Coluna B, dia 31/10
Coluna B, dia 24/10
Ópio novo
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Coluna B, dia 17/10
Em busca de oxigênio
A imagem que me vem à cabeça é a de uma pessoa no fundo do mar, no meio de um longo mergulho. Quando percebe que o ar está acabando, ela dá um forte impulso para cima. Os braços se debatem, o ar preso vai se soltando devagar, as pernas se movem com graciosidade, sem deixar transparecer o desespero de chegar logo à tona. Quando a cabeça encontra a fina película que cobre o imenso mar, a pessoa ganha a superfície e se coloca imediatamente a respirar o límpido ar e retomar suas capacidades. A esse ato de respirar um ar renovador, e a esse ar que amplia visões, recobra ideias e reestrutura pensamentos, chamo de carreira solo. Hoje, a Coluna B vai falar sobre três artistas que emergiram de suas competentes e atribuladas carreiras musicais com suas bandas e inspiraram um oxigênio diferente: Taken By Trees, Julian Plenti e Hope Sandoval & The Warm Inventions.
Taken By Trees – East Of Eden
Entre 1995 e 2006, Victoria Bergsman ficou conhecida como a principal componente do grupo pop The Concretes, um sucesso absoluto em sua terra natal, a Suécia, mas infelizmente pouco conhecida fora de lá. Quando começou a ficar grande demais para caber em uma banda com tantos integrantes, Bergsman resolveu seguir uma carreira diferente. Primeiro passo: arrumar um codinome. Taken By Trees foi o escolhido, e sob ele lançou “Open Field” (2007) e este delicioso “East Of Eden” (ah, claro, um adendo: entre um disco e outro, a moça esperta colocou sua voz a serviço dos conterrâneos Peter, Bjorn and John na incrível “Young Folks”, música de maior sucesso do trio – sim, aquela do assovio). Livre para escolher que caminhos percorrer, Victoria foi parar no Paquistão para gravar seu disco, assistida de perto pelo produtor Dan Lissvik. A mudança de ares é bastante perceptível não apenas na capa do disco, mas desde a abertura com o lindo dream pop “To Lose Someone”, na curtinha “Tidens Gang”, na misteriosa “Day By Day”, na suave “Watch the Waves” e principalmente em “Wapas Karna”, todas com participação de músicos locais. E, por falar em participações, Bergsman capricha ao trazer para perto de si, de duas diferentes formas, a absurda banda americana Animal Collective. Primeiro, ela convida Panda Bear para fazer backing vocal (e influenciar por completo) em “Anna”, uma das mais fantásticas do disco. Depois, toma a liberdade de fazer uma sensível versão de “My Girls”, presente no sensacional “Merriweather Post Pavillion” – aqui em “East Of Eden”, ela ganha o nome de “My Boys” e já garante a Victoria Bergsman o título de cover do ano. Mas fica claro que essa sueca tem fôlego pra muito mais. Fôlego renovado.
Julian Plenti – Julian Plenti is… Skyscraper
Se você começou a ler esse texto sem ter a menor ideia de quem diabos é Julian Plenti e porque ele está nesta humilde lista de artistas arriscando trabalhos solo, me desculpe. Eu deveria ter avisado antes que se trata de ninguém menos que Paul Banks, vocalista de uma das mais bem sucedidas bandas desta década: o Interpol. Mas pior seria se você já chegasse ouvindo o material de “Julian Plenti is… Skyscraper”. Certamente, causaria certa confusão ouvir a voz tão característica de Banks, desta vez produzindo um som menos sombrio e pesado, salpicado com toques de indie pop aqui e ali. Quer dizer, nem tanto. Há faixas que não deixam Banks (ou Plenti?) mentir – lembram um bocado o que o Interpol já fez. Mas é mesmo uma certa instrospecção que se coloca suavemente sobre o disco como um todo, mostrando o artista de forma mais completa, despindo-se das expectativas pré-concebidas para criar um so verdadeiramente criativo. Desde a abertura com “Only If You Run” e “Fun That We Have” já notamos que, apesar da guitarra que range na segunda faixa, há novidades na forma de arranjar as canções de Plenti. Ao passarmos por “Games For Days”, pesada e climática, vemos a pegada dark do Interpol dar um alô, mas nada que sobreviva à esquisitice de “Madrid Song”, ao folk de “On the Esplanade” ou ao clima de romance de “Girl on the Sporting News”. Plenti (ou Banks?) mostrou com “Julian Plenti is… Skyscraper” que andou nadando em outros mares. Fez bem ao rapaz.
Hope Sandoval & The Warm Inventions – Through the Devil Softly
A cara de menina, o jeitinho meigo e a voz que sussurra sensualidade entre cada palavra podem deixar você completamente atordoado, é melhor avisar. Foi assim na década de 90, quando a banda Mazzy Star, capitaneada por Hope Sandoval, era um dos destaques da cena alternativa debulhando o dream pop com uma graça estonteante. A banda, a bem da verdade, nunca acabou, mas não lança material nenhum desde 1996. Sandoval ainda fez alguns “bicos” aqui e ali, cantando com Death in Vegas, Jesus and Maty Chain, Chemical Brothers, Air e Massive Attack, antes de se juntar ao ex-My Bloody Valentine Colm Ó Ciosóg e formar o Hope Sandoval & The Warm Inventions. Em 2001, eles lançaram “Bavarian Fruit Bread”, e agora em 2009 estão de volta com o belo “Through the Devil Softly”, um disco sofisticado, chafurdado em uma melancolia gloriosa e produzido com um cuidado ímpar pelos próprios componentes. Baseado totalmente no folk, com arranjos delicados e uma falta de pressa tremenda, o segundo disco dessa dupla surpreende pela suavidade. A bateria tocada com vassourinha, toques de piano e xilofone, passagens conquistadoras de gaita e a espetacular sensualidade da voz de Sandoval são os trunfos deste trabalho, com destaque para as belíssimas “Wild Roses”, “Trouble”, “Blanchard” e “Lady Jessica and Sam”. Hope Sandoval, essa pequena notável, provou que não é apenas uma simples gota nesse caudaloso mar da música alternativa: é uma onda a ser admirada.
Notinhas
Indie Rock Festival zicado
O Indie Rock Festival, que ano passado se dissolveu semanas antes de acontecer de verdade, tentou dar a volta por cima esse ano, mas já se deu mal. Anunciaram semana passada uma edição com Gogol Bordello, Cake, Mombojó e Holger para os dias 13 (Rio) e 16 (São Paulo) de novembro. Beleza, apesar dos pesares. Mas agora já tiveram que cancelar o Cake e o Mombojó. Parece que o Super Furry Animals vêm pro lugar dos americanos, só não arrumaram ainda substitutos pros brasileiros. Mas é impressionante. Ou os organizadores são deveras incompetentes, ou tem uma cabeça de burro enterrada embaixo do escritório deles. Tudo dá errado pro Indie Rock Festival.
Vários
E eis que os cabelos queimados de Michael Jackson, alguns fios que sobraram do acidente do cantor em 2984, vão a leilão. Topa rachar e comprar um tufo? /// Charlotte Gainsbourg liberou pra download a primeira faixa de seu novo disco, “IRM”, produzido por Beck, que tem o mesmo nome do álbum. /// O Elbow vai relançar seu primeiro disco, “Asleep in the Back”, com novas faixas, raridades e gravações ao vivo para a BBC. Bela pedida pros fãs da banda. /// O LCD Soundsystem anunciou o lançamento, meio que de surpresa, do primeiro single do futuro terceiro disco. “Bye Bye Bayou” sai em 24 de novembro, mas já tá facinho na internet. /// Agora, uma notícia triste: após 25 anos o grupo norueguês pop A-ha se separou. E, pleo jeito, deixou várias viúvas por aí.
Todo mundo tem que ouvir
Quando quatro grandes músicos se juntam para fazer um álbum, espera-se que esse trabalho seja grandioso. No caso do supergrupo Monsters of Folk, ele realmente é.
O disco homônimo traz de M. Ward do She & Him, Jim James do My Morning Jacket e Conor Oberst e Mike Mogis do Bright Eyes em grande forma, com faixas que mostram não apenas folk, mas também pop e country. Obrigatório.
Playlist
Uninhabitable Mansions – Big Kick
The Raveonettes – Suicide
A Perfect Circle – Orestes (acoustic version)
Evol – One Against All
Thom Yorke – Hearing Damage
Bon Iver & St. Vincent – Roslyn
Espers – Another Moon Song
Dirty Projectors – Stillness is the Move
Julian Casablancas – 11th Dimension
Sondre Lerche – Let My Love Open the Door
Coluna B, dia 10/10
Os 10 discos da minha vida
Imagine um acontecimento sem precedentes. A bomba atômica explodiu, o armaggedon finalmente chegou, ou você estava no avião que caiu lá na ilha de “Lost”. Não importa, a questão é que, por algum motivo, você vai ter que escutar os mesmos dez discos pro resto da sua vida. Só dez.
