Archive for Junho 2008
27
“Jim Morrison died in 1971 at the age of 27 in Paris.
27-year-old Janis Joplin died due to a drug overdose in California.
In 1994 Kurt Cobain committed suicide. He was 27 years old.
One year after Woodstock, Jimi Hendrix died age 27 in London.
In 1969, Brian Jones drowned in a swimming pool. He was 27 years old.
Pete Doherty is 27.”
Esse texto é de um spot de rádio que ouvi hoje. Não sabia que todos esses aí tinham morrido aos 27 anos.
Eu também tenho 27.
Ainda bem que eu não sou rockstar. Senão tava na minha hora.
Afundando em “Weird Fishes/Arpeggi”
Não sei bem o motivo, mas as músicas do Radiohead têm mexido muito comigo ultimamente. Todas elas, sem exceção, acabam cedo ou tarde tendo significados diferentes para mim. Dia desses até escrevi sobre “Last Flowers”, uma das músicas mais bonitas dos dois In Rainbows mas que, infelizmente, ficou relegada ao disco bônus. Agora, foi “Weird Fishes/Arpeggi” quem resolveu se mostrar de uma nova maneira para mim. E é exatamente isso que acontece: uma música que ouço sempre de repente se revela de uma outra forma na minha frente.
“Weird Fishes/Arpeggi”
Eu estava deitado, naquele limiar esquisito entre estar dormindo e estar acordado, quando “Weird Fishes/Arpeggi” começou. Sou tão apaixonado por essa música que, no auge da minha semi-consciência, cogitei, sabe-se lá como, acordar para escutar a canção e depois voltar a dormir. O transe que aquele começo de música me deixa é assustador até mesmo para mim, que a ouço quase todo dia. Não acordei, nem me levantei, mas pude experimentar uma viagem muito mais proveitosa: eu vivi “Weird Fishes/Arpeggi” por cinco minutos e dezoito segundos.
Abri os olhos no susto e percebi que não estava na minha cama, nem no meu quarto, muito menos em qualquer lugar conhecido. Meus olhos arderam de leve e a água quase entrou pelo meu nariz de uma só vez. Percebi, ainda tonto, que eu estava no fundo do mar. Enquanto a bateria e as guitarras iniciavam a música, fui me familiarizando com a idéia de estar em um lugar tão absurdo sem ter a menor idéia de como teria ido parar lá. Olhava para os lados e via apenas um azul turvo, forte, parado, nada mais. Um azul que sempre me lembra os seus olhos e o que eles me diziam.
Devagar, começo a entender a situação surreal em que me encontro. Ainda não havia me dado conta de que estava em um lugar sem poder respirar, e agora, ao reparar esse pequeno detalhe, ironicamente o ar começa a me faltar. Thom Yorke já canta quando desço um pouco, flutuando, procurando a areia com os pés, dou um impulso e me jogo água acima, olhando para o alto e vendo nada mais do que o mesmo azul turvo e parado que os lados me cediam. O ar começa a me faltar com mais intensidade. Bato os braços e as pernas de maneira ritmada, sempre olhando para cima, sempre pensando em como vou fazer para vencer aqueles tantos metros que ainda restam para que eu coloque a cabeça para fora.
Quando aquele grito do backing vocal começa a acompanhar o vocal de Yorke e a música ganha mais velocidade, percebo que meu desespero aumenta consideravelmente. Os braços estão mais fracos, mas eu não deixo que minha consciência perceba. As pernas estão exaustas, mas o cérebro não precisa saber disso. O ar, preciso de ar. Quanto mais nado para o alto, mais longe parece estar. Os olhos mal ficam abertos por pura falta de força nas pálpebras. O grito suave do backing vocal, tão perto no meu ouvido, parece estar cada vez mais longe quando a fraqueza me pega de jeito. Acelero o quanto posso, tiro minhas últimas forças Deus sabe de onde. Fecho os olhos. Estou completamente sem ar, nos pulmões há uma pressão desesperadora por oxigênio. Os braços teimam em falhar, as pernas quase se entregam, a consciência parece finalmente perceber o que está acontecendo.
Consigo abrir os olhos novamente e vejo uma luz ainda fraca se aproximando. Não entendo – seria a morte? Estou completamente sufocado, há água entrando pelo nariz, pela boca, pelos ouvidos. Meus braços ganham um último fôlego, as pernas percebem o momento e se dão por completo. A luz aumenta. Nado forte, a luz se aproxima, Yorke canta, meus pulmões estão vazios, o backing vocal grita, agora estou de olhos abertos, a bateria se espalha junto com a guitarra, a velocidade aumenta nos braços e no ritmo da música, “é a minha chance”.
Silêncio.
