladas e aos sets acústicos de arrancar lágrimas. Até Elton John sabe disso, e talvez seja esse o motivo dele ter aceitado tocar piano e colocar um pouco de backing vocal na linda faixa-título, que fecha o disco homenageando Layne Staley e nos deixando completamente arrepiados. Já o estilo desplugado da banda é muito bem retratado na linda “Your Decision”, onde Cantrell discorre sobre a sua decisão de fazer o que quiser com a sua vida. Tanto no estilo quanto nas letras, é palpável a influência que a morte do antigo vocalista ainda representa para todos. “When The Sun Rose Again”, com percussões esquisitas e um climão de galera em volta de uma fogueira contando casos de terror, também se destaca pela tranquilidade.
Voltando ao som mais rasgado, “Black Gives Way To Blue” tem um punhado de canções que são capazes de emocionar os fãs mais antigos da banda. “Check My Brain” é hit total, grudenta, pesada e tão rápida quanto o Alice In Chains pode ser, em sua essência. Clássica. Ao lado dela, “A Looking In View”, de mais de 7 minutos, tem as guitarras de um Black Sabbath e a crueza do Soundgarden, mas é um autêntico produto AIC, assim como a densa e arrastada “Acid Bubble” e a esperta “Lesson Learned”, que trazem à vida os “yeah!” tão famosos de Staley e Cantrell e um belo jogo de vozes. Se “Last of My Kind” reverbera uma dinâmica mais próxima ao heavy metal, “All Secrets Known”, que abre o disco, não deixa de ser um ótimo exemplo de como este renovado Alice In Chains não foge às mudanças, ainda que permaneça fiel às raízes. O mundo muda. Do começo dos anos 90 pra cá, muita coisa aconteceu, a música se transformou. Mas há algo que sempre será inegável: o que é bom de verdade, sobrevive às piores tormentas. O Alice In Chains sobreviveu, e “Black Gives Way To Blue” é a prova de que valeu a pena esperar.
Notinhas
“Março 2010″ é o novo “março 2009″
Parece mesmo que as coisas estão mudando. Antes, a dobradinha outubro-novembro era o período de ouro dos shows internacionais no Brasil. Agora, os primeiros meses do ano estão pegando esse título pra eles. Veja março, esse abençoado mês. Se 2008 teve Interpol, 2009 teve nada menos que Radiohead. E 2010, reserva algo de bom? Claro que sim. Anota aí: quatro shows do Franz Ferdinand (Rio, Sampa, Porto Alegre e Brasília, entre os dias 18 e 23), mais dois do Coldplay (Rio, 28/02, e SP, 02/03), e inclui pra mim a abertura da incrível Bat For Lashes pro show de Chris Martin e amigos. Curtiu? Então se prepara: os ingressos do FF começam a ser vendidos esse mês, a partir do dia 19 – já para a imperdível dobradinha Coldplay + Bat For Lashes, a data a ser marcada pra tirar o dinheiro do bolso é 7 de novembro.
Novidades variadas
Semana agitada. Começou com Thom Yorke anunciando uma nova banda pra tocar seu material solo, com ninguém menos que o baixista Flea e um brasileiro, Mauro Refosco, na parada. Depois, a notícia que “Rehab” foi considerada a música mais influente da década pelo jornal inglês “The Telegraph”. Beleza, concordo, mas acho que “Yellow”, do Coldplay, merecia uma posição melhor. Afinal, olha a quantidade de bandas “tipo Coldplay” que vieram depois? E agora o Phoenix anuncia um imperdível disco de remixes para o excelente “Wolfgang Amadeus Phoenix”, com trabalhos de Passion Pit, Friendly Fires, Devendra Banhart, YACHT e Animal Collective, entre outros. Quer mais? Os lançamentos de Wolfmother, Julian Casablancas, The Sunshine Underground, Ben Gibbard (Death Cab For Cutie), Weezer e Air estão na pinta pra sair, se liga.
Todo mundo tem que ouvir
Eu já tinha até esquecido da existência deles quando, 4 anos depois, resolveram lançar disco novo. Ainda bem que me lembrei, porque o Engineers é uma banda pra lá de sensacional.
O novo disco desses britânicos que misturam lo-fi ao dream pop e ao shoegaze se chama “Three Fact Fader”, e é uma belezinha. Trata de correr atrás do Engineers novo, senão vai ficar pra trás.
Playlist
The Black Heart Procession – Rats
The Rosewood Thieves – Junkyard Julie
Xx – Intro
Karen O and the Kids – Heads Up
Girls – Big Bad Mean Mother Fucker
Radiohead – I Will
Epic45 – The Future is Blinding
Florence + the Machine – You’ve Got the Love (The Xx Remix)
Sonic Youth – Antenna
Vivian Girls – I’m Not Asleep
Coluna B, dia 26/09
Por questões de espaço no jornal, a Coluna B do último sábado foi uma das mais picotadas que eu já vi, hehe. Normal. Mas, aqui no blog, coloco o texto completo. Lá vai.
Anos 90 feellings: Pearl Jam
Nasci em 1981, às três da manhã de um dia de janeiro, no calor sagrado de Cachoeiro de Itapemirim. No começo da década seguinte estava, portanto, começando a formar minha personalidade, meu caráter, meus gostos e preferências. Os anos 90 foram responsáveis por várias mudanças no mundo, mas, para mim, o que essa década mudou mesmo foi a minha vida. O fim da Guerra Fria, o crescimento da internet e o impeachment do Collor são colocados lado a lado com os dias em que ganhei meu último vinil e meu primeiro CD, o fim da minha infância e o meu primeiro beijo, e a descoberta de um movimento que ajudaria a traduzir quem eu sou hoje: o grunge.
Naquele tempo, era difícil conseguir novidades. Trocávamos não arquivos de MP3, mas fitas K-7 com gravações toscas de rádios, discos e até gravadores caseiros. No interior, então, o trabalho era hercúleo. Assim, a chegada das bandas de Seattle (principalmente Pearl Jam, Nirvana e Alice in Chains) na minha vida foi marcante ao ponto de eu estampar na própria pele a importância delas na minha vida. E, agora, de uma maneira meio esquisita e desafiadora, algumas destas bandas estão de volta ao meu dia-a-dia. Na semana passada, me senti novamente com 14 anos: tinha em mãos “Backspacer”, nono disco de estúdio do Pearl Jam, e “Black Gives Way To Blue”, a volta do Alice In Chains. Mas e agora? Em que forma estão, no fim dos anos 2000, duas das maiores bandas dos anos 90? Leia agora meu parecer sobre o álbum do Pearl Jam e, na semana que vem, volte para ver tudo sobre a nova investida do Alice in Chains.
A crítica musical internacional anda empolgada com “Backspacer”. Eu também estou curtindo muito o disco. Mas, em uma breve passeada pelos sites mais bacanas, é fácil perceber que os motivos que fazem com que os gringos saúdem este álbum como o melhor da banda nesta década são diferentes dos meus. Além disso, não sei se já podemos incluir este nono disco da banda de Eddie Vedder entre os melhores do grupo. Trata-se, sim, de um grande álbum, bastante competente em sua missão de mostrar a banda mais leve, mais divertida, menos preocupada com a (imensa) responsabilidade de agradar tanto aos fãs mais antigos quanto os novos.
“Backspacer” conta com várias faixas acima da média, umas poucas maravilhosas e outras aqui e ali que, apesar de terem notável força, já não me cativam tanto. Até porque, diferente da maioria dos críticos que citei, não espero nem nunca esperei a volta do Pearl Jam ao estilo do começo de carreira. Enquanto lá fora há sempre alguém aguardando um novo “Vitalogy” (1994), talvez o disco mais punk da carreira da banda, eu já estou muito mais pro lado alternativo de “No Code” (1996) e “Yield” (1998), discos em que a banda realmente mostrou a qualidade indiscutível de seus músicos e a capacidade de inovar, ainda que permanecendo fiel às suas origens. Hoje, o Pearl Jam não é mais nem uma coisa nem outra. A banda assumiu a verve do rock n’ roll clássico, tal qual um The Who dos anos 2000, ou um Bruce Springsteen da nova geração – e talvez Vedder, um eterno combatente no mundo da música, até goste de ser o novo “Boss” dessa turma que tem o Twitter como principal veículo de informação.
Mas uma coisa é bom que se diga, fãs da banda de Seattle: há aqui música para todos os gostos. As primeiras quatro faixas de “Backspacer” são dedicadas ao punk rock. É pancada na cabeça com as três guitarras de Vedder, Mike McCready e Stone Gossard afiadas no corte. A poderosa “Gonna See My Friend” traz um Matt Cameron quebrando tudo na bateria em uma das mais empolgantes faixas lançadas pela banda ultimamente. “Got Some”, composta pelo baixista Jeff Ament, é um tantinho menos frenética e tem belos solos de guitarra espalhados pela faixa. Já “The Fixer”, primeiro single da banda, é o tipo de canção que cresce com o tempo. A levada de rock conta com uma linha de baixo bem interessante e um refrão grudento que só. “Johnny Guitar” completa a parcela divertida e despreocupada do disco e, assim como a proto-punk “Supersonic”, perdida lá no meio da segunda metade, está inserida na parte menos empolgante de “Backspacer”.