Esse foi o desafio lançado pela jornalista americana Whitney Matheson, do blog Pop Candy, do jornal USA Today. Fui na onda dela e comecei a pensar na minha própria lista. Fiz um post no meu blog sobre isso e resolvi trazer aqui pra Coluna B o resultado dessa dificílima escolha. Leia abaixo e fique à vontade para enviar pra gente os 10 discos que você ouviria pelo resto da vida.
Uma observação: esta lista não está em ordem de importância ou preferência.
The Beatles – 1 (2000)

Essa reunião dos vinte e sete grandes sucessos comerciais dos Beatles foi a grande responsável por eu ter me embrenhado mais profundamente no mundo dos Fab Four. E, com canções tão clássicas, é impossível cansar cheio deste disco, mesmo que tenha que ouvi-lo pro resto da vida.
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Pearl Jam – Vs (1993)
Meu lado grunge aflora por completo quando ouço as grandes canções deste que é o segundo disco da banda de Seattle. Nunca mais poder ouvir “Dissident”, “Animal”, “Rearview Mirror” e “Indifference” seria uma tortura letal.
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Leaves – Breathe (2002)
Está fácil nas cabeças da minha lista de melhor disco da década. Coldplay, Travis, Keane e outros similares que me perdoem, mas o dia em que um deles fizer qualquer coisa tão potente como a faixa “Epitaph”, a gente volta a conversar. Um clássico.
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Alice in Chains – MTV Unplugged (1996)
O melhor de todos os acústicos já feitos pela MTV gringa, e ainda carrega uma curiosidade particular: foi o último CD que eu comprei, lá pra 2004 ou 2005, numa banquinha a 12 reais. Veja bem, eu comprar um CD? Tem que valer muito.
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The Phantom Band – Checkmate Savage (2009)
Tentei não me deixar levar pelo momento nesta lista, mas este disco é um vício tão impressionante que não consigo passar um dia sem ouvir pelo menos uma música de “Checkmate Savage”. E quero ouvi-lo pra sempre.
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Guns N’ Roses – Use Your Illusion II (1991)
Algumas coisas são mesmo eternas. Por mais que o tempo tenha cuidado de mudar (ou talvez apurar) meu gosto musical, faixas como “Civil War”, “Get in the Ring”, “Locomotive” e principalmente a linda “Stranged” vão ficar marcadas pra sempre.
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The Decemberists – Picaresque (2005)
De uma das bandas mais regulares que conheço – todos os são excelentes – foi difícil retirar apenas um disco pra colocar na mala. Mas o fato é que não há maneira de passar mais que alguns poucos dias sem ouvir “We Both Go Down Together” e “The Engine Driver”.
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Los Hermanos – Ventura (2003)
Este é possivelmente o melhor disco de rock já feito no Brasil. Rock? Nem sei. Tem samba, tem pop, tem de tudo e mais um pouco, com Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante em seus momentos de auge criativo. Um álbum inesquecível.
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Iron & Wine – Our Endless Numbered Days (2004)
Pra mim, um dos grandes discos de folk da história moderna do estilo. Aqui, Sam Beam é talento em estado puro. Voz, violão e muito pouco mais do que isso formam canções clássicas como a mágica “Naked As We Came”.
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Radiohead – Ok Computer (1997)
Pensei muito sobre qual disco do Radiohead colocar aqui. Gostaria de levar toda a discografia, claro. Mas esse clássico absoluto tem “No Surprises”, “Exit Music (For a Film)” e a paranormal “Paranoid Android”, que não dá pra deixar de ouvir nunca.
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Ficam na reserva para possíveis aberturas de precedentes “Norah Jones – Feels Like Home”, “Chico Buarque – Perfil”, “Death Cab For Cutie – Transatlanticism”, “Lestics – Les Tics”, “Agnes Kain – Keep Walking Or I’ll Kill You”, “Sondre Lerche – Two Way Monologue”, “Coldplay – Parachutes” e “Regina Spektor – Begin to Hope”. Pode?
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Notinhas
A década da música
Mais uma daquelas listas intermináveis e divertidas foi completada na semana passada. Desta vez, foi o site Pitchfork que resolveu listar os 200 melhores discos da década. É claro que, sendo a seleção de um dos sites mais alternativos da internet, há polêmicas que não acabam mais. Mas o resultado final foi bem satisfatório. Discos preciosos de Interpol, Strokes, LCD Soundsystem e Sufjan Stevens ficaram muito bem colocados, assim como Animal Collective, Spoon e The Knife. Mas os grandes vencedores da década são Daft Punk, com “Discovery” (2001), Arcade Fire, com “Funeral” (2004) e o Radiohead, com “Kid A” (2000), os três primeiros colocados, nesta ordem. Aliás, pode-se dizer que a banda de Thom Yorke, que anunciou a previsão de um novo álbum a ser gravado no fim deste ano, é mesmo a grande banda dos anos 2000: além da primeira colocação, ainda abocanhou a 34ª posição com “Amnesiac” (2001) e a 21ª com “In Rainbows” (2007).
Novidades
O Vampire Weekend lançou para download gratuito a primeira música de “Contra”, seu novo disco, que chega só em janeiro. A faixa “Horchata”, ao mesmo tempo esquisitinha e gostosa, tá lá no site da banda. Vai que dá. /// Segundo a Popload, a ótima banda americana Walkmen toca no Brasil em dezembro. Será que eles vêm pro mesmo festival (Goiania e SP Noise) que o Dirty Projectors? Se for, será imperdível. /// O Arctic Monkeys vai lançar mais um single, “Cornerstone”. Mas a boa notícia mesmo é que o disquinho (virtual e em vinis de 10 e 7 polegadas) vai vir com nada menos que três faixas inéditas: “Fright Lined Dining Room”, Sketchead” e “Catapult”, todas sobras de estúdio do álbum “Hambug”. /// Agora é confirmado: o Oasis acabou mesmo. Palavras de Liam Gallagher para o jornal britânico The Times. Triste.
Todo mundo tem que ouvir
Na semana que vem, “Where the Wild Things Are”, filme de Spike Jonze baseado no clássico de Maurice Sendak, estreia nos EUA. E a parte musical ficou por conta da talentosa Karen O, do Yeah Yeah Yeahs.
Sob o nome de Karen O and the Kids, a trilha já é figurinha fácil na internet e deixa água na boca para ver o filme. Vale a pena escutar.
Playlist
Girls – Hellhole Ratrace
Chris Garneau – Les Lucioles en re Mineur
Editors – You Don’t Know Love
Dirty Projectors – Stillness Is the Move
Frank Turner – The Quiet One
Devendra Banhart – Goin Back
Monsters of Folk – Goodway
The Xx – Shelter
Alice in Chains – Your Decision
Pearl Jam – Just Breathe
Ópio de volta
Após uma semana em branco, postei agora o texto “Primeira de muitas”, um relato quase que completamente real sobre a minha primeira desilusão amorosa. Aos 6 anos. Um trechinho:
“(…) A molecada que ocupava as casas de veraneio naquele janeiro de poucos ventos passava as manhãs na praia e as tardes na rua São Paulo, indo do pique-esconde às peladas no chão de pedras pontudas, do pique-pega aos jogos de vôlei com rede pendurada entre os postes, do elástico ao “frênis” – um jogo criado por nós que misturava algumas regras do tênis e do frescobol. Suar era uma constante para aqueles garotos. Mas derreter-se por uma garota ainda era de certa forma novidade (…)”
Para ler o texto todo, já sabe: clica aqui.
Coluna B, dia 03/10
Com atraso, mas honesta. =)
Anos 90 feellings: Alice In Chains
No final dos anos 80, alguém precisava salvar o rock da mesmice. Há tempos a coisa andava meio modorrenta, nada estava saindo muito bom, a imensa maioria das bandas eram nada mais que um pastiche do que um dia foram. No meio do nada, na chuvosa cidade de Seattle, nos EUA, uma cena começou a dar sinal de que alguma coisa poderia mudar. O bafafá era em torno de uma série de bandas independentes locais que usavam as guitarras em volume estridente e uma certa atitude punk retraída para falar das frustrações do dia-a-dia, de amores que nunca aconteceram e de como o futuro parecia pouco animador. A esse movimento, deu-se o nome de Grunge.