A minha cabeça finalmente penetra o fino tecido que separa a água do céu. Enquanto o ar entra pelo nariz e pela boca aos borbotões, a música dá o seu repouso, apenas com dedilhados leves e o vocal sofrido. Respiro com imensa dificuldade, não sei aonde estou, não sei como vim parar aqui. Meu corpo todo dói, como se eu tivesse sido espancado por horas a fio. Quando finalmente recupero parte da minha sanidade, olho para os lados e percebo: estou no meio do nada. Em alto-mar, sem nada por perto, só um imenso oceano azul, algumas poucas nuvens brancas de formatos diversos e o céu, testemunha ocular da minha inútil batalha para chegar ali. Sim, toda aquela luta para conseguir respirar foi totalmente sem sentido. Vou morrer de qualquer forma: pode ser de fome, de insolação, comido por um tubarão, por vermes ou peixes esquisitos. Vou morrer rapidamente.
Não tive tempo para pensar. Assim que a bateria determina a volta daquele ritmo marcado, puxo o ar e mergulho de volta. Nado tão desesperado quanto antes, procurando o fundo do mar onde me achei de repente, sem mais nem menos, no momento em que abri os olhos. No caminho percebo que nunca deveria ter saído dali. Ir até a superfície era completamente desnecessário. Nada iria acontecer. A minha fuga, na realidade, era lá embaixo, era atingir o fundo, fugir daqueles olhos azuis que sempre me diziam alguma coisa, escapar de tudo – eu só não tinha me dado conta disso ainda. Retorno como um verdadeiro peixe, nadando com velocidade, ao sabor das batidas da bateria e da levada deslizante da guitarra. Ao meu redor tudo vai escurecendo, ficando turvo novamente, naquele azul que deveria ser o meu companheiro e eu reneguei por alguns momentos.
Volto então ao lugar de onde nunca deveria ter saído. Nem faz mais diferença se vou respirar ou não, se a água está infestando meus pulmões. Encosto novamente os pés na areia, cheguei ao fundo, “Weird Fishes/Arpeggi” segue como se nunca fosse acabar, e me dou conta de que estou de frente para o meu próprio fim. Chego a me perguntar quanto ainda demorará mas, assim como a música, minha vida acaba de repente. A guitarra, abrupta, pára. A bateria tambem, deixando no ar o rastro suave dos pratos. Meus olhos finalmente se fecham.
Silêncio.
Coluna nova
Para ler, é só clicar.
Ah, São Paulo…
Coluna no ar
Texto novinho em folha na Ópio no Café. Sobre despedidas, saudades, distâncias e chão de rodoviária. Lê lá.
Last Flowers
Não é só a melodia, não é só a letra, não é também apenas a interpretação emocionante, é tudo. Uma mistura mágica e quase inacreditável de todos os elementos que compõem uma música e que dão a ela corpo, rosto, olhos embargados, cabelos longos e lisos presos em um rabo de cavalo alto, um cheiro doce que sempre parece familiar, um abraço que te envolve como em um casulo, de onde você sairá completamente renovado, à espera das novas viradas que o destino vai lhe impor. É difícil entender que é tudo isso e, ao mesmo tempo, é apenas uma música, uma sequência de notas, acordes, melodias, sons, vocais, pausas, continuações, silêncios, outras notas e um fim arrasador.
A marca maior da canção que pode mudar a sua vida é a honestidade. Os pequenos e necessários espaços entre uma frase e outra, entre um acorde e outro, entre você e a pessoa que te ama; o vocal que desafina com orgulho, desprendendo-se da inabalável obrigação de soar perfeito, mecânico; a economia dos instrumentos, a forma como eles só aparecem quando solicitados, e só são solicitados quando se mostram extremamente indispensáveis. É a mesma honestidade de não virar para trás quando o impacto de um sentimento surge de repente, é a honestidade de ser quem você quiser a hora que quiser, independente das dúvidas, e de se aceitar quando a mudança surte efeito.
É apenas uma música mas corta o coração, deflora seu peito já nos primeiros segundos, te enche e tira seu ar, move seus braços para os lados, pede ajuda, não atende, continua deixando o ar sair e aí as lágrimas começam a desencantar. No pequeno rio que se forma entre seus olhos e a sua boca há todas as vezes que as pontas dos dedos pressionam o piano, que a palheta se choca com as cordãos do violão, que o encontro entre o silêncio e o som transformam essa canção simples e de certa forma renegada em uma jóia que ainda não foi lapidada, em uma palavra que ainda não foi escrita, em uma vida que foi tirada sem uma segunda chance.
Está aqui toda a chance de escapar de um mundo preto-e-branco, de respirar a felicidade de momentos esquecidos sem a ajuda de aparelhos, toda oportunidade de se dizer completo, como uma canção que tem começo, meio, fim, cumpre seu destino, morre, mas ressurge para a vida no exato momento em que você a coloca para tocar novamente. Está aqui a chance de falar o que não se consegue dizer, de encontrar fá com sol menor e, finalmente, descansar ao lado de um furacão que poderia te deixar completamente surdo, com ouvidos para somente aquela sequência de notas, acordes, melodias, sons, vocais, pausas, continuações, silêncios, outras notas e um fim arrasador.