Para quem gostou do disco solo de Eddie Vedder, “Into the Wild”, trilha para o filme de Sean Penn de mesmo nome, há aqui grandes surpresas. Por sorte, a banda digeriu bem a nova faceta do vocalista e líder do grupo, ajudando que ele criasse a joia “Just Breathe”. Violões dedilhados, um teclado disfarçado, um jogo de cordas esparsas, a voz calma e uma letra matadora sobre alguém que está à beira da morte e repensa toda a vida – detalhes que se amarram para construir uma das mais belas faixas da carreira do Pearl Jam, e eu não tenho o menor problema em afirmar isso. É essa faixa que abre o caminho do grupo para um lado menos linear (e mais agradável) de “Backspacer”. Cabem aqui as duas faixas seguintes – “Amongst the Waves”, com uma estrutura cheia de pequenas fissuras e lindas melodias, e “Unthought Known”, uma das melhores do álbum, que começa suave e vai ganhando força (e uma consistente camada de piano) – e a derradeira, “The End”, um lindo folk melancólico que também lembra a fase solo de Vedder. Fechando a conta, a balada “Speed of Sound” tem melodias bem trabalhadas e remete a algumas músicas do incrível “Vs”, e “Force of Nature” é mais uma bela canção que o Who ou Springsteen teriam tido prazer em fazer. Por fim, “Backspacer”, entre grandes acertos e pequenos deslizes, é o Pearl Jam vivo, eloquente, mais pop do que nunca, dando aos órfãos dos anos 90 algo com que se lambuzar por um bom tempo.
Notinhas
Anos 90 agora (ainda?)
Ainda. É que as coisas andam fugindo do controle de tão absurdas. Veja o exemplo do Pavement, banda classe A da cena underground dos anos 90. Os caras resolveram voltar pra fazer somente um show – deviam estar com as contas atrasadas. Aí colocaram à venda os ingressos e acabou em minutos. Detalhe: o show será em setembro de 2010. Sim, daqui a um ano. Stephen Malkmus e cia resolveram aproveitar para fazer uma poupança, além de pagar as contas, e abriram mais 3 datas na sequência. Todas já esgotadas. Além disso, o Flaming Lips tá com disco novo quebrando por aí, já considerado um dos melhores do ano por quem ouviu. E “The Resistance”, novo do Muse, está em primeiro lugar nas paradas de diversos países. Quer mais? O Slash, ex-Guns, avisou que está gravando com o arroz de festa (mas só festa boa, né) Dave Grohl e com seu ex-companheiro de banda, Duff McKagan (que, aliás, vem ao Maquinaria com sua nova banda, Loaded). O disco sai no começo do ano que vem e não duvido nada que seja bom. Tá entendendo a força desse revival ou não?
Vampiros, amores e música
Eu acho a série vampiresca “Crepúsculo” uma grande porcaria, falo logo. Mas a produção de trilha sonora para o novo filme, “Lua Nova”, é algo marcante. Estarão presentes Death Cab For Cutie, Grizzly Bear, Thom Yorke, Editors, Killers, Lykke Li, Bon Iver junto com St. Vincente e Black Rebel Motorcycle Club, todos com faixas inéditas feitas especialmente pro filme. E ainda tem o Muse e outras, com faixas já lançadas. A briga pela melhor trilha sonora do ano vai ser com o aguardadíssimo “500 Dias Com Ela”, novo da Zooey Deschanel que estreia aqui lá pra novembro e tem muita coisa dos Smiths, além de Regina Spektor, Black Lips, Belle & Sebastian, Jack Peñate, entre outros. Brinca.
Todo mundo tem que ouvir
Sim, continuamos a saga dos anos 90 com o lançamento de “Black Gives Way To Blue”, novo disco do Alice in Chains após quase oito anos afastados, desde a morte de Layne Staley.
Com a formação original mais William DuVall, novo vocal, a banda chega mais pesada do que nunca, mas mantendo intacta a melancolia e o clima pessimista que fizeram a fama do Alice in Chains na década passada. Imperdível.
Playlist
Kings of Convenience – Freedom and It’s Owner
Sufjan Stevens – Year of the Sheep
The Invisible – Baby Doll
Jennie Sadler – Kept Inside
Megafaun – Solid Ground
The Xx – Basic Space
HEALTH – In Heat
Destroyer – Bay of Pigs
Japandriods – Wet Hair
Laura Jansen – Use Somebody
Coluna B, dia 19/09
Música para a manhã seguinte
Se você está abrindo o jornal agora, fresquinho, em pleno sábado, adianto logo: esta é uma coluna para se ler amanhã de manhã. Talvez, se você tiver saído ontem e tomado todas, até valha a pena, porque hoje vamos falar sobre bandas para se ouvir no dia seguinte àquela festa que parece nunca ter acabado: boas para curtir uma ressaca. E o domingo, todo mundo sabe, é o dia internacional da ressaca. Dor de cabeça, mal-estar, boca seca e aquele gostinho de cabo de guarda-chuva. Quais os discos lançados ultimamente que melhor combinam com esse sentimento cachorro, mas tão presente na vida das pessoas? A Coluna B tem a resposta na ponta da língua.
De preferência, comece com a voz sedutora de Sarah Blasko. Essa cantora e compositora australiana, que completa 33 anos na semana que vem, é capaz de fazer você deixar pra trás aquela pontada contínua no crânio para curtir “As Day Follows Night”, terceiro álbum de sua carreira. E eu não ficaria apenas com a voz: as harmonias criadas por Blasko são deliciosas. A moça faz um indie pop muito delicado, com toques de jazz permeando as faixas, seja na bateria, seja no uso do piano. A balada matadora “Sleeper Awake”, sétima faixa do disco, é capaz de mostrar com bastante apuro o toque refinado da australiana. O vocal derrama-se pela faixa enquanto cordas e teclados fazem a ponte entre a melodia e o ritmo arrastado da bateria. Mesmo com a cabeça latejando e os olhos tentando a todo custo pular para fora das órbitas, escutar Sarah Blasko é como se nada disso estivesse acontecendo. Um remédio natural com faixas tão gostosas de se ouvir quanto “Night and Day”, as climáticas “All I Want” e “Is My Baby Yours” ou a beleza poética de “Bird On A Wire”. Mas não se esqueça de tomar bastante água para hidratar o organismo.
Dá pra escutar na música da banda Noah and the Whale os ecos de tudo o que esses ingleses escutaram durante anos. O vocal de Charlie Fink é grave, como se trouxesse de volta ao mundo um Ian Curtis de ressaca, cantando com a voz bem postada, mas sem se elevá-la demais para não doer a cabeça. O fato é que as referências, entre elas o pós-punk dos anos 80, o folk dos anos 70 e bandas mais recentes, como Neutral Milk Hotel e Belle & Sebastian, fazem o NATW soar como uma banda sem pressa, sem nervosismos, preocupada com o lirismo de suas canções. E nada melhor que isso quando temos um liquidificador no estômago pedindo para o dia acabar rápido. “The First Days of Spring”, segundo disco dos londrinos, traz algumas faixas que combinam muito bem com a melancolia da ressaca, aquela sensação de mal ter dormido e ainda ter acordado em um mundo que não é o seu. Enquanto “My Door Is Always Open” derrete a sua resistência com um violão, um vocal e uma guitarra de mesa, “Blue Skies” coloca a sua vida nos trilhos novamente com uma letra de chorar e melodias tão bem amarradas que a sensação é a de que ela foi feita especialmente pra você – principalmente se o motivo da sua bebedeira do dia anterior foi um fenomenal pé na bunda. Acredite, funciona.
Folk, aliás, é um estilo musical que combina muito bem com ressaca. É como tomar Coca-Cola ou Gatorade quando acorda, parece perfeito para a tristeza do momento. E o grupo espanhol Pájaro Sunrise é, possivelmente, o que lançou o melhor disco de folk este ano. E isso não é pouca coisa. Aliás, nada no Pájaro Sunrise é pouca coisa: a banda lançou este ano “Done/Undone”, o segundo da carreira, e já foi logo metendo um álbum duplo. De um lado, “Done”, doce, criado em cima de melodias finas e dedilhados de violão acompanhados de uma ou outra percussão, um sopro aqui, uma corda ali. Lúdico. Do outro lado, “Undone”, que segue a mesmíssima linha, mas traz letras um pouco diferentes. Além do folk, o pop está sempre presente nas músicas da banda, como o indelével clima hip hop da suingada “Something Else” ou na belíssima “Young and Free”, que tem uma veia country e um teclado sessentista de tirar o fôlego. Mas é mesmo o folk, tão amigo da maldita e indisfarçável ressaca, quem toma conta das ações em “Done/Undone”.
Tal qual um bom antiácido, à melhor maneira de uma ótima noite de sono, assim como uma garrafa de água de coco geladinha, os novos discos de Pájaro Sunrise, Sarah Blasko e Noah and the Whale são ótimos antídotos para a ressaca. Se não curá-la, pelo menos suas canções vão fazer com que essas horas terríveis tenham alguns momentos de prazer. Mas, veja bem, se você não bebe, nunca teve ressaca na vida e não está entendendo bem do que estou falando, não tem problema. Esses belos discos servem direitinho para você também.
Notinhas
Franz Ferdinand
Tá uma loucura só essa vinda do Franz Ferdinand ao Brasil. Os caras, convidados pela MTV para tocar no VMB 2009, vão fazer também uma apresentação na boate The Week, em São Paulo, para cerca de 1000 pessoas – dessas, apenas 500 ingressos foram colocados à venda na última quinta (e esgotaram em questão de minutos, diga-se de passagem), o resto saiu em sorteio e promoção. O preço dos que foram à venda: 260 contos. Mas, assumo, eu acho que vale. Diz se você não queria ser um desses sortudos?