Há pessoas que veem o grunge como um estilo musical, mas sou contra essa visão. Para mim, o grunge é mesmo um movimento que abarcava bandas que tinham lá suas coisas em comum, mas que, no final de tudo, eram diferentes entre si. Se por um lado havia a turma que se atraía mais pelo punk, com um som sujo e gritado (Mudhoney, Nirvana e L7), por outro estavam os que puxavam influências do heavy metal e do hard rock, com melodias doces feitas por guitarras pesadas e vocal gritado (Alice In Chains, Soundgarden, Mad Season, Temple of the Dog), e na outra ponta as bandas que se resguardavam no rock americano e inglês setentista, tendo Who, Neil Young e Rolling Stones como deuses-mor (Pearl Jam, Screaming Trees, Stone Temple Pilots). Em comum, as bandas carregavam na depressão das mensagens e no uso de drogas, e guardavam profundo apreço pela formação clássica de guitarras, baixo, bateria e vocal.
O Alice In Chains se destacou como uma das principais bandas do período. Talvez, na medição de popularidade, fique atrás apenas de Nirvana, a grande responsável pelo estouro do grunge, e Pearl Jam, que até hoje se mantém na ativa e com a moral de ser um dos maiores grupos de rock de todos os tempos. Com a presença de uma fantástica dupla de vocalistas, Layne Staley e Jerry Cantrell, além de um conjunto de instrumentistas afiados e com um senso de melodia e peso fora do comum, o Alice In Chains começou sua epopéia em 1987 e havia lançado apenas três álbuns antes da morte de Staley, vocalista e principal letrista da banda, em 2002, de overdose. A perda foi grande, mas mesmo antes, devido ao seu problema com drogas, a banda já se encontrava num beco sem saída, sem gravar há anos e aparentemente relegada ao ostracismo. Mas 2009 vai ficar marcado como o ano do ressurgimento do grupo, e com um disco que surpreendeu muita gente.
“Black Gives Way To Blue” apresenta William DuVall, o novo vocalista a fazer par com Cantrell. DuVall já toca com a banda desde 2007, e é bom que se diga: ele não quer se parecer com o Staley, e nem tenta imitá-lo. O estilo próprio do cantor, que também faz parte da obscura banda Comes With The Fall, fez o Alice In Chains crescer, deu fôlego ao grupo. O resultado é um disco pesado como nunca se viu, ainda apresentando um universo dark que resvala na morbidez vez ou outra, e mostra uma banda totalmente em forma. Coeso e cheio de grandes canções, “Black Gives Way To Blue” só cresce com as seguidas audições. Destacam-se muita guitarra estourando na cabeça, estruturas alongadas se arrastando pelas lindas melodias que são a cara de Jerry Cantrell, e as vozes cortantes dos vocalistas, que tão bem casam com a força enegrecida dos arranjos da banda.
É claro que não é só isso – afinal, estamos falando do Alice In Chains, banda que se sobressaiu no grunge também graças às maravilhosas baladas e aos sets acústicos de arrancar lágrimas. Até Elton John sabe disso, e talvez seja esse o motivo dele ter aceitado tocar piano e colocar um pouco de backing vocal na linda faixa-título, que fecha o disco homenageando Layne Staley e nos deixando completamente arrepiados. Já o estilo desplugado da banda é muito bem retratado na linda “Your Decision”, onde Cantrell discorre sobre a sua decisão de fazer o que quiser com a sua vida. Tanto no estilo quanto nas letras, é palpável a influência que a morte do antigo vocalista ainda representa para todos. “When The Sun Rose Again”, com percussões esquisitas e um climão de galera em volta de uma fogueira contando casos de terror, também se destaca pela tranquilidade.
Voltando ao som mais rasgado, “Black Gives Way To Blue” tem um punhado de canções que são capazes de emocionar os fãs mais antigos da banda. “Check My Brain” é hit total, grudenta, pesada e tão rápida quanto o Alice In Chains pode ser, em sua essência. Clássica. Ao lado dela, “A Looking In View”, de mais de 7 minutos, tem as guitarras de um Black Sabbath e a crueza do Soundgarden, mas é um autêntico produto AIC, assim como a densa e arrastada “Acid Bubble” e a esperta “Lesson Learned”, que trazem à vida os “yeah!” tão famosos de Staley e Cantrell e um belo jogo de vozes. Se “Last of My Kind” reverbera uma dinâmica mais próxima ao heavy metal, “All Secrets Known”, que abre o disco, não deixa de ser um ótimo exemplo de como este renovado Alice In Chains não foge às mudanças, ainda que permaneça fiel às raízes. O mundo muda. Do começo dos anos 90 pra cá, muita coisa aconteceu, a música se transformou. Mas há algo que sempre será inegável: o que é bom de verdade, sobrevive às piores tormentas. O Alice In Chains sobreviveu, e “Black Gives Way To Blue” é a prova de que valeu a pena esperar.
Notinhas
“Março 2010″ é o novo “março 2009″
Parece mesmo que as coisas estão mudando. Antes, a dobradinha outubro-novembro era o período de ouro dos shows internacionais no Brasil. Agora, os primeiros meses do ano estão pegando esse título pra eles. Veja março, esse abençoado mês. Se 2008 teve Interpol, 2009 teve nada menos que Radiohead. E 2010, reserva algo de bom? Claro que sim. Anota aí: quatro shows do Franz Ferdinand (Rio, Sampa, Porto Alegre e Brasília, entre os dias 18 e 23), mais dois do Coldplay (Rio, 28/02, e SP, 02/03), e inclui pra mim a abertura da incrível Bat For Lashes pro show de Chris Martin e amigos. Curtiu? Então se prepara: os ingressos do FF começam a ser vendidos esse mês, a partir do dia 19 – já para a imperdível dobradinha Coldplay + Bat For Lashes, a data a ser marcada pra tirar o dinheiro do bolso é 7 de novembro.
Novidades variadas
Semana agitada. Começou com Thom Yorke anunciando uma nova banda pra tocar seu material solo, com ninguém menos que o baixista Flea e um brasileiro, Mauro Refosco, na parada. Depois, a notícia que “Rehab” foi considerada a música mais influente da década pelo jornal inglês “The Telegraph”. Beleza, concordo, mas acho que “Yellow”, do Coldplay, merecia uma posição melhor. Afinal, olha a quantidade de bandas “tipo Coldplay” que vieram depois? E agora o Phoenix anuncia um imperdível disco de remixes para o excelente “Wolfgang Amadeus Phoenix”, com trabalhos de Passion Pit, Friendly Fires, Devendra Banhart, YACHT e Animal Collective, entre outros. Quer mais? Os lançamentos de Wolfmother, Julian Casablancas, The Sunshine Underground, Ben Gibbard (Death Cab For Cutie), Weezer e Air estão na pinta pra sair, se liga.
Todo mundo tem que ouvir
Eu já tinha até esquecido da existência deles quando, 4 anos depois, resolveram lançar disco novo. Ainda bem que me lembrei, porque o Engineers é uma banda pra lá de sensacional.
O novo disco desses britânicos que misturam lo-fi ao dream pop e ao shoegaze se chama “Three Fact Fader”, e é uma belezinha. Trata de correr atrás do Engineers novo, senão vai ficar pra trás.
Playlist
The Black Heart Procession – Rats
The Rosewood Thieves – Junkyard Julie
Xx – Intro
Karen O and the Kids – Heads Up
Girls – Big Bad Mean Mother Fucker
Radiohead – I Will
Epic45 – The Future is Blinding
Florence + the Machine – You’ve Got the Love (The Xx Remix)
Sonic Youth – Antenna
Vivian Girls – I’m Not Asleep
Os 10 discos da minha vida (on hold)
Essa semana, na terça, falei sobre uma lista sugerida pelo blog Pop Candy onde as pessoas elegiam os dez discos que levariam pra uma ilha deserta, para ouvir o resto da vida, até a morte chegar. Falei, falei, mas não coloquei os meus dez discos “preferidos” (as aspas aí servem pra mostrar que não há certeza alguma nesta lista, mas sim uma escolha mediante o desafio de listar esses dez discos).
É que, quando comecei a escrever a lista e os porquês dela ser o que é, percebi que dava uma boa pauta pra Coluna B. Então resolvi guardar o texto pra sábado que vem. =)
Mas isso não impede que você faça como o camarada Eduardo Salvalaio, que meteu nos comentários a listinha dele (foda, por sinal), a qual reproduzo agora.