É demais, é muito brilhante, é muito poderosa.
Ópio ou Café?
A minha coluna na Revista Paradoxo já está no ar. Muita gente vai se lembrar da infância, da adolescência e, certamente alguns, até mesmo da vida adulta, hehe. Lê lá.
O novo disco do Coldplay
No finalzinho de abril eu comentei aqui o novo single do Coldplay, “Violet Hill”. Disse lá que tinha gostado, ainda que meio em dúvida. Mas agora… e o disco? Alguém me diz, é bom ou ruim? É genial ou é ridículo? É inovador ou é medroso? Porque, vou ser sincero, ainda não sei. Escutei o “Viva La Vida or Death And All His Friends” pelo MySpace do Coldplay umas cinco ou seis vezes (ainda não baixei) e, a cada vez que ouço, me parece uma coisa. Na primeira audição odiei; na segunda, gostei das três últimas músicas; na terceira achei tudo chato; na quarta gostei das três primeiras mas não gostei mais da penúltima; na quinta gostei de quase tudo… e assim foi, vai ser, está sendo. já diria o Cabeção. E eu ainda não sei se o disco é bom ou não. Alguém tem alguma opinião formada?
A voz brasileira do Portishead
A repórter da Trip, Kátia Lessa, achou o cara que faz aquela introdução na música “Silence”. a primeira do novo disco do Portishead. A moça tem um blog e colocou lá uma entrevista com o brasileiro Cláudio Campos, 34 anos, professor de capoeira e morador da cidade de Bristol, na Inglaterra, desde 2003. Entre outras coisas, o cara falou que não conhecia a banda antes de gravar o trecho e que ganhou 300 libras pra falar em português por vinte minutos. Moleza, né.
Quer ver a entrevista? Vai lá no blog da Kátia.
SP Moon
Bem legal essa banda Stop Play Moon, de São Paulo.
Synth-pop meio misturado, com melodias bacanas, letras legais e, melhor de tudo, dançante sem ser idiota.
Destaque pra “Take It All” e “Huhu”, mas todas são boas.
Ouvaê o MySpace deles, vale a pena.
Um paradoxo
Quer dizer, uma coluna na Paradoxo. Após duas semanas de férias forçadas – sem um computador decente em mãos, pra ser mais exato – a coluna Ópio no Café está de volta.
Não sei se já comentei como coloquei esse nome na coluna. Nem sei se alguém tem curiosidade de saber porquê, mas falo assim mesmo. Eu estava à procura de um nome, fiz uma lista enome, mas não gostava mesmo de nenhum. Pedi ajuda ao Mark, a cabeça por trás da revista, e mesmo assim não chegamos a nenhum consenso.
Até que, uma certa hora, resolvi apelar. Pensei, “vou abrir um livro em uma página qualquer e pegar a primeira frase para fazer dela o nome do espaço”. Catei no quarto o meu velho exemplar (e um dos meus livros predileto) de “Cem Anos de Solidão” e abri em uma parte onde a primeira frase era “uma dose de ópio no café”. Fiquei maravilhado, aquilo era exatamente o que eu queria, só não sabia disso ainda.
Infelizmente, por conta do tamanho, tive que reduzir para “Ópio no Café”. Mas mesmo assim ficou um nome diferente, com algum significado oculto, e bastante sonoro. Agora vai lá ler a coluna que tem um texto inédito. Se quiser fazer algum comentarário, saiba que ele será bem-vindo. =)
O capixaba vai ao cinema
Vi um dado muito interessante, no interessantíssimo blog do Ricardo Calil, sobre a venda de ingressos de cinema nas cidades brasileiras. Números da Filme B, empresa especializada em dados do mercado cinematográfico nacional, colocam Vitória como a capital que mais vende ingressos por ano – proporcionalmente, claro. São quase dois ingressos por pessoa em um ano, mais exatamente 1,99, hehe.
O mais interessante é ver como um público estatisticamente decente (ainda longe de ser o ideal) fica frequentemente sem muitos dos lançamentos nacionais. Se esses dados não são um sinal de que filmes como “Na Natureza Selvagem” e “Control” seriam bem recebidos aqui, não sei o que será – apesar de eu ter muita noção de que o público médio de Vitória vai ao cinema como desculpa pra beijar na boca no escuro e comer pipoca.
Também é curioso nesses dados da Filme B que metrópoles como Rio (#14) e São Paulo (#27) ficaram muito mal colocadas. Na verdade, os destaques ficaram mesmo com as cidades do interior de SP, seguidas de poucas capitais. Veja um pedaço da lista:
Campinas é a campeã: 2,31 ingressos comprados por habitante ao ano. Depois vem Santos (2,23), Niterói (2,15), Vitória (1,99), Florianópolis (1,98), Barueri (1,93), Porto Alegre (1,69), Ribeirão Preto (1,67), Taboão da Serra (1,60) e Curitiba (1,57).