Lançamentos que não dá pra perder
Tem coisa boa chegando na praça. O Cribs lançou “Ignore the Ignorant”, disco que vai bem nas vendas na Europa e, digo logo, vale conferir. O Vampíre Weekend, por sua vez, já avisou que “Contra”, seu segundo disco, chega às lojas só em janeiro, mas não dou dois meses pra cair na nossa mão. Sobre o “Declaration of Dependence”, do Kings of Convenience, eu já falei aqui, né? Sai em outubro. E o “Backspacer”, do Pearl Jam, e o “The Resistance”, do Muse, que já foram baixados por este colunista, devem ser assunto em breve. Mas o lançamento imperdível da semana fica por conta de Laura Jansen. A holandesa que mora na Califórnia lança “Bells”, seu primeiro disco depois dos ótimos EPs “Single Girls” e “Trauma”.
De graça
Se é música de graça que você quer, é isso que você vai ter. Pelo menos é o que pensam Billy Corgan, aquele que é o único remanescente original do Smashing Pumpkins, e o Monsters of Folk, bacanudo projeto que junta Mike Mogis, Conor Oberst, Jim James e M. Ward. Corgan anunciou que vai liberar pra download, de pouquinho em pouquinho e a partir de outubro, nada menos que 44 novas faixas de sua banda. Já o disco homônimo do MOF está lá no MySpace deles, bonitinho e todo liberado pra quem quiser. Corre lá.
Todo mundo tem que ouvir
O Pearl Jam voltou. A banda que fez parte do movimento grunge (mas hoje está mais para o rock n’ roll à lá Springsteen) lança semana que vem “Backspacer”, mas o álbum já repousa nos HDs do mundo faz alguns dias.
Um disco da banda de Eddie Vedder sempre vale a audição – mesmo que seja ligeiramente inconstante, como este novo. Mas só a lindíssima “Just Breathe”, que entra fácil entre as mais belas baladas da banda, já vale o download.
Playlist
Dan Mangan – Set the Sails
Mika – Touches You
Pearl Jam – Just Breathe
Joan as Police Woman – Whatever You Like
Massive Attack – Pray For Rain
The Twilight Sad – That Birthday Present
Florence and the Machine – Girl With One Eye
The Clean – Simple Fix
Natalie Prass – A Good Man
The Postmarks – The Girl From Algenib
Coluna B, dia 12/09
Quase esqueço de postar a coluna por aqui essa semana. Aí vai.
Sondre Lerche, o impressionante
Um artista impressionante é aquele de quem você espera tudo, e mesmo assim ele consegue te surpreender. Por mais que você o conheça, saiba bastante de sua carreira, o admire por tudo que fez, ainda assim ele dá um novo passo e te deixa ali, procurando pelas pistas que deixou passar. Apenas impressionado. Em sua não tão longa carreira, mas deveras proveitosa e cheia de grandes feitos, Sondre Lerche conseguiu surpreender seus mais fieis seguidores com discos que sempre fugiam do comum. Em “Heartbeat Radio”, o quinto álbum de sua carreira, é claro que isso acontece de novo.
Sorte a nossa. Para variar, a surpresa é boa. Lerche começou sua carreira aos 14 anos, tocando no clube em que sua irmã trabalhava, e por volta dessa mesma idade começou a compor. Considerado um prodígio, o menino norueguês logo foi alçado à condição de grande músico com o disco de estreia, o fantástico “Faces Down”, de 2001. Aos 19 anos, tornou-se uma estrela em seu país e ganhou manchetes pelo mundo com um som de lamber os beiços, misturando influências do pop sessentista com tons oitentistas, o tropicalismo brasileiro, arranjos acústicos e um senso de melodia perceptivelmente especial. As faixas “Modern Nature” e “No One’s Gonna Come”, sensacionais, são provas cabais da capacidade do artista de ir além.
O que se segue é história, e das boas. Lerche lançou no começo de 2004 o incrível “Two Way Monologue”, ousando mais nos arranjos e mandando algumas faixas diretamente para os anais da música pop dos anos 2000 – tais como “It’s Over”, “Track You Down”, “Stupid Memory” e “It’s Our Job”. No trabalho seguinte, ele formou uma banda (The Faces Down Quartet) e se saiu com um disco de jazz à lá Sinatra. Não há quem não tenha se impressionado com a capacidade do cantor de se reinventar, ainda que este álbum não esteja entre os grandes de sua carreira. E, para quem achava que a partir de 2006 o negócio era ser mais suave, no ano seguinte o agressivo – e adorável – “Phantom Punch” (que traz as maravilhosas “Tragic Mirror” e “The Tape”) fez o cantor, radicado atualmente em Nova Iorque, enfiar mais uma reviravolta no movimentado roteiro de sua carreira.
Ninguém sabia o que esperar de “Heartbeat Radio”, só se tinha em mente que estaria ali mais um disco de Sondre Lerche – alguma surpresa. Após passar pelo folk pop, pelo acid jazz e pelo proto-punk com desenvoltura ímpar, o cantor e compositor colocou no bolso tudo que já tinha visto, ouvido e feito, balançou, jogou pra cima, matou no peito e tirou da cartola mais um trabalho marcante. Agora, pode-se dizer que o pop sinfônico adentra a já extensa gama de estilos que Lerche domina com precisão, mas o disco traz muito mais do que isso. Trata-se de uma seleção bastante abrangente de sons, utilizando todos os tipos de música que ele produziu nesses quase 10 anos de carreira, com baladas certeiras, refrões mágicos e passagens sublimes.
“Heartbeat Radio”, ainda que seja lotado de grandes canções, não consegue superar os dois primeiros disco do artista. Mas chega bem perto quando mostra o quanto pode ser eclético com faixas como a animada “If Only”, ornamentada com percussão e batidas de hip hop entre as entradas de melodias pop perfeitas; a balada minimalista “Pioneer”, um presente construído no violão que a influência dos Beatles deixou para Lerche; “Don’t Look Now”, com um gingado sensacional e a presença de violinos ensandecidos; “Goodnight”, outra balada bem bonita, desta vez mais clássica e arranjadas com cordas de todos os tipos. Cada faixa traz uma particularidade que deixa óbvio o cuidado do compositor com sua obra, desde a introdução, passando por versos, pontes, refrão e encerramento: “Good Luck”, que abre o disco, é um exemplo bastante fiel desse cuidado.
Também fica fácil descobrir em “Heartbeat Radio” um certo desejo de Sondre Lerche: homenagear seus mestres. “Easy To Persuade” tem um pezinho nos anos 80, com aquela pegada que o A-HA tornou clássica. “I Cannot Let You Go” e “Words & Music” tem o cheiro do indefectível charuto de Elvis Costello espalhado por elas. “I Guess It’s Gonna Rain Today” tem o DNA do Beach Boys impresso nas notas, na levada e nas cordas muito bem colocadas desse lindo pop sinfônico. Sabendo quem são os mestres do cara fica até difícil dizer que a gente ainda consegue se impressionar com a qualidade inquestionável de Sondre Lerche. É certo que, com uma formação dessas, ele vai sempre se sair com algo mais bonito e mais bem feito do que a maioria. E olha que, como eu mesmo disse, “Heartbeat Radio” nem é o melhor disco do norueguês. Mas é uma bela peça para quem quer escutar música de qualidade e exercitar a capacidade de se surpreender sempre.
Notinhas
Planeta Terra: finalmente, algo de bom?
Quem lê essa coluna com alguma regularidade sabe que eu não tava nem um pouco animado com o Planeta Terra Festival desse ano. O desânimo de não ter grandes atrações tomava conta de mim. Mas, essa semana, um luz surgiu no fim do túnel. Há fortíssimas especulações de que Kings of Leon e Yeah Yeah Yeahs estejam acertados para o festival. Até o fechamento dessa coluna nada tinha sido divulgado oficialmente, mas o blog Popload, que costuma ter fontes seguras, bancava os dois ao lado das novas últimas confirmações, Sonic Youth e Patrick Wolf. Aí, sim, o Planeta Terra começa a valer a pena. E lembre-se: os ingressos já estão sendo vendidos.
Várias
O incrível projeto Rain Down (radioheadraindown.blogspot.com), onde um rapaz de 22 anos recriou todo o show paulista do Radiohead utilizando vídeos do YouTube, já está disponível pra download. /// O resultado do Mercury Prize desse ano foi surpreendente: a nem um pouco badalada Speech Debelle, rapper britânica, ficou com o trofeuzinho despachando os comentadíssimos Florence + The Machine, Horrors, Kasabian, La Roux, Bat For Lashes, entre outros. /// “IRM” é o nome do disco que une Charlotte Gainsbourg e Beck. Diferente do que se pensa, não é um disco da filha de Serge produzido pelo rapaz: é um álbum em dupla. /// No começo de outubro, disco novo do Editors já vai estar triscando as prateleiras. Fique ligado. /// Você viu os novos iPods? Fiquei feliz com o nano com câmera de vídeo, mas ainda mais feliz com a volta do iPod Classic 160Gb. Vou querer um! /// Quem pinta no Brasil em outubro é o Prodigy. Olá, anos 90. Quanto tempo!