Assim falou Eduardo:
“De uma forma pensada ligeiramente (sem nenhuma ordem e tb não citei ano):
01 – Radiohead – Ok Computer
02 – Flotation Toy Warning – Bluffer’s Guide To The Flight Deck
03 – Tv On The Radio – Dear Science
04 – The National – Alligator
05 – Arcade Fire – Funeral
06 – The Knife – Silent Shout
07 – Kraftwerk – The Mix
08 – The Beatles – Revolver
09 – The Durutti Column – LC
10 – The Smiths – The Queen is Dead
Difícil, viu?!”
E você, tá a fim de aceitar o desafio?
Coluna B, dia 26/09
Por questões de espaço no jornal, a Coluna B do último sábado foi uma das mais picotadas que eu já vi, hehe. Normal. Mas, aqui no blog, coloco o texto completo. Lá vai.
Anos 90 feellings: Pearl Jam
Nasci em 1981, às três da manhã de um dia de janeiro, no calor sagrado de Cachoeiro de Itapemirim. No começo da década seguinte estava, portanto, começando a formar minha personalidade, meu caráter, meus gostos e preferências. Os anos 90 foram responsáveis por várias mudanças no mundo, mas, para mim, o que essa década mudou mesmo foi a minha vida. O fim da Guerra Fria, o crescimento da internet e o impeachment do Collor são colocados lado a lado com os dias em que ganhei meu último vinil e meu primeiro CD, o fim da minha infância e o meu primeiro beijo, e a descoberta de um movimento que ajudaria a traduzir quem eu sou hoje: o grunge.
Naquele tempo, era difícil conseguir novidades. Trocávamos não arquivos de MP3, mas fitas K-7 com gravações toscas de rádios, discos e até gravadores caseiros. No interior, então, o trabalho era hercúleo. Assim, a chegada das bandas de Seattle (principalmente Pearl Jam, Nirvana e Alice in Chains) na minha vida foi marcante ao ponto de eu estampar na própria pele a importância delas na minha vida. E, agora, de uma maneira meio esquisita e desafiadora, algumas destas bandas estão de volta ao meu dia-a-dia. Na semana passada, me senti novamente com 14 anos: tinha em mãos “Backspacer”, nono disco de estúdio do Pearl Jam, e “Black Gives Way To Blue”, a volta do Alice In Chains. Mas e agora? Em que forma estão, no fim dos anos 2000, duas das maiores bandas dos anos 90? Leia agora meu parecer sobre o álbum do Pearl Jam e, na semana que vem, volte para ver tudo sobre a nova investida do Alice in Chains.
A crítica musical internacional anda empolgada com “Backspacer”. Eu também estou curtindo muito o disco. Mas, em uma breve passeada pelos sites mais bacanas, é fácil perceber que os motivos que fazem com que os gringos saúdem este álbum como o melhor da banda nesta década são diferentes dos meus. Além disso, não sei se já podemos incluir este nono disco da banda de Eddie Vedder entre os melhores do grupo. Trata-se, sim, de um grande álbum, bastante competente em sua missão de mostrar a banda mais leve, mais divertida, menos preocupada com a (imensa) responsabilidade de agradar tanto aos fãs mais antigos quanto os novos.
“Backspacer” conta com várias faixas acima da média, umas poucas maravilhosas e outras aqui e ali que, apesar de terem notável força, já não me cativam tanto. Até porque, diferente da maioria dos críticos que citei, não espero nem nunca esperei a volta do Pearl Jam ao estilo do começo de carreira. Enquanto lá fora há sempre alguém aguardando um novo “Vitalogy” (1994), talvez o disco mais punk da carreira da banda, eu já estou muito mais pro lado alternativo de “No Code” (1996) e “Yield” (1998), discos em que a banda realmente mostrou a qualidade indiscutível de seus músicos e a capacidade de inovar, ainda que permanecendo fiel às suas origens. Hoje, o Pearl Jam não é mais nem uma coisa nem outra. A banda assumiu a verve do rock n’ roll clássico, tal qual um The Who dos anos 2000, ou um Bruce Springsteen da nova geração – e talvez Vedder, um eterno combatente no mundo da música, até goste de ser o novo “Boss” dessa turma que tem o Twitter como principal veículo de informação.
Mas uma coisa é bom que se diga, fãs da banda de Seattle: há aqui música para todos os gostos. As primeiras quatro faixas de “Backspacer” são dedicadas ao punk rock. É pancada na cabeça com as três guitarras de Vedder, Mike McCready e Stone Gossard afiadas no corte. A poderosa “Gonna See My Friend” traz um Matt Cameron quebrando tudo na bateria em uma das mais empolgantes faixas lançadas pela banda ultimamente. “Got Some”, composta pelo baixista Jeff Ament, é um tantinho menos frenética e tem belos solos de guitarra espalhados pela faixa. Já “The Fixer”, primeiro single da banda, é o tipo de canção que cresce com o tempo. A levada de rock conta com uma linha de baixo bem interessante e um refrão grudento que só. “Johnny Guitar” completa a parcela divertida e despreocupada do disco e, assim como a proto-punk “Supersonic”, perdida lá no meio da segunda metade, está inserida na parte menos empolgante de “Backspacer”.
Para quem gostou do disco solo de Eddie Vedder, “Into the Wild”, trilha para o filme de Sean Penn de mesmo nome, há aqui grandes surpresas. Por sorte, a banda digeriu bem a nova faceta do vocalista e líder do grupo, ajudando que ele criasse a joia “Just Breathe”. Violões dedilhados, um teclado disfarçado, um jogo de cordas esparsas, a voz calma e uma letra matadora sobre alguém que está à beira da morte e repensa toda a vida – detalhes que se amarram para construir uma das mais belas faixas da carreira do Pearl Jam, e eu não tenho o menor problema em afirmar isso. É essa faixa que abre o caminho do grupo para um lado menos linear (e mais agradável) de “Backspacer”. Cabem aqui as duas faixas seguintes – “Amongst the Waves”, com uma estrutura cheia de pequenas fissuras e lindas melodias, e “Unthought Known”, uma das melhores do álbum, que começa suave e vai ganhando força (e uma consistente camada de piano) – e a derradeira, “The End”, um lindo folk melancólico que também lembra a fase solo de Vedder. Fechando a conta, a balada “Speed of Sound” tem melodias bem trabalhadas e remete a algumas músicas do incrível “Vs”, e “Force of Nature” é mais uma bela canção que o Who ou Springsteen teriam tido prazer em fazer. Por fim, “Backspacer”, entre grandes acertos e pequenos deslizes, é o Pearl Jam vivo, eloquente, mais pop do que nunca, dando aos órfãos dos anos 90 algo com que se lambuzar por um bom tempo.
Notinhas
Anos 90 agora (ainda?)
Ainda. É que as coisas andam fugindo do controle de tão absurdas. Veja o exemplo do Pavement, banda classe A da cena underground dos anos 90. Os caras resolveram voltar pra fazer somente um show – deviam estar com as contas atrasadas. Aí colocaram à venda os ingressos e acabou em minutos. Detalhe: o show será em setembro de 2010. Sim, daqui a um ano. Stephen Malkmus e cia resolveram aproveitar para fazer uma poupança, além de pagar as contas, e abriram mais 3 datas na sequência. Todas já esgotadas. Além disso, o Flaming Lips tá com disco novo quebrando por aí, já considerado um dos melhores do ano por quem ouviu. E “The Resistance”, novo do Muse, está em primeiro lugar nas paradas de diversos países. Quer mais? O Slash, ex-Guns, avisou que está gravando com o arroz de festa (mas só festa boa, né) Dave Grohl e com seu ex-companheiro de banda, Duff McKagan (que, aliás, vem ao Maquinaria com sua nova banda, Loaded). O disco sai no começo do ano que vem e não duvido nada que seja bom. Tá entendendo a força desse revival ou não?
Vampiros, amores e música
Eu acho a série vampiresca “Crepúsculo” uma grande porcaria, falo logo. Mas a produção de trilha sonora para o novo filme, “Lua Nova”, é algo marcante. Estarão presentes Death Cab For Cutie, Grizzly Bear, Thom Yorke, Editors, Killers, Lykke Li, Bon Iver junto com St. Vincente e Black Rebel Motorcycle Club, todos com faixas inéditas feitas especialmente pro filme. E ainda tem o Muse e outras, com faixas já lançadas. A briga pela melhor trilha sonora do ano vai ser com o aguardadíssimo “500 Dias Com Ela”, novo da Zooey Deschanel que estreia aqui lá pra novembro e tem muita coisa dos Smiths, além de Regina Spektor, Black Lips, Belle & Sebastian, Jack Peñate, entre outros. Brinca.