Todo mundo tem que ouvir
O Leaves, desconhecida banda da Islândia de quem não me canso de falar, é possivelmente o grupo mais injustiçado do mundo. Mas há uma nova chance: “We Are Shadows”, o novo disco.
É verdade que a banda não repete a qualidade extra-terrena de “Breathe”, seu indescritível primeiro disco, mas consegue belos resultados com faixas em que elevam o rock a novas plataformas. Ouça agora.
Playlist
Ramona Falls – Melectric
The Fiery Furnaces – Cut the Cake
The XX – VCR
Simian Mobile Disco – Synthesise
The Hoosiers – Killer
Bibio – Fire Ant
Blue Roses – Doubtful Comforts
Hope Sandoval & The Warm Inventions – Satellite
Epic45 – We Were Never Here
The Big Pink – She’s No Sense
Ópio
Mais uma coluna Ópio no Café. Desta vez, sobre a infância. Leia aqui.
Coluna B, dia 05/09
Reinventando-se… aos 20
Para falar sobre a novíssima banda The XX é preciso que se diga como é incrível a capacidade dessa molecada britânica de se reinventar assim, de uma hora pra outra, usando as referências mais improváveis e chegando a um som que não se ouve todos os dias. À primeira vista pode parecer algo normal, talvez você já tenha escutado isso antes, qualquer coisa parecida com uma batida suave, linhas de baixo simples, mas indefectíveis, melodias dissonantes se encontrando e algumas vozes sobrevoando a equação. Ok, eles são tudo isso, mas são muito mais. São dois meninos e duas meninas que vão além. Estão todos naquela idade em que faz parte da diversão ser esquisito e fazer barulho, mas que preferem mesmo escrever letras sobre sexo, amor e perdas, e fazer canções lindas de morrer.
E é justamente a tal velocidade devagar, quase parando, que dá ao XX uma qualidade incrível em suas canções. Não é nada fácil fazer música minimalista, mas que soa completa, lotada de sons, significados e momentos grandiosos. Jamie Smith, Romy Madley Croft, Baria Qureshi e Oliver Sim dão em seu MySpace uma lista curiosa e variada de influências para a música que fazem. A simples leitura de nomes como Aaliyah, Rihanna, Justin Timberlake e Mariah Carey certamente não dão uma dimensão exata de como o R&B está inserido no que fazem – é fácil percebê-lo lá, mas apenas quando lemos os outros nomes que os influenciam, como Pixies, CocoRosie, The Cure e The Kills, é que notamos o quanto essa salada dá certo.
O primeiro álbum do XX acabou de ser lançado pelo selo Young Turks, agora em agosto, e também recebeu essas duas letras como nome: “XX”. Trata-se de um disco com a sensualidade da noite encravada no seu âmago, com batidas preguiçosas esparramadas pelas músicas como lençóis de seda que se deixam envolver pela cama que cobriram na noite anterior. Pode-se dizer que o som possui algo de pretensioso, e é exatamente isso que ele deve ser: a trilha sonora de quem pretende alguma coisa. Não há bateria analógica, apenas programações rodadas em cima de camadas deliciosas de baixo, teclados e guitarras, completadas com as vozes suaves e nem um pouco apressadas de Oliver e Romy. Os quatro, aliás, estudaram na Elliot School, um colégio de artes que fica no sul de Londres e onde integrantes do Burial, Hot Chip e outros grupos proeminentes da Inglaterra também frequentavam aulas.
Da curtinha e quase toda instrumental “Intro”, faixa que dá início à viagem do XX, até “Stars”, canção que a fecha lindamente, tudo é um deleite para os ouvidos. Não estranhe se, ao final deste ano, “XX” aparecer encabeçando listas de melhores do ano. A briga está boa, e os moleques de Londres têm grandes chances de se dar bem. Não é lá tão difícil quando se tem pelo menos seis hits irresistíveis dentro de um disco de 12 canções de tirar o fôlego. O ritmo hipnótico de “Basic Space” parece parte da desconstrução de uma faixa de R&B. Ela começa com batida que lembram até o Miami Bass ou o funk carioca, mas tão reduzidas, tão subliminares ao lado das vozes masculinas e femininas, que quando o lindo refrão entra a gente já está completamente dentro da música.
Outra faixa campeã desde a primeira audição é “Crystalised”. Aqui, é a simplicidade constante dos arranjos e a viagem de dois vocais cantando letras diferentes que fazem com que ela se destaque desse mar de grandes canções que é “XX”. Já na maravilhosa “Islands”, o charme da levada pop a torna possivelmente a faixa mais acessível de um disco que nunca se deixa levar pela sedutora ideia de fazer músicas difíceis, quase intocáveis. A voz de Romy, tão lânguida em “infinity”, soa incrivelmente perfeita sobre a batida arrastada e minimalista da faixa. Quando a voz de Oliver entra na música, forma-se um diálogo apimentado entre a estrutura toda quebrada da faixa e os vocais sóbrios, uma mistura que se sai simplesmente fantástica quando a faixa entra em um crescendo no final.
Tanto a indispensável “VCR” quanto a empolgante “Nigh Time” e a fatal “Shelter” possuem características que mostram uma personalidade indecifrável, mas extremamente marcante. A delicadeza das canções é tanta que mesmo as batidas mais pesadas parecem apenas cuidadosos petelecos, com o detalhe de serem lindas e tão bem postadas que você se pergunta se The XX é mesmo uma banda iniciante, lançando seu primeiro álbum enquanto seus integrantes acabam de completar 20 aninhos de idade. O que acontece com esses jovens britânicos? De onde eles tiram a inspiração para, mesmo tão cedo, terem a capacidade de lançar um álbum tão maduro e acachapante quanto este? Se você souber a resposta, por favor, guarde com você. É melhor que essas perguntas continuem apenas retóricas. Sabe como é, em time que está ganhando não se mexe. E bandas como o XX, atualmente, estão dando de goleada.
Notinhas
Várias variadas
Uma semana de muitas notícias ruins, outras confusas e algumas boas no mundo da cultura pop e da música alternativa. Pra começar, o Noel briga com o Liam mais uma vez e os irmãos Gallagher destroçam o Oasis, uma das bandas mais importantes do século passado. Ainda não se sabe se o grupo acabou de vez, mas está separado. Eu já estou animado pro disco solo do Noel, que pra mim é dois terços da banda. Enquanto isso, a revista Época causava discórdia ao receber com um exagero de mau humor a notícia de que a banda Móveis Coloniais de Acaju inventou uma falsa revolta na história do Brasil pra justificar o nome da banda. Ora… calma lá, pessoal. Se fosse assim, mentirinhas clássicas, como a morte de Paul McCartney ou o que o Ozzy comia nos palcos todos os shows, nunca poderiam ter existido.
Aí vem o Planeta Terra Festival e anuncia mais algumas atrações pra edição deste ano: Metronomy, Maximo Park, o produtor francês Ettiene de Crecy e EX!. Metronomy é legal, mas não empolga. O Maximo Park tem um primeiro disco sensacional, e dois outros meia-bocas. O produtor francês eu não conheço e essa EX!, que é nacional, não se encontra nem no MySpace. Gente, aonde esse Planeta Terra 2009 vai parar? Mas, de última hora, eis que, via blog Popload, surge a possibilidade de dois grandes grupos darem um charme mais irresistível ao festival: Snow Patrol e Sonic Youth. Veremos. Ao final, pelo menos o Thom Yorke, sempre ele, salva um pouco a semana ao anunciar lançamento de single com duas faixas inéditas, “The Hollow Earth” e “FeelingPulledApartbyHorses”. O lançamento acontece no dia 21 deste mês.
Todo mundo tem que ouvir
Sondre Lerche, um dos meus artistas preferidos de todos os tempos, é um norueguês que mora no Brooklyn e completa hoje, 5 de setembro, 27 anos. Como se isso não bastasse, seu quinto disco, “Heartbeat Radio”, já caiu na rede.
Mais uma vez, Lerche ousou fugir de rótulos e pré-concepções para criar um disco de pop sinfônico, criativo e de belas passagens. Certamente não é o melhor álbum do artista, mas vale, e muito, a audição cuidadosa.
Playlist
Simian Mobile Disco – Bad Blood
Venus Volt – In Gold We Trust
Tiny Vipers – Eyes Like Ours
Girls – Big Bad Mean Mother Fucker
The Cave Singers – I Don’t Mind
Jennie Sadler – It’s Gone
Borrowed Beams of Light – You Have a Sun
Julian Plenti – Madrid Song
Leaves – The Painting
The Clean – The Factory Man
Coluna B, 29/08
The Decemberists – We Both
Go Down Together
Vez ou outra me perguntam porque o texto da coluna que coloco aqui é um pouco diferente da que sai no jornal. A resposta pode ser óbvia pra algumas pessoas, mas pra outras é bom que se explique: este é o texto original, o que sai no jornal recebe os cortes e edições do editor do Caderno 2. Beleza?
Os Esquecidos
Um dia, um lançamento deles foi algo realmente grande, que balançava muita gente. Já lotaram arenas, já foram eleitos a salvação do rock, já foram a última gota de criatividade da música alternativa. Mas alguma coisa mudou. Fala-se tão pouco nos últimos discos de Wilco, The Mars Volta e Nouvelle Vague que a sensação é a de que eles nem colocaram na praça nenhum novo trabalho nos últimos meses. Pior: dá a sensação de que essas bandas perderam boa parte de sua sedenta turba de fãs, outrora tão presentes. Teriam eles sido esquecidos?
A Coluna B pensa que não. E, na verdade, tem até um certo cuidado ao dizer isso, porque a gente sabe que não se brinca com fãs dessas bandas – principalmente os do Wilco, tão ciumentos que são. Os três grupos possuem uma base sólida de seguidores, sempre dispostos a defender seus músicos preferidos. Mas a gente precisa dizer a verdade: o grande problema com essas bandas hoje é que nenhuma delas lançou o seu melhor disco em 2009. Não que sejam discos ruins, e realmente não são, mas estão aquém do que já foi produzido em outras épocas.
O Mars Volta, que surgiu como uma dissidência da incensada At The Drive-in, teve seu grande momento logo na estreia. O discaço de 2003, “De-Loused In The Comatorium”, inesquecível, arrebatou completamente quem curte rock alternativo. Hoje, no álbum “Octahedron”, lançado em junho, as estruturas enlouquecidas ainda estão lá. As letras esquisitas, os recursos de percussão e as guitarras arranhadas também – as últimas, agora convivem com o violão. A repetição eterna de arranjos e as músicas com mais de sete minutos também sobreviveram. O fato é que este álbum, apesar de trazer boas baladas como “Since We’ve Been Wrong” e “With Twilight As My Guide”, além de faixas mais rápidas com arranjos inspirados, como “Desperate Graves”, não consegue ir além do que já fez, e bem, nos dois primeiros discos. A sensação é de que algo faltou, aquele gostinho extra. Ainda assim, é preciso que se diga: “Octahedron” consegue ser melhor que os últimos dois discos, quase impossíveis de se ouvir, dessa dupla de malucos.
Projeto encabeçado pelos franceses Marc Collin e Olivier Libaux, o Nouvelle Vague só faz covers. A brincadeira da turma é pegar uma pá de músicas conhecidas, geralmente destaques das cenas punk, pós-punk e new wave, e transformar em algo próximo a uma bossa nova respirando ares dos anos 2000. O projeto começou em 2004, sempre recebendo grandes convidados e críticas positivas. O primeiro disco estourou com covers em lenta rotação de faixas como “Too Drunk To Fuck” e “Love Will Tear Us Apart”; o segundo trazia versões em bossa nova de “Dancing With Myself” e “Bela Lugosi’s Dead”. Já “3″, o terceiro lançamento do Nouvelle Vague, faz versões gostosas de “God Save The Queen”, “The American” e “Road To Nowhere”, dá uma cara mais suave a “Say Hello, Wave Goodbye” do Soft Cell e uma deliciosa roupagem folk a “Our Lips Are Sealed”, do The Go Go’s. Mas decepciona em outras faixas, manchando as características do Nouvelle Vague e tornando “3″ um disco bom, mas algo irregular.
Para o seu sétimo disco de estúdio, o Wilco deu uma aliviada na barra. A começar por uma brincadeira simpática com a primeira faixa do trabalho: ela se chama “Wilco (The Song)”, não por acaso o mesmo nome do álbum, “Wilco (The Album)”, e, obviamente ainda mais não por acaso, da banda. Esse é apenas um exemplo de como os americanos vieram mais leves para este novo lançamento. Talvez seja por isso que “Wilco”, apesar de ser muito bom e da banda ter fervorosos seguidores, não tenha se tornado um assunto recorrente no mundo musical desde seu lançamento, em junho. Essa leveza pode não ter agradado tanto quanto a faceta mais dark da banda, de letras melancólicas sobre perdas e saudades insuportáveis. Mas há belíssimas composições neste disco novo, e que merecem, sim, serem escutadas e lembradas. A exultante combinação de violão e piano em “You Never Know” conquista de primeira, assim como a deliciosa “I’ll Fight”, que gruda sem dó na cabeça de quem a escuta uma vez só. Mas, ao final, fico me perguntando: se alguém realmente se esqueceu de “Wilco”, o disco do Wilco que começa com aquela música, “Wilco”, tá precisando tomar um remédio para memória.
Notinhas
Surpresinha
Primeiro o Arctic Monkeys anunciou um show surpresa no Brixton Academy, em Londres, e os cinco mil fãs tiveram uns 15 minutos para comprar e esgotar tudo. Depois, um dia antes da apresentação, que rolou na última quarta, disseram quem seria a banda de abertura: ninguém menos que o Them Crooked Vultures. Os caras tocaram nove músicas, e colocaram abaixo o local, antes do Acrtic Monkeys terminar de destruir tudo com seu novo show. Segundo o site da revista Rolling Stone, a noite foi histórica. Nem precisava dizer.
A guerra dos festivais
Tudo está mais claro agora. O Festival Maquinaria rola nos dias 7 e 8 de novembro, com a presença já garantida de Faith No More, Jane’s Addiction e Deftones. O Planeta Terra Festival, também no dia 7, já anunciou oficialmente Primal Scream, The Ting Tings, N.A.S.A., Copacabana Club, Móveis Coloniais de Acaju e Macaco Bong, mas juram que ainda faltam mais quatro atrações. Ambos em São Paulo, claro. E no mesmo dia, como você já percebeu. Mas, quer saber? Pra mim, nenhum dos dois pode receber aquele carimbo de “imperdível”. Faith No More certamente é um showzaço, The Ting Tings pode animar a galera, mas não basta. N.A.S.A. deve ser divertido e Jane’s Addiction e Primal Scream são grandes bandas, mas falta alguma coisa. Já o Deftones, pra mim, já passou. E as bandas nacionais, todas ótimas, podem ser vistas facilmente em outras oportunidades. Das duas, uma: ou trazem um par de bandas imperdíveis de verdade para cada um dos festivais (pelo menos pro Terra), ou vamos dar um jeito de unir esses dois eventos em um só. Aí, sim, pode dar samba.
Todo mundo tem que ouvir
Londrinos, todos com menos de 20 anos. Dois meninos, duas meninas, vocais se revezando em letras que mostram, mais ou menos como o som, a beleza que está inserida diretamente na tristeza.
Falo do Xx, banda que lançou agora em agosto seu disco de estreia, “Xx”. Para não falar demais, apenas digo: você precisa ouvir um dos discos mais bonitos deste ano. Corre.
Playlist
Neil Young – Ohio
Sondre Lerche – Goodnight
Taken By Trees – Anna
Radiohead – There There
Sian Alice Group – Longstrakt
Passion Pit – Sleepyhead
Sally Shapiro – Dying in Africa
The Decemberists – We Both Go Down Together
The Dodos – Fools
Pearl Jam – Supersonic
O fim do Oasis?
Enquanto os brasileiros se preocupavam com a origem do nome da banda Móveis Coloniais de Acaju (que diferença faz se inventaram uma historinha pro nome? que saco!), o Noel Gallagher dava a seguinte notícia pelo site do Oasis:
“It’s with some sadness and great relief to tell you that I quit Oasis tonight. People will write and say what they like, but I simply could not go on working with Liam a day longer.
“Apologies to all the people who bought tickets for the shows in Paris, Konstanz and Milan.”
Noel Gallagher
Será mesmo o fim do Oasis? É, porque Oasis sem Noel não existe. Ele é o grande compositor da banda, além de ter a voz melhor que a do Liam – pra mim, um grande frontman de banda de rock, mas ao mesmo tempo um presepeiro de marca maior.
Pelo jeito, os dois irmãos donos da banda se desentenderam minutos antes de subir no palco do Rock in Seine, festival francês bacanudo. Alguns minutos depois, foi anunciado que eles não subiriam mais no palco e que o show estava definitivamente cancelado. Mais alguns poucos minutos e chega via site do Oasis essa declaração do Noel. Que triste.
Agora, esperemos os próximos capítulos dessa novela, transmitida ao vivo via Twitter.
Coluna B, dia 22/08
Encurtando barreiras
A internet e seu poder de fazer as pessoas se sentirem mais perto uma da outra – apesar de, na verdade, manter a distância cada vez maior entre elas – faz com que Alemanha, Indonésia e Noruega pareçam tão próximas daqui quanto Cachoeiro é de Vitória. Em poucos cliques, bandas de lugares com pouca tradição musical estão tocando no seu fone de ouvido, em alguns casos utilizando idiomas que não conhecemos. Nada que a linguagem universal da música, dos tons, das melodias e das batidas, não consiga suplantar com tranquilidade.
Para a nossa sorte, muitas dessas bandas escolhem o inglês, um idioma universal, para expressar seus sentimentos. A gente agradece, mas tem um charme com qualquer coisa de especial escutar as músicas do Mikroboy, grupo alemão de indie rock, que usa detalhes eletrônicos e melodias pop para conquistar os ouvintes. É um pouco complicado achar grandes informações em inglês sobre a banda, que parece não querer se desfazer do alemão de jeito nenhum, mas dá para sacar fácil que “Nennt es, wie Ihr Wollt” é o disco de estreia deste talentoso quarteto de Berlim liderado por Michi Ludes e Anneli Bentler.
Já no MySpace dos caras, antes de qualquer coisa, dá pra ver de onde tiram as boas influências de sua música: The Notwist para as pitadas de eletrônico no rock, Cardigans para as melodias de fácil assimilação, Oasis para a pegada marcante e Broken Social Scene para o lado indie da banda. Dá até vontade de aprender alemão ouvindo o Mikroboy. Enquanto isso não acontece, passo para uma dupla que poderia ser a versão de Sandy e Júnior para a Indonésia – claro, se eles fossem extremamente chatos, algo que certamente não são. Endah N Rhesa cantam em inglês, usam o blues, o folk e o pop acústico como plataformas principais e dão inveja a qualquer outra dupla musical.