Todo mundo tem que ouvir
Sim, continuamos a saga dos anos 90 com o lançamento de “Black Gives Way To Blue”, novo disco do Alice in Chains após quase oito anos afastados, desde a morte de Layne Staley.
Com a formação original mais William DuVall, novo vocal, a banda chega mais pesada do que nunca, mas mantendo intacta a melancolia e o clima pessimista que fizeram a fama do Alice in Chains na década passada. Imperdível.
Playlist
Kings of Convenience – Freedom and It’s Owner
Sufjan Stevens – Year of the Sheep
The Invisible – Baby Doll
Jennie Sadler – Kept Inside
Megafaun – Solid Ground
The Xx – Basic Space
HEALTH – In Heat
Destroyer – Bay of Pigs
Japandriods – Wet Hair
Laura Jansen – Use Somebody
Coluna da semana
Um beijo. É tudo que eu peço. É tudo que eu quero. Um simples beijo e eu tenho certeza de que tudo vai voltar ao normal. Todas as coisas ruins do passado vão ficar no passado, e as coisas boas vão ressurgir, límpidas na memória como se tivessem acabado de acontecer (…)
Quer continua lendo “Um beijo”, a Ópio no Café desta semana? Chega mais aqui.
Os 10 discos da sua vida
Pra quem adora listas, essa é capaz de ser chamada “a lista definitiva”, de certa maneira. Vi no bacana blog Pop Candy essa chamada para que todos façam uma lista dos 10 discos que você mais gosta na sua vida. Cara, né fácil não. Comecei a pensar aqui e cheguei a uns 3 com certeza, mas parei por impossibilidade real e natural de fazer isso em pouco tempo.
Mas pergunto a quem quiser: se você tivesse que escolher apenas 10 discos pra ouvir pelo resto da vida, quais seriam eles? Eu continuarei pensando e em breve trago aqui a minha lista.
Coluna B, dia 19/09
Música para a manhã seguinte
Se você está abrindo o jornal agora, fresquinho, em pleno sábado, adianto logo: esta é uma coluna para se ler amanhã de manhã. Talvez, se você tiver saído ontem e tomado todas, até valha a pena, porque hoje vamos falar sobre bandas para se ouvir no dia seguinte àquela festa que parece nunca ter acabado: boas para curtir uma ressaca. E o domingo, todo mundo sabe, é o dia internacional da ressaca. Dor de cabeça, mal-estar, boca seca e aquele gostinho de cabo de guarda-chuva. Quais os discos lançados ultimamente que melhor combinam com esse sentimento cachorro, mas tão presente na vida das pessoas? A Coluna B tem a resposta na ponta da língua.
De preferência, comece com a voz sedutora de Sarah Blasko. Essa cantora e compositora australiana, que completa 33 anos na semana que vem, é capaz de fazer você deixar pra trás aquela pontada contínua no crânio para curtir “As Day Follows Night”, terceiro álbum de sua carreira. E eu não ficaria apenas com a voz: as harmonias criadas por Blasko são deliciosas. A moça faz um indie pop muito delicado, com toques de jazz permeando as faixas, seja na bateria, seja no uso do piano. A balada matadora “Sleeper Awake”, sétima faixa do disco, é capaz de mostrar com bastante apuro o toque refinado da australiana. O vocal derrama-se pela faixa enquanto cordas e teclados fazem a ponte entre a melodia e o ritmo arrastado da bateria. Mesmo com a cabeça latejando e os olhos tentando a todo custo pular para fora das órbitas, escutar Sarah Blasko é como se nada disso estivesse acontecendo. Um remédio natural com faixas tão gostosas de se ouvir quanto “Night and Day”, as climáticas “All I Want” e “Is My Baby Yours” ou a beleza poética de “Bird On A Wire”. Mas não se esqueça de tomar bastante água para hidratar o organismo.
Dá pra escutar na música da banda Noah and the Whale os ecos de tudo o que esses ingleses escutaram durante anos. O vocal de Charlie Fink é grave, como se trouxesse de volta ao mundo um Ian Curtis de ressaca, cantando com a voz bem postada, mas sem se elevá-la demais para não doer a cabeça. O fato é que as referências, entre elas o pós-punk dos anos 80, o folk dos anos 70 e bandas mais recentes, como Neutral Milk Hotel e Belle & Sebastian, fazem o NATW soar como uma banda sem pressa, sem nervosismos, preocupada com o lirismo de suas canções. E nada melhor que isso quando temos um liquidificador no estômago pedindo para o dia acabar rápido. “The First Days of Spring”, segundo disco dos londrinos, traz algumas faixas que combinam muito bem com a melancolia da ressaca, aquela sensação de mal ter dormido e ainda ter acordado em um mundo que não é o seu. Enquanto “My Door Is Always Open” derrete a sua resistência com um violão, um vocal e uma guitarra de mesa, “Blue Skies” coloca a sua vida nos trilhos novamente com uma letra de chorar e melodias tão bem amarradas que a sensação é a de que ela foi feita especialmente pra você – principalmente se o motivo da sua bebedeira do dia anterior foi um fenomenal pé na bunda. Acredite, funciona.
Folk, aliás, é um estilo musical que combina muito bem com ressaca. É como tomar Coca-Cola ou Gatorade quando acorda, parece perfeito para a tristeza do momento. E o grupo espanhol Pájaro Sunrise é, possivelmente, o que lançou o melhor disco de folk este ano. E isso não é pouca coisa. Aliás, nada no Pájaro Sunrise é pouca coisa: a banda lançou este ano “Done/Undone”, o segundo da carreira, e já foi logo metendo um álbum duplo. De um lado, “Done”, doce, criado em cima de melodias finas e dedilhados de violão acompanhados de uma ou outra percussão, um sopro aqui, uma corda ali. Lúdico. Do outro lado, “Undone”, que segue a mesmíssima linha, mas traz letras um pouco diferentes. Além do folk, o pop está sempre presente nas músicas da banda, como o indelével clima hip hop da suingada “Something Else” ou na belíssima “Young and Free”, que tem uma veia country e um teclado sessentista de tirar o fôlego. Mas é mesmo o folk, tão amigo da maldita e indisfarçável ressaca, quem toma conta das ações em “Done/Undone”.
Tal qual um bom antiácido, à melhor maneira de uma ótima noite de sono, assim como uma garrafa de água de coco geladinha, os novos discos de Pájaro Sunrise, Sarah Blasko e Noah and the Whale são ótimos antídotos para a ressaca. Se não curá-la, pelo menos suas canções vão fazer com que essas horas terríveis tenham alguns momentos de prazer. Mas, veja bem, se você não bebe, nunca teve ressaca na vida e não está entendendo bem do que estou falando, não tem problema. Esses belos discos servem direitinho para você também.
Notinhas
Franz Ferdinand
Tá uma loucura só essa vinda do Franz Ferdinand ao Brasil. Os caras, convidados pela MTV para tocar no VMB 2009, vão fazer também uma apresentação na boate The Week, em São Paulo, para cerca de 1000 pessoas – dessas, apenas 500 ingressos foram colocados à venda na última quinta (e esgotaram em questão de minutos, diga-se de passagem), o resto saiu em sorteio e promoção. O preço dos que foram à venda: 260 contos. Mas, assumo, eu acho que vale. Diz se você não queria ser um desses sortudos?
Lançamentos que não dá pra perder
Tem coisa boa chegando na praça. O Cribs lançou “Ignore the Ignorant”, disco que vai bem nas vendas na Europa e, digo logo, vale conferir. O Vampíre Weekend, por sua vez, já avisou que “Contra”, seu segundo disco, chega às lojas só em janeiro, mas não dou dois meses pra cair na nossa mão. Sobre o “Declaration of Dependence”, do Kings of Convenience, eu já falei aqui, né? Sai em outubro. E o “Backspacer”, do Pearl Jam, e o “The Resistance”, do Muse, que já foram baixados por este colunista, devem ser assunto em breve. Mas o lançamento imperdível da semana fica por conta de Laura Jansen. A holandesa que mora na Califórnia lança “Bells”, seu primeiro disco depois dos ótimos EPs “Single Girls” e “Trauma”.
De graça
Se é música de graça que você quer, é isso que você vai ter. Pelo menos é o que pensam Billy Corgan, aquele que é o único remanescente original do Smashing Pumpkins, e o Monsters of Folk, bacanudo projeto que junta Mike Mogis, Conor Oberst, Jim James e M. Ward. Corgan anunciou que vai liberar pra download, de pouquinho em pouquinho e a partir de outubro, nada menos que 44 novas faixas de sua banda. Já o disco homônimo do MOF está lá no MySpace deles, bonitinho e todo liberado pra quem quiser. Corre lá.