Além de tudo, ainda há que se perguntar: quantos artistas da Indonésia você conhece? A nacionalidade pouco usual não deixa de ser um charme para a dupla, que usa apenas violões e baixo em suas músicas, além de uma sensível voz feminina. Nem precisava de mais do que isso. Ouvindo as faixas tão bem acabadas e bonitas de “Nowhere To Go”, primeiro disco do casal de Jacarta que foi gravado em 2005 mas só saiu mesmo para o resto do mundo no ano passado, nota-se que as influências de John Frusciante, Norah Jones e John Mayer, acusadas pelo MySpace deles, é palpável. A balada “Blue Day”, a blueseira feliz “Baby It’s You” ou a pop rasgada “I Don’t Remember”, uma das poucas que se deixa encaixar em uma batida eletrônica suave, são marcantes. Das onze faixas do disco, não há uma em que não se note a qualidade musical da dupla da Indonésia. Repito: da Indonésia.
Já em Oslo, na Noruega, nasceu uma outra dupla, capaz de fazer frente ao Endah N Rhesa. A vocalista também tem a voz de derreter corações, além de ser linda. Mas os arranjos são muito mais cheios, com o clássico guitarra-baixo-bateria-teclado fazendo um som tão pop e tão bem armado que chega a ser difícil imaginar que o casal Eva e Thomas demoraram tanto tempo para surgirem à tona. Provavelmente ainda não foram descobertos porque seu disco de estreia, o ótimo “Let’s Keep This Up Forever”, só vai ser lançado oficialmente no final de setembro – apesar de já ter vazado há meses.
Não me admira que as influências principais do Eva & the Heartmaker envolvam Cardigans (de novo, eles), Beatles, Raconteurs e Radiohead, bandas especialistas toda a vida em melodias inacreditavelmente pegajosas e bonitas – cada um a seu modo, claro. Mas Eva e Thomas também não se fecham em apenas um estilo. Há o rock de guitarras cheias de efeitos em “Possible Escape Possible Mistake”, há baladas fofas como “Mississipi” e “Life Still Goes On” e pop dançante em “Charming Sexy”, “Superhero” e “Please!”. Com o lançamento de “Let’s Keep This Up Forever”, Eva & the Heartmaker estão preparados para dominar o mundo. Seja lá o que isso significa neste mundo encurtado pela internet e seus poderes intermináveis.
Notinhas
Aniversário da Coluna B
Não esqueçam: hoje, a partir das 22h, no Teacher’s Pub (Praia do Canto), vai rolar a festa de aniversário da coluna. Nas carrapetas, Rodo Rock abre a festa. Logo depois, à 0h, eu entro para tocar um bocado do que eu falo por aqui. Depois, DJake Harper, meu companheiro de Lebowskis, ferve a pista para a entrada de André Paste, o prodígio dos mashups. Pra fechar a noite, Rike, aquele que tudo toca. E espero encontrar todos os sorteados com o ingresso VIP – eles já receberam a resposta em seus e-mails.
Shows no Brasil
Vê se pode: os maiores dois festivais do segundo semestre brasileiro, pelo menos até agora, vão acontecer no mesmo dia! É isso mesmo. O Maquinária, que vai trazer o reunido Faith No More, vai acontecer no dia 7 de novembro, mesmo dia em que ocorrerá o Planeta Terra Festival (que não deve mais ter o Yeah Yeah Yeahs, infelizmente). E agora, em qual você vai?
Músicas novas
Além do Radiohead, que lançou oficialmente a faixa “These Are My Twisted Words” essa semana, apesar dela ter vazado há dias, o Bad Lieutenant, dos ex-New Order, e o Weezer colocaram na rede suas novas faixas. Todas elas merecem ser ouvidas com atenção.
Todo mundo tem que ouvir
Já que falamos de bandas fora do eixo Inglaterra-EUA, a espanhola Pájaro Sunrise merece destaque. Afinal, não é toda banda que, em seu segundo lançamento da carreira, já manda um disco duplo fantástico.
“Done/Undone” é embebido em uma beleza campestre, com fraseados folk espalhados por um clima pop de beira de rio, fogueira e amigos reunidos. Aquela leve melancolia que a gente tanto ama. Ouça agora.
Playlist
New Look – Future Times
Ramona Falls – Clover
Nevershoutnever! – Simple Enough
Hope Sandoval & The Warm Inventions – Sets The Blaze
The Cave Singers – VV
XX – Basic Space
Naive New Beaters – Live Good
Wild Beasts – All The King’s Men
Arctic Monkeys – Dangerous Animals
Black Drawing Chalks – Rising Sun In Purple Sky Morning
Festa da Coluna B – 3 anos
Neste sábado, 22, no Teacher’s Pub. Espero todos lá.

Coluna B, 15/08
Cumprindo o que prometeu
Coisa mais do que normal hoje em dia, bandas lançam pequenas amostras do que podem oferecer em disco. São os bons e velhos EPs, já tão falados por aqui. Para dar início a uma carreira concreta, os artistas lançam um pequeno conjunto de músicas, geralmente por volta de três a seis composições, e se jogam. Tempos depois, com as músicas já na boca do povo e as apresentações em festivais mais do que bombadas, eles se enfurnam em um estúdio para sair de lá com uma bolachinha à moda antiga, algo entre dez ou doze faixas com produção de primeira e distribuição profissional.
As opções para esse segundo ato são: confirmar o que deles se esperava a partir de um EP de qualidade, ou afundar a atenção conseguida com aquele primeiro e curto trabalho. A pressão é grande, chega a níveis inimagináveis, e alguns realmente sucumbem na hora de mostrar realmente a que vieram. Mas é bom ver uma banda que apareceu tão bem com algumas poucas músicas confirmar sua capacidade de criar grandes canções, que se destacam, que fogem do comum. Hoje, a Coluna B vai mostrar os dois casos, com alguns exemplos claros e objetivos.
Passion Pit – Manners
Tudo começou quando Michael Angelakos, líder do grupo de Cambridge, nos EUA, fez um punhado de músicas para presentear sua amada no Dia dos Namorados de 2007. As músicas ficaram famosas na cidade e o rapaz adicionou mais duas para lançá-las como o EP “Chunk of Change” no ano seguinte. Do primeiro lançamento para o segundo, só “Sleepyhead” se viu repetida, e merecidamente: trata-se de uma das mais bacanas faixas do pop atual, divertida até os ossos. Mas “Manners” tem muito mais do que isso. O vocal estridente de Angelakos e os arranjos criativos e dançantes do Passion Pit conquistaram muita gente. O álbum é aberto com duas faixas que pegam grandes ideias do pop que tem Michael Jackson como rei, mistura com doses modernosas de Kanye West e reverbera tudo com uma fina camada de indie pop, algumas guitarras aqui e ali e muito, muito teclado ressoando pelo ambiente. “The Reeling” virou hit instantâneo, e aparece nas pistas tanto em sua versão original quanto nos vários remixes que ganhou. “Folds In Your Hands” promete ir pelo mesmo caminho em breve. Como li em algum lugar da internet, quem gosta de uma música do Passion Pit vai gostar de todas as faixas de “Manners”. Não só porque elas são um pouco parecidas entre si, e realmente são, mas porque todas elas são muito boas.
Florence & The Machine – Lungs
Quando surgiu com o sensacional EP “A Lot Of Love and A Lot Of Blood”, em abril deste ano, a bela ruiva Florence Welch me deixou boquiaberto. Canções como as maravilhosas “Dog Days Are Over” e “Kiss With A Fist”, com imenso apelo pop combinado àquela voz de tirar o sono, se tornaram figurinha fácil na minha lista de melhores faixas de 2009. Mas, quando o disco “Lungs” chegou, parecia que, apesar de boas canções, as melhores estavam mesmo na primeira aparição da moça, naquele EP de estreia. A cantora britânica comanda um grupo que tem os básicos guitarra, baixo, bateria e teclado, acompanhados de uma harpista que faz a diferença no pop invocado a rock da banda. Ainda que tenha boas faixas inéditas, como “Howl”, de sotaque oitentista na batida e nos backing vocals do refrão, “Cosmic Love”, cheia de climas etéreos, ou as belas “My Boy Builds Coffins”, “Girl With One Eye” e “Hurricane Drunk”, adivinha quais são as melhores faixas do disco? “Dog Days Are Over”, “Kiss With A Fist” e a excelente “You’ve Got The Love”, cover do The Source, que voltam a aparacer em “Lungs” após fazerem sucesso no EP. O que nos leva, inevitavelmente, a pensar que talvez fosse melhor ter ficado apenas no disquinho curto.
Telekinesis – Telekinesis!
Em maio de 2008, o guitarrista Chris Walla, nome forte do Death Cab For Cutie e na cena alternativa dos EUA como produtor, comentou (como convidado do site Stereogum) sobre este projeto de Michael Lerner, começou seu texto com a seguinte frase: “Não há muito o que se dizer quando se é levado a nocaute”. E olha que o Telekinesis tinha lançado apenas algumas músicas em seu EP de estreia, “Toulouse-Lautrec”. Em 2009, Lerner também mandou pra praça o EP “Coast of California”, mas este era apenas uma entrada para o excelente disco de estreia, “Telekinesis!”. Não me admira que Walla tenha se encantado com esse músico alucinado de Seattle. Lerner segue o caminho pop do DCFC, usando melodias encantadoras entre guitarras rasgadas, vocais doces e, em alguns casos, letras chorosas. “Foreign Room” começa suave, mas logo descanba para um pop rock barulhentinho, enquanto “All of a Sudden” é tão bonitinha e ingênua que se torna deliciosa. Outras faixas bacanas, como “Coast of California” (que já tinha saído no EP homônimo) e a alegre “Look to the East” completam a total necessidade de se ter esse disco por perto. Bravo, Michael Lerner.
Notinhas
Promoção – Aniversário da Coluna B
Dia 22 de agosto, próximo sábado, a Coluna B vai comemorar seu aniversário de 3 anos com mais uma festa imperdível no Teacher’s Pub, na Praia do Canto. Animando a noite, os DJs Bruno Reis (sou eu), DJake Harper (The Lebowskis), o espertíssimo André Paste (o prodígio dos mashups) e outros convidados bacanas. E é claro que vai rolar uma promoçãozinha básica por aqui. Mande seu nome, telefone e RG para o email colunab@gmail.com e concorra a ingressos VIP.
Novidades
O Faith No More oficializou via Twitter sua vinda ao Brasil no dia 7 de novembro. /// Segundo o blog Popload, Jane’s Addiction e Deftones tocam no mesmo festival que o FNM. /// Também via Popload, surge a possibilidade do incrível Yeah Yeah Yeahs estar no Planeta Terra deste ano /// E, quem sabe, uma turnê do Franz Ferdinand no país, depois da MTV anunciar a presença dos caras no VMB? Boto fé.
Vitória bombando
A capixabada anda fervendo: o ótimo Joe.Zee esteve em Sampa e arrebentou por lá, fiquei sabendo; os moleques do Mickey Gang vão de novo pra Inglaterra, onde são assunto de blogs descolados; tenho ouvido o disco solo do Gustavo Macaco, e é bem bom; o T.R.E.P.A.X. e o F.U.E.L. estão reanimando a cena eletrônica local. Brinca com o ES.
Todo mundo tem que ouvir
O Sian Alice Group passou meio batido quando lançaram o primeiro disco da carreira, “59.59″, no ano passado. Mas, por favor, não cometa o mesmo erro duas vezes.
A banda londrina faz um post-rock mais doce que o normal no brilhante “Troubled, Shaken, etc”. A bela voz de Sian Ahern é par perfeito dos arranjos sombrios da banda. Ouça agora.
Playlist
The Rosewood Thieves – When My Plane Lands
The Phantom Band – Burial Sounds
Radiohead – These Are My Twisted Words
Iron & Wine – Sodom, South Georgia
Lucas Santtana – Cira Regina e Nana
The Gossip – Love and Let Love
The Anomalies – Bamboo Beats
Arctic Monkeys – The Fire and the Thud
The Language of Termites – Sleeping Tree
The Yolks – Rambling
Coluna B, dia 8/08
O freio dos Monkeys
Vindos de Sheffield, na Inglaterra, os caras do Arctic Monkeys sempre tiveram uma fama de aceleradinhos. Há mais ou menos três anos, Alex Turner e sua turma tomaram conta do indie rock mundial com um disco que se destacava por aspectos como a qualidade das letras e, principalmente, a velocidade das músicas. Era quase como a invenção de um novo estilo. Turner cantava em ritmo aceleradíssimo canções com letras quilométricas que falavam da realidade dos jovens ingleses. O baterista impressionava pela mobilidade, como se tivesse doze braços de cada lado, e os riffs de guitarra pareciam cada vez mais difíceis de se acompanhar no assovio. “Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not” chegou rápido à internet, e em pouco tempo se tornou um dos discos mais marcantes da música atual.
Depois de um ano, o segundo álbum, “Favorite Worst Nightmare”, serviu para mostrar que o Arctic Monkeys era mais do que um cara correndo desesperadamente contra o tempo, com medo do que ia acontecer agora que sua adolescência estava indo embora. Eles também sabiam dosar os temperos, e músicas como “505″ ou “If You Were There, Beware” eram as mais perfeitas provas desta nova faceta da banda. Mas não se engane: a velocidade estonteante ainda estava lá, e a forma como aquele disco começa, com as pancadas e bumbo de pedal duplo de “Brianstorm”, não me deixa mentir. As letras, ainda que um pouco menos juvenis, continuavam ditando o ritmo das coisas. A macacada seguia nervosa, sangue nos olhos e mãos, pés e bocas enviesadas pela rapidez da música.
Agora não. Com “Humbug”, terceiro disco da carreira, o Arctic Monkeys deu uma pisada violenta no freio, daquelas de afundar o pé no piso do carro. Pegaram o botãozinho da velocidade do grupo e giraram todo para trás, sem dó nem piedade. Aquele moleque com cara de maluco correndo a 100 km/h se transformou em um rapaz bem apessoado, cara de poucos amigos, cabelos desgrenhados e tocando os ombros forrados por um surrado paletó de linho, caminhando com certa desenvoltura pela principal avenida da música alternativa. Agora o Arctic Monkeys resolveu inovar seus arranjos, desenvolver suas composições para que fujam dos padrões e não sejam engolidos pelos seus próprios méritos.
Para conseguir esse resultado, a banda não mediu esforços na produção do disco. A maior parte das faixas que entraram no corte final – sete das dez, pra ser mais exato – foram produzidas por ninguém menos que Josh Homme, o mago do rock do século 21, dono do Queens of the Stone Age e presente com firmeza em projetos bacanudos como o Desert Sessions e o Eagles of Death Metal. As outras três também são de pedigree: James Ford, o homem por trás do Simian Mobile Disco e responsável pela produção do primeiro disco da banda, além do álbum realizado por Alex Turner em seu projeto paralelo e de “Myths Of Near Future”, do Klaxons, entre diversos outros álbuns que foram sucesso de crítica e público. Essa divisão de trabalhos gerou, curiosamente, um disco homogêneo, pesado, cinzento, que caminha pelas dez faixas como em busca de calor. E o encontra, afinal.
Em “My Propeller”, que abre o disco, uma sequência de bateria se faz acompanhada de dedilhados em uma guitarra cheia de efeitos. A voz de Turner soa moderna, derramada pela música com parcimônia, sem pressa, e só nesse primeiro contato já temos certeza absoluta de que o som do Arctic Monkeys não é o mesmo. E é esse mesmo sentimento que nos acompanha por todo o disco. É como um passeio por um lugar completamente desconhecido, onde você encontra pistas aqui e ali de que já estivera ali, mas nunca tem certeza disso. Parece algo que você já viu, mas não, não é, e “Crying Lightning”, que vem a seguir, corrobora esse pensamento. A pegada parece que vai decolar, mas se mantém lúgrube, com um pé no psicodélico, tornando o som dos Monkeys de agora uma versão com mais peso e menos velocidade do que era antes. “Dangerous Animals” quase retoma o ritmo dos discos anteriores, mas acaba se rendendo ao novo estilo dos macacos.
Algumas músicas são de rotação tão lentas que, apenas pelo comecinho, não dá nem pra saber que são da banda. “Secret Door” e “Cornerstone” são baladas suaves, com pitadas de psicodelia à lá Beatles aqui e ali, disfarçadas, mas marcantes – principalmente a segunda faixa citada. O velho Arctic Monkeys até coloca a cara à tapa com “Potion Approaching” e “Pretty Visitors”, as duas músicas mais rápidas do disco. Mas, talvez não por acaso, essas acelerações soem quase deslocadas no meio da freadas espalhadas pelas outras canções. São boas, mas acabam perdendo espaço para este novo Arctic Monkeys que é capaz de conduzir uma faixa como “The Jeweller’s Hands”, com quase seis minutos de duração, uma música anamórfica por natureza, entortada pelos novos conceitos que regem o grupo de Sheffield, empolgado com a maturidade e empolgante na sua densidade. Com a velocidade diminuída ao extremo, o Arctic Monkeys se transforma em uma nova banda. E resta a você decidir se gosta deste novo grupo ou se prefere o antigo.
Notinhas
O grande encontro
E eis que, finalmente, a mundialmente celebrada banda Them Crooked Vultures vai fazer sua estreia nos palcos. Não sabe quem é? Então imagine John Paul Jones, do Led Zeppelin, Josh Homme, do Queens of the Stone Age, e Dave Grohl, do Foo Fighters (e do Nirvana, claro) tocando juntos. É isso. A nova superbanda vai fazer seu primeiro show em uma afterparty do Festival Lolapalloozza, que rola este fim de semana em Chicago. Eles insistem que isso não significa que o grupo vá partir para uma turnê, nem mesmo que um disco deva ser gerado no encontro. Mas os caras já têm site, twitter, MySpace e Facebook com o nome da banda. À toa não deve ser.