Todo mundo tem que ouvir
O Pearl Jam voltou. A banda que fez parte do movimento grunge (mas hoje está mais para o rock n’ roll à lá Springsteen) lança semana que vem “Backspacer”, mas o álbum já repousa nos HDs do mundo faz alguns dias.
Um disco da banda de Eddie Vedder sempre vale a audição – mesmo que seja ligeiramente inconstante, como este novo. Mas só a lindíssima “Just Breathe”, que entra fácil entre as mais belas baladas da banda, já vale o download.
Playlist
Dan Mangan – Set the Sails
Mika – Touches You
Pearl Jam – Just Breathe
Joan as Police Woman – Whatever You Like
Massive Attack – Pray For Rain
The Twilight Sad – That Birthday Present
Florence and the Machine – Girl With One Eye
The Clean – Simple Fix
Natalie Prass – A Good Man
The Postmarks – The Girl From Algenib
Ópio no Café da semana
A crônica desta semana é sobre o antirromantismo das comédias românticas. Veja um trecho:
“Estou sentado na confortável cadeira de um grande cinema da cidade. Aquela tela enorme brilha no meu rosto como uma nave interestelar que chega ao nosso planeta propondo a presença de uma nova realidade. Uma realidade alternativa, para ser franco. Mas o filme que estou assistindo não é de ficção científica – pelo contrário. Neste novo mundo proposto pela nave-mãe das fantasias, as pessoas se amam e se odeiam com muita facilidade, mudam de opinião e de vida num piscar de olhos e são capazes das maiores idiotices por causa de um sentimento (ok, deste mal digamos que o nosso mundo também sofra vez ou outra). A cada três cenas, ouço um suspiro em coro por causa deste filme. A cada cinco sequências, alguém ao meu lado diz, “ta vendo, ele nunca fez isso por mim”. A cada piscar de olhos, uma nova viagem é realizada e deixa sequelas nas pessoas que estão vidradas na telona. Eu estou assistindo a uma comédia romântica.”
Quer ler o texto completo? Vá até a coluna Ópio no Café, da Revista Paradoxo.
Coluna B, dia 12/09
Quase esqueço de postar a coluna por aqui essa semana. Aí vai.
Sondre Lerche, o impressionante
Um artista impressionante é aquele de quem você espera tudo, e mesmo assim ele consegue te surpreender. Por mais que você o conheça, saiba bastante de sua carreira, o admire por tudo que fez, ainda assim ele dá um novo passo e te deixa ali, procurando pelas pistas que deixou passar. Apenas impressionado. Em sua não tão longa carreira, mas deveras proveitosa e cheia de grandes feitos, Sondre Lerche conseguiu surpreender seus mais fieis seguidores com discos que sempre fugiam do comum. Em “Heartbeat Radio”, o quinto álbum de sua carreira, é claro que isso acontece de novo.
Sorte a nossa. Para variar, a surpresa é boa. Lerche começou sua carreira aos 14 anos, tocando no clube em que sua irmã trabalhava, e por volta dessa mesma idade começou a compor. Considerado um prodígio, o menino norueguês logo foi alçado à condição de grande músico com o disco de estreia, o fantástico “Faces Down”, de 2001. Aos 19 anos, tornou-se uma estrela em seu país e ganhou manchetes pelo mundo com um som de lamber os beiços, misturando influências do pop sessentista com tons oitentistas, o tropicalismo brasileiro, arranjos acústicos e um senso de melodia perceptivelmente especial. As faixas “Modern Nature” e “No One’s Gonna Come”, sensacionais, são provas cabais da capacidade do artista de ir além.
O que se segue é história, e das boas. Lerche lançou no começo de 2004 o incrível “Two Way Monologue”, ousando mais nos arranjos e mandando algumas faixas diretamente para os anais da música pop dos anos 2000 – tais como “It’s Over”, “Track You Down”, “Stupid Memory” e “It’s Our Job”. No trabalho seguinte, ele formou uma banda (The Faces Down Quartet) e se saiu com um disco de jazz à lá Sinatra. Não há quem não tenha se impressionado com a capacidade do cantor de se reinventar, ainda que este álbum não esteja entre os grandes de sua carreira. E, para quem achava que a partir de 2006 o negócio era ser mais suave, no ano seguinte o agressivo – e adorável – “Phantom Punch” (que traz as maravilhosas “Tragic Mirror” e “The Tape”) fez o cantor, radicado atualmente em Nova Iorque, enfiar mais uma reviravolta no movimentado roteiro de sua carreira.
Ninguém sabia o que esperar de “Heartbeat Radio”, só se tinha em mente que estaria ali mais um disco de Sondre Lerche – alguma surpresa. Após passar pelo folk pop, pelo acid jazz e pelo proto-punk com desenvoltura ímpar, o cantor e compositor colocou no bolso tudo que já tinha visto, ouvido e feito, balançou, jogou pra cima, matou no peito e tirou da cartola mais um trabalho marcante. Agora, pode-se dizer que o pop sinfônico adentra a já extensa gama de estilos que Lerche domina com precisão, mas o disco traz muito mais do que isso. Trata-se de uma seleção bastante abrangente de sons, utilizando todos os tipos de música que ele produziu nesses quase 10 anos de carreira, com baladas certeiras, refrões mágicos e passagens sublimes.
“Heartbeat Radio”, ainda que seja lotado de grandes canções, não consegue superar os dois primeiros disco do artista. Mas chega bem perto quando mostra o quanto pode ser eclético com faixas como a animada “If Only”, ornamentada com percussão e batidas de hip hop entre as entradas de melodias pop perfeitas; a balada minimalista “Pioneer”, um presente construído no violão que a influência dos Beatles deixou para Lerche; “Don’t Look Now”, com um gingado sensacional e a presença de violinos ensandecidos; “Goodnight”, outra balada bem bonita, desta vez mais clássica e arranjadas com cordas de todos os tipos. Cada faixa traz uma particularidade que deixa óbvio o cuidado do compositor com sua obra, desde a introdução, passando por versos, pontes, refrão e encerramento: “Good Luck”, que abre o disco, é um exemplo bastante fiel desse cuidado.
Também fica fácil descobrir em “Heartbeat Radio” um certo desejo de Sondre Lerche: homenagear seus mestres. “Easy To Persuade” tem um pezinho nos anos 80, com aquela pegada que o A-HA tornou clássica. “I Cannot Let You Go” e “Words & Music” tem o cheiro do indefectível charuto de Elvis Costello espalhado por elas. “I Guess It’s Gonna Rain Today” tem o DNA do Beach Boys impresso nas notas, na levada e nas cordas muito bem colocadas desse lindo pop sinfônico. Sabendo quem são os mestres do cara fica até difícil dizer que a gente ainda consegue se impressionar com a qualidade inquestionável de Sondre Lerche. É certo que, com uma formação dessas, ele vai sempre se sair com algo mais bonito e mais bem feito do que a maioria. E olha que, como eu mesmo disse, “Heartbeat Radio” nem é o melhor disco do norueguês. Mas é uma bela peça para quem quer escutar música de qualidade e exercitar a capacidade de se surpreender sempre.
Notinhas
Planeta Terra: finalmente, algo de bom?
Quem lê essa coluna com alguma regularidade sabe que eu não tava nem um pouco animado com o Planeta Terra Festival desse ano. O desânimo de não ter grandes atrações tomava conta de mim. Mas, essa semana, um luz surgiu no fim do túnel. Há fortíssimas especulações de que Kings of Leon e Yeah Yeah Yeahs estejam acertados para o festival. Até o fechamento dessa coluna nada tinha sido divulgado oficialmente, mas o blog Popload, que costuma ter fontes seguras, bancava os dois ao lado das novas últimas confirmações, Sonic Youth e Patrick Wolf. Aí, sim, o Planeta Terra começa a valer a pena. E lembre-se: os ingressos já estão sendo vendidos.
Várias
O incrível projeto Rain Down (radioheadraindown.blogspot.com), onde um rapaz de 22 anos recriou todo o show paulista do Radiohead utilizando vídeos do YouTube, já está disponível pra download. /// O resultado do Mercury Prize desse ano foi surpreendente: a nem um pouco badalada Speech Debelle, rapper britânica, ficou com o trofeuzinho despachando os comentadíssimos Florence + The Machine, Horrors, Kasabian, La Roux, Bat For Lashes, entre outros. /// “IRM” é o nome do disco que une Charlotte Gainsbourg e Beck. Diferente do que se pensa, não é um disco da filha de Serge produzido pelo rapaz: é um álbum em dupla. /// No começo de outubro, disco novo do Editors já vai estar triscando as prateleiras. Fique ligado. /// Você viu os novos iPods? Fiquei feliz com o nano com câmera de vídeo, mas ainda mais feliz com a volta do iPod Classic 160Gb. Vou querer um! /// Quem pinta no Brasil em outubro é o Prodigy. Olá, anos 90. Quanto tempo!