Várias novidades
Os suecos do Kings of Convenience anunciaram o lançamento de seu novo disco. Segundo o Muzplay, “Declaration of Dependence”, o terceiro álbum da dupla, vai ser lançado no dia 20 de outubro, mas o MySpace dos caras já traz música nova. /// Jack White vai dar um tempo em suas duzentas e trinta e oito bandas e lançar um single solo. A faixa “Fly Farm Blues” faz parte da trilha do documentário “It Might Get Loud”, de David Guggenheim, do qual White participa. /// O KIllers, que confirmou seu shows em novembro no Brasil, é bem apressadinho: já começa a vender ingressos na semana que vem. /// Os ingressos pros shows da Lily Allen também já podem ser comprados. Se está a fim de ir, corra! /// Devendra Banhart está a ponto de lançar seu novo disco. Segundo o Stereogum, o álbum se chamará “What Will We Be” e sai em outubro. /// O Radiohead lançou, “Harry Patch (In Memory Of)”, faixa feita em homenagem a um combatente inglês da primeira grande guerra. Toda orquestrada, bem boa. A faixa está à venda no site da banda por um euro, mas dá pra achar de graça na net. /// Eu gostei dessa ideia de fazer o Planeta Terra Festival no Playcenter. Tomara que role, mesmo.
Todo mundo tem que ouvir
Outro dia tomei um susto: começou uma propaganda de celular na TV e de quem era a música: da Lenka. E eu que imaginei que ninguém mais conhecia essa australiana! Fiquei feliz por ela estar se expandindo.
Ela merece. Bonita e talentosa, com uma bela voz e um fenomenal sexto sentido pra música pop. Uma Lily Allen menos politicamente incorreta, e mais musical. Ouça o disco “Lenka”, de 2008, e sorria sem parar.
Playlist
Mikroboy – Neue Zeiten
Blue Roses – Coast
Delorean – Moonsoon
Bowerbirds – House of Diamonds
The Antlers – Wake
Pajaro Sunrise – Something Else
Céu – Espaçonave
the Clean – Factory Man
The Big Pink – She’s No Sense
The Animal Beat – Ordinary
Coluna B, 1 de agosto
Mais uma vez, uma coluna que se perde pela internet. Uma pena, mas, fazer o quê? Aí vai, pra quem não viu.
Desistir nunca, render-se jamais
É curioso, mas não é nada raro. De vez em quando, descobrimos algum disco que deixamos passar batido nas primeiras audições. Lá pelas tantas, percebemos que uma pérola estava jogada em um canto qualquer do HD do nosso computador, carcomido pela ignorância e pela pressa do dia-a-dia. Comigo geralmente acontece assim: ouço algumas vezes um disco que acabei de pegar; se gosto, se o som bate de primeira, continuo ouvindo regularmente – se não, coloco a bolachinha em compasso de espera e depois retorno a ela, quando (e se) tiver tempo. É de se compreender que, nessa rotina de baixar diversos discos por semana, alguma coisa boa pode acabar escorrendo disfarçadamente entre os dedos, certo?
Esse “fenômeno” acontece até mesmo com aqueles discos que viraram hype, comentados e resenhados por sites, blogs e revistas especializadas. É o caso de dois álbuns sobre os quais já teci algum comentário rápido aqui na coluna, mas que recentemente roubaram completamente minha atenção: “Two Suns”, do Bat For Lashes, e “Veckatimest”, do Grizzly Bear. Como há de perceber algum leitor mais atento, ambos já se encontram entre as minhas playlists há tempos – e já demonstravam potencial para se tornarem preferidos da casa, é verdade – mas apenas nas últimas semanas, ao me aprofundar um pouco mais neles, notei suas incríveis qualidades com mais cuidado. Sorte a minha.
A moça que responde pelo nome de Bat For Lashes junto com seus músicos, Natasha Khan, já tinha embasbacado o mundo em 2007 com seu disco de estreia, o lindíssimo “Fur and Gold”. Na época, a voz afinada e emblemática da moça fez com que muita gente procurasse saber mais sobre quem fazia um som tão diferente, tão bonito e, ao mesmo tempo, esquisito. A origem da artista é interessante: nascida no Paquistão, moradora de Londres, Khan saiu direto da escola de artes para o palco. Ela não esconde de ninguém sua preferência pelo lado artístico das canções, muito menos a influência que artistas como Radiohead, Björk e PJ Harvey têm em suas composições. O Bat For Lashes só tem uma preocupação: emocionar.
Ainda assim, a diferença entre o primeiro disco da artista e este segundo, “Two Suns”, lançado em abril, foi o que me fez tirar o álbum de seu obscuro canto do meu HD para repetir as audições e constatar, abismado, que estava ali um trabalho primoroso de Khan. Se antes ela primava pela suavidade dos timbres, na leveza e economia da melodia, agora o Bat For Lashes se solta um pouco mais. Faixas como “Daniel”, “Two Planets” e principalmente “Pearl’s Dream” se destacam pelas batidas exóticas e que beiram o dançante, abrindo espaço para um clima dark de melancolia em canções como a belíssima “Glass” e a emocionante “Travelling Woman”, que se desenvolvem em cima de percussão e piano, emoldurando a voz perfeita de Natasha. A cantora brinca de alter ego ao longo do disco (Pearl, sua outra face, é loira), faz dueto com Scott Walker na teatral “The Big Sleep” e ainda coloca o Yeasayer na roda como banda convidada. Mesmo que eu quisesse muito, seria impossível um disco com esses predicados escapar entre a enxurrada de lançamentos semanais. “Two Suns” sobreviveu por seus próprios méritos.
Já meu caso com o novo disco do Grizzly Bear foi bem diferente. Eu demorei para baixar o disco por querer. Lia as resenhas, todas extremamente elogiosas, e pensava, “vou ter que baixar esse disco”, mas não o fazia por saber que seria mais um vício. Amigos perguntavam se eu já tinha ouvido “Veckatimest”, por todo lado algum comentário me deixava ainda mais curioso. Quando finalmente baixei e escutei, me surpreendi: não era bem o que eu esperava. Acabei deixando o álbum meio de lado por umas semanas, mas quando voltei a escutá-lo, agora com mais calma e menos expectativa, fiquei fissurado pela pluralidade do terceiro trabalho dos americanos do Grizzly Bear, um dos mais fantásticos discos do ano.
Imagine um álbum que você escuta uma, duas, três, dez, vinte vezes, e a cada nova audição é pego por detalhes que ainda não havia sacado antes. “Veckatimest” está inserido no panteão dos discos mágicos, que vão muito além de estilos musicais pré-concebidos, formatos fechados ou melodias simplórias. Suas faixas cheias de personalidade conseguem ser melódicas e experimentais sem perder o tato com a música pop. As estruturas inventivas do Grizzly Bear guardam obras dedicadas a surpreender o ouvinte com as aparições surpresa de timbres, instrumentos ou arranjos que fogem completamente do comum. Os refrões ganham coros, as baladas são injetadas com velocidade e barulho, as faixas mais animadas levam quebras acústicas e a eletrônica vez ou outra varre a faixa de fora a fora. “Veckatimest” é conquistador com a emocionante “Foreground”, é apaziguador com “Cheerleader”, é surpreendente com “While You Wait For The Others”, é suingado com “Two Weeks” e vai fazer você pensar duas vezes quando um disco não desce de primeira. Vale a pena dar uma segunda chance.
Notinhas
Shows no Brasil
Uns cancelam, outros confirmam. A parte triste desta notinha vai para os fãs do Depeche Mode, que cancelou suas apresentações no Brasil devido a problemas de agenda. Curioso que, dos shows sulamericanos, só os nossos rodaram. Uma pena. Mas, em compensação, Killers e Lilly Allen confirmaram presença no Brasil. O Killers, antes apenas um boato, já confirmou a vinda em novembro (segundo o site da Rolling Stone, as datas são: São Paulo, dia 21; Rio, dia 24), enquanto a mocinha londrina desbocada pinta por aqui em setembro, no Rio (dia 17) e em São Paulo (dia 16). E, ainda no campo das possibilidades, Green Day, Empire of the Sun e Ting Tings devem aparecer no país para o Planeta Terra Festival, segundo o blog Popload. É esperar pra ver.
França e Suécia no Brasil
Olha que beleza a formação do festival No Ar Coquetel Molotov, segundo o site Rraul: Sebastien Tellier, Zombie Zombie, François Virot, Those Dancing Days, Britta Persson e Loney, Dear. Só gente boa, né?
Humbug no ar
Depois de muita expectativa, o novo disco do Arctic Monkeys, “Humbug”, finalmente vazou na internet essa semana. Com lançamento marcado apenas para o dia 24 de agosto, o terceiro álbum da molecada de Sheffield mostra um som bastante diferente: mais cadenciado, utilizando as guitarras de maneira mais melódica e os vocais de forma mais contida. E, para mostrar esse som para todo mundo, a banda fez uma apresentação gratuita, via web, na quinta-feira. Foi curta, mas deu pra ter uma noção de como as músicas novas ficam ao vivo. “Humbug” ainda vai dar o que falar.
Todo mundo tem que ouvir
O Canadá, esse celeiro fantástico de atrações indie, nos deu há cinco anos mais um motivo para querer morar no alto das Américas. Esse motivo se chama Ohbijou, grupo de dream pop que lança seu segundo disco, “Beacons”.
A doçura das canções do Ohbijou é quase palpável. As vozes femininas dominam o cenário, mas são as orquestrações nos arranjos, misturadas com violões folk e percussões econômicas, que fazem a banda se tornar inesquecível. Ouça agora.
Playlist
Arctic Monkeys – Pretty Visitors
New Look – Future Times
Thom Yorke – The Erasure
Yoñlu – Estrela, Estrela
Pearl Jam – The Fixer
The Dead Weather – Rocking Horse
The Invisible – Tally Of Souls
Regina Spektor – The Calculation
Solana – A Casa dos Ramalhetes
Mayer Hawthorne – Just Ain’t Gonna Work Out