Todo mundo tem que ouvir
O Leaves, desconhecida banda da Islândia de quem não me canso de falar, é possivelmente o grupo mais injustiçado do mundo. Mas há uma nova chance: “We Are Shadows”, o novo disco.
É verdade que a banda não repete a qualidade extra-terrena de “Breathe”, seu indescritível primeiro disco, mas consegue belos resultados com faixas em que elevam o rock a novas plataformas. Ouça agora.
Playlist
Ramona Falls – Melectric
The Fiery Furnaces – Cut the Cake
The XX – VCR
Simian Mobile Disco – Synthesise
The Hoosiers – Killer
Bibio – Fire Ant
Blue Roses – Doubtful Comforts
Hope Sandoval & The Warm Inventions – Satellite
Epic45 – We Were Never Here
The Big Pink – She’s No Sense
Coluna B, dia 05/09
Reinventando-se… aos 20
Para falar sobre a novíssima banda The XX é preciso que se diga como é incrível a capacidade dessa molecada britânica de se reinventar assim, de uma hora pra outra, usando as referências mais improváveis e chegando a um som que não se ouve todos os dias. À primeira vista pode parecer algo normal, talvez você já tenha escutado isso antes, qualquer coisa parecida com uma batida suave, linhas de baixo simples, mas indefectíveis, melodias dissonantes se encontrando e algumas vozes sobrevoando a equação. Ok, eles são tudo isso, mas são muito mais. São dois meninos e duas meninas que vão além. Estão todos naquela idade em que faz parte da diversão ser esquisito e fazer barulho, mas que preferem mesmo escrever letras sobre sexo, amor e perdas, e fazer canções lindas de morrer.
E é justamente a tal velocidade devagar, quase parando, que dá ao XX uma qualidade incrível em suas canções. Não é nada fácil fazer música minimalista, mas que soa completa, lotada de sons, significados e momentos grandiosos. Jamie Smith, Romy Madley Croft, Baria Qureshi e Oliver Sim dão em seu MySpace uma lista curiosa e variada de influências para a música que fazem. A simples leitura de nomes como Aaliyah, Rihanna, Justin Timberlake e Mariah Carey certamente não dão uma dimensão exata de como o R&B está inserido no que fazem – é fácil percebê-lo lá, mas apenas quando lemos os outros nomes que os influenciam, como Pixies, CocoRosie, The Cure e The Kills, é que notamos o quanto essa salada dá certo.
O primeiro álbum do XX acabou de ser lançado pelo selo Young Turks, agora em agosto, e também recebeu essas duas letras como nome: “XX”. Trata-se de um disco com a sensualidade da noite encravada no seu âmago, com batidas preguiçosas esparramadas pelas músicas como lençóis de seda que se deixam envolver pela cama que cobriram na noite anterior. Pode-se dizer que o som possui algo de pretensioso, e é exatamente isso que ele deve ser: a trilha sonora de quem pretende alguma coisa. Não há bateria analógica, apenas programações rodadas em cima de camadas deliciosas de baixo, teclados e guitarras, completadas com as vozes suaves e nem um pouco apressadas de Oliver e Romy. Os quatro, aliás, estudaram na Elliot School, um colégio de artes que fica no sul de Londres e onde integrantes do Burial, Hot Chip e outros grupos proeminentes da Inglaterra também frequentavam aulas.
Da curtinha e quase toda instrumental “Intro”, faixa que dá início à viagem do XX, até “Stars”, canção que a fecha lindamente, tudo é um deleite para os ouvidos. Não estranhe se, ao final deste ano, “XX” aparecer encabeçando listas de melhores do ano. A briga está boa, e os moleques de Londres têm grandes chances de se dar bem. Não é lá tão difícil quando se tem pelo menos seis hits irresistíveis dentro de um disco de 12 canções de tirar o fôlego. O ritmo hipnótico de “Basic Space” parece parte da desconstrução de uma faixa de R&B. Ela começa com batida que lembram até o Miami Bass ou o funk carioca, mas tão reduzidas, tão subliminares ao lado das vozes masculinas e femininas, que quando o lindo refrão entra a gente já está completamente dentro da música.
Outra faixa campeã desde a primeira audição é “Crystalised”. Aqui, é a simplicidade constante dos arranjos e a viagem de dois vocais cantando letras diferentes que fazem com que ela se destaque desse mar de grandes canções que é “XX”. Já na maravilhosa “Islands”, o charme da levada pop a torna possivelmente a faixa mais acessível de um disco que nunca se deixa levar pela sedutora ideia de fazer músicas difíceis, quase intocáveis. A voz de Romy, tão lânguida em “infinity”, soa incrivelmente perfeita sobre a batida arrastada e minimalista da faixa. Quando a voz de Oliver entra na música, forma-se um diálogo apimentado entre a estrutura toda quebrada da faixa e os vocais sóbrios, uma mistura que se sai simplesmente fantástica quando a faixa entra em um crescendo no final.
Tanto a indispensável “VCR” quanto a empolgante “Nigh Time” e a fatal “Shelter” possuem características que mostram uma personalidade indecifrável, mas extremamente marcante. A delicadeza das canções é tanta que mesmo as batidas mais pesadas parecem apenas cuidadosos petelecos, com o detalhe de serem lindas e tão bem postadas que você se pergunta se The XX é mesmo uma banda iniciante, lançando seu primeiro álbum enquanto seus integrantes acabam de completar 20 aninhos de idade. O que acontece com esses jovens britânicos? De onde eles tiram a inspiração para, mesmo tão cedo, terem a capacidade de lançar um álbum tão maduro e acachapante quanto este? Se você souber a resposta, por favor, guarde com você. É melhor que essas perguntas continuem apenas retóricas. Sabe como é, em time que está ganhando não se mexe. E bandas como o XX, atualmente, estão dando de goleada.
Notinhas
Várias variadas
Uma semana de muitas notícias ruins, outras confusas e algumas boas no mundo da cultura pop e da música alternativa. Pra começar, o Noel briga com o Liam mais uma vez e os irmãos Gallagher destroçam o Oasis, uma das bandas mais importantes do século passado. Ainda não se sabe se o grupo acabou de vez, mas está separado. Eu já estou animado pro disco solo do Noel, que pra mim é dois terços da banda. Enquanto isso, a revista Época causava discórdia ao receber com um exagero de mau humor a notícia de que a banda Móveis Coloniais de Acaju inventou uma falsa revolta na história do Brasil pra justificar o nome da banda. Ora… calma lá, pessoal. Se fosse assim, mentirinhas clássicas, como a morte de Paul McCartney ou o que o Ozzy comia nos palcos todos os shows, nunca poderiam ter existido.
Aí vem o Planeta Terra Festival e anuncia mais algumas atrações pra edição deste ano: Metronomy, Maximo Park, o produtor francês Ettiene de Crecy e EX!. Metronomy é legal, mas não empolga. O Maximo Park tem um primeiro disco sensacional, e dois outros meia-bocas. O produtor francês eu não conheço e essa EX!, que é nacional, não se encontra nem no MySpace. Gente, aonde esse Planeta Terra 2009 vai parar? Mas, de última hora, eis que, via blog Popload, surge a possibilidade de dois grandes grupos darem um charme mais irresistível ao festival: Snow Patrol e Sonic Youth. Veremos. Ao final, pelo menos o Thom Yorke, sempre ele, salva um pouco a semana ao anunciar lançamento de single com duas faixas inéditas, “The Hollow Earth” e “FeelingPulledApartbyHorses”. O lançamento acontece no dia 21 deste mês.
Todo mundo tem que ouvir
Sondre Lerche, um dos meus artistas preferidos de todos os tempos, é um norueguês que mora no Brooklyn e completa hoje, 5 de setembro, 27 anos. Como se isso não bastasse, seu quinto disco, “Heartbeat Radio”, já caiu na rede.
Mais uma vez, Lerche ousou fugir de rótulos e pré-concepções para criar um disco de pop sinfônico, criativo e de belas passagens. Certamente não é o melhor álbum do artista, mas vale, e muito, a audição cuidadosa.
Playlist
Simian Mobile Disco – Bad Blood
Venus Volt – In Gold We Trust
Tiny Vipers – Eyes Like Ours
Girls – Big Bad Mean Mother Fucker
The Cave Singers – I Don’t Mind
Jennie Sadler – It’s Gone
Borrowed Beams of Light – You Have a Sun
Julian Plenti – Madrid Song
Leaves – The Painting
The Clean – The Factory Man
Ópio inédito
Mais uma coluna inédita na Revista Paradoxo. Dá uma olhada nessa aqui.
Projeto Rain Down
Para quem não sabe, o resultado final do maravilhoso projeto Rain Down, desenvolvido na cara e na coragem pelo Andrews FG, já está disponível pra download. É coisa finíssima, de emocionar profundamente a quem esteve presente no último 22 de março à Chácara do Jockey, em São Paulo, para o maior show de um artista internacional na História do Brasil. Ver todo o show assim, pelos olhos do público, com as imagens tremidas, as mãos que passam voando pelo seu campo de visão, os gritos de êxtase dos espectadores ao seu lado, é a mais próxima experiência a ir ao show do Radiohead.
Aqui está o trailer.
Sério, alguém tem que canonizar esse Andrews. Talvez, apesar de toda a repercussão que esse trabalho tem gerado desde que começou, ele não tenha a noção de como as pessoas que viram o show se sentem ao assistir novamente tudo aquilo. Só posso agradecer.
Coluna B, 29/08
The Decemberists – We Both
Go Down Together
Vez ou outra me perguntam porque o texto da coluna que coloco aqui é um pouco diferente da que sai no jornal. A resposta pode ser óbvia pra algumas pessoas, mas pra outras é bom que se explique: este é o texto original, o que sai no jornal recebe os cortes e edições do editor do Caderno 2. Beleza?
Os Esquecidos
Um dia, um lançamento deles foi algo realmente grande, que balançava muita gente. Já lotaram arenas, já foram eleitos a salvação do rock, já foram a última gota de criatividade da música alternativa. Mas alguma coisa mudou. Fala-se tão pouco nos últimos discos de Wilco, The Mars Volta e Nouvelle Vague que a sensação é a de que eles nem colocaram na praça nenhum novo trabalho nos últimos meses. Pior: dá a sensação de que essas bandas perderam boa parte de sua sedenta turba de fãs, outrora tão presentes. Teriam eles sido esquecidos?
A Coluna B pensa que não. E, na verdade, tem até um certo cuidado ao dizer isso, porque a gente sabe que não se brinca com fãs dessas bandas – principalmente os do Wilco, tão ciumentos que são. Os três grupos possuem uma base sólida de seguidores, sempre dispostos a defender seus músicos preferidos. Mas a gente precisa dizer a verdade: o grande problema com essas bandas hoje é que nenhuma delas lançou o seu melhor disco em 2009. Não que sejam discos ruins, e realmente não são, mas estão aquém do que já foi produzido em outras épocas.
O Mars Volta, que surgiu como uma dissidência da incensada At The Drive-in, teve seu grande momento logo na estreia. O discaço de 2003, “De-Loused In The Comatorium”, inesquecível, arrebatou completamente quem curte rock alternativo. Hoje, no álbum “Octahedron”, lançado em junho, as estruturas enlouquecidas ainda estão lá. As letras esquisitas, os recursos de percussão e as guitarras arranhadas também – as últimas, agora convivem com o violão. A repetição eterna de arranjos e as músicas com mais de sete minutos também sobreviveram. O fato é que este álbum, apesar de trazer boas baladas como “Since We’ve Been Wrong” e “With Twilight As My Guide”, além de faixas mais rápidas com arranjos inspirados, como “Desperate Graves”, não consegue ir além do que já fez, e bem, nos dois primeiros discos. A sensação é de que algo faltou, aquele gostinho extra. Ainda assim, é preciso que se diga: “Octahedron” consegue ser melhor que os últimos dois discos, quase impossíveis de se ouvir, dessa dupla de malucos.
Projeto encabeçado pelos franceses Marc Collin e Olivier Libaux, o Nouvelle Vague só faz covers. A brincadeira da turma é pegar uma pá de músicas conhecidas, geralmente destaques das cenas punk, pós-punk e new wave, e transformar em algo próximo a uma bossa nova respirando ares dos anos 2000. O projeto começou em 2004, sempre recebendo grandes convidados e críticas positivas. O primeiro disco estourou com covers em lenta rotação de faixas como “Too Drunk To Fuck” e “Love Will Tear Us Apart”; o segundo trazia versões em bossa nova de “Dancing With Myself” e “Bela Lugosi’s Dead”. Já “3″, o terceiro lançamento do Nouvelle Vague, faz versões gostosas de “God Save The Queen”, “The American” e “Road To Nowhere”, dá uma cara mais suave a “Say Hello, Wave Goodbye” do Soft Cell e uma deliciosa roupagem folk a “Our Lips Are Sealed”, do The Go Go’s. Mas decepciona em outras faixas, manchando as características do Nouvelle Vague e tornando “3″ um disco bom, mas algo irregular.
Para o seu sétimo disco de estúdio, o Wilco deu uma aliviada na barra. A começar por uma brincadeira simpática com a primeira faixa do trabalho: ela se chama “Wilco (The Song)”, não por acaso o mesmo nome do álbum, “Wilco (The Album)”, e, obviamente ainda mais não por acaso, da banda. Esse é apenas um exemplo de como os americanos vieram mais leves para este novo lançamento. Talvez seja por isso que “Wilco”, apesar de ser muito bom e da banda ter fervorosos seguidores, não tenha se tornado um assunto recorrente no mundo musical desde seu lançamento, em junho. Essa leveza pode não ter agradado tanto quanto a faceta mais dark da banda, de letras melancólicas sobre perdas e saudades insuportáveis. Mas há belíssimas composições neste disco novo, e que merecem, sim, serem escutadas e lembradas. A exultante combinação de violão e piano em “You Never Know” conquista de primeira, assim como a deliciosa “I’ll Fight”, que gruda sem dó na cabeça de quem a escuta uma vez só. Mas, ao final, fico me perguntando: se alguém realmente se esqueceu de “Wilco”, o disco do Wilco que começa com aquela música, “Wilco”, tá precisando tomar um remédio para memória.
Notinhas
Surpresinha
Primeiro o Arctic Monkeys anunciou um show surpresa no Brixton Academy, em Londres, e os cinco mil fãs tiveram uns 15 minutos para comprar e esgotar tudo. Depois, um dia antes da apresentação, que rolou na última quarta, disseram quem seria a banda de abertura: ninguém menos que o Them Crooked Vultures. Os caras tocaram nove músicas, e colocaram abaixo o local, antes do Acrtic Monkeys terminar de destruir tudo com seu novo show. Segundo o site da revista Rolling Stone, a noite foi histórica. Nem precisava dizer.
A guerra dos festivais
Tudo está mais claro agora. O Festival Maquinaria rola nos dias 7 e 8 de novembro, com a presença já garantida de Faith No More, Jane’s Addiction e Deftones. O Planeta Terra Festival, também no dia 7, já anunciou oficialmente Primal Scream, The Ting Tings, N.A.S.A., Copacabana Club, Móveis Coloniais de Acaju e Macaco Bong, mas juram que ainda faltam mais quatro atrações. Ambos em São Paulo, claro. E no mesmo dia, como você já percebeu. Mas, quer saber? Pra mim, nenhum dos dois pode receber aquele carimbo de “imperdível”. Faith No More certamente é um showzaço, The Ting Tings pode animar a galera, mas não basta. N.A.S.A. deve ser divertido e Jane’s Addiction e Primal Scream são grandes bandas, mas falta alguma coisa. Já o Deftones, pra mim, já passou. E as bandas nacionais, todas ótimas, podem ser vistas facilmente em outras oportunidades. Das duas, uma: ou trazem um par de bandas imperdíveis de verdade para cada um dos festivais (pelo menos pro Terra), ou vamos dar um jeito de unir esses dois eventos em um só. Aí, sim, pode dar samba.
Todo mundo tem que ouvir
Londrinos, todos com menos de 20 anos. Dois meninos, duas meninas, vocais se revezando em letras que mostram, mais ou menos como o som, a beleza que está inserida diretamente na tristeza.
Falo do Xx, banda que lançou agora em agosto seu disco de estreia, “Xx”. Para não falar demais, apenas digo: você precisa ouvir um dos discos mais bonitos deste ano. Corre.
Playlist
Neil Young – Ohio
Sondre Lerche – Goodnight
Taken By Trees – Anna
Radiohead – There There
Sian Alice Group – Longstrakt
Passion Pit – Sleepyhead
Sally Shapiro – Dying in Africa
The Decemberists – We Both Go Down Together
The Dodos – Fools
Pearl Jam – Supersonic


